Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CADERNO DA CIDADANIA > LEITURAS DO NEW YORK TIMES

Violência e drogas em Salvador

Por Washington Fagner Abreu Ramos Amorim em 12/09/2011 na edição 659

A versão online do jornal The New York Times, de Nova York, nos EUA, publicou em 28/8 reportagem intitulada “As prosperity rises in Brazil’s Nostheast, so does drug violence” (Crescimento econômico do nordeste brasileiro é acompanhado de violência ligada às drogas), assinada por Alexei Barrionuevo. O texto aborda o aumento da violência no Nordeste brasileiro, dando destaque a Salvador, capital do estado da Bahia, o programa de transferência de renda Bolsa Família que teve o Nordeste como região mais beneficiada, o aumento do tráfico de drogas na Bahia, e o fato de que Salvador, com todos os seus problemas, vai ser sede da Copa do Mundo de 2014.

A reportagem começa, em seu lead, noticiando a morte de mais um soteropolitano: “Jenilson dos Santos Conceição, 20, estava de bruços no concreto áspero, seu corpo retorcido, sandálias ainda no pé, com o sangue de suas feridas de bala manchando a ladeira”. A mensagem, descritiva, retrata o que está se tornando cada vez mais comum na capital baiana. A violência proveniente do tráfico de drogas que, se antes era destaque nas duas maiores cidades do país, Rio de Janeiro e São Paulo, agora tem buscado um novo mercado: a região Nordeste, em especial a Bahia.

A geografia da violência no Brasil foi transformada nos últimos anos. No sudeste, onde se situam cidades como Rio, São Paulo e outras localidades famosas por tiroteios e sequestros, a taxa de homicídio diminuiu em 47% entre 1999 e 2009, de acordo com um estudo realizado por José Maria Nóbrega, professor de Ciência Política da Universidade Federal de Campina Grande. Mas no Nordeste, região pobre que mais se beneficiou com os programas de transferência de renda que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu durante seus oitos anos no cargo, a taxa de homicídios quase dobrou no período de dez anos, transformando esta área na mais violenta do país.

Bases Comunitárias e UPPs

Mas, antes de falar em homicídios, deve-se definir o conceito de violência. A violência é um dos temas mais preocupantes das sociedades modernas, principalmente nos grandes centros urbanos. O professor Carlos Alberto da Costa Gomes define violência em seu artigo “O desafio da segurança pública para a Bahia” como “aquilo que é contrario ao direito e a justiça”. Neste mesmo artigo, o autor ainda traz três tipos de violência: a estrutural, a de delinquência e a de resistência.

Cada um desses tipos de violência tem uma particularidade. A violência estrutural, de acordo com Gomes, é decorrente de instituições como a própria família, sistemas econômicos, costumes e da estrutura política. A violência da delinquência visa única e exclusivamente vantagens pessoais. Já a violência de resistência é a resposta à violência estrutural.

A reportagem do jornal online aborda estes três tipos de violência em “efeito cascata”. Um problema está diretamente ligado ao outro. Apesar de o Nordeste ter sido a região que mais se beneficiou com o programa Bolsa Família, ainda sofre com a pobreza, com a falta de recursos, mão de obra especializada e tecnologia – fruto do descaso do país para com esta região.

Assim, o jornalista faz comparações entre o modelo de combate ao tráfico de drogas no estado do Rio de Janeiro, com as Unidades Pacificadoras, e as Bases Comunitárias em Salvador tendo em vista que as duas capitais vão ser anfitriãs da Copa do Mundo de 2014. As Bases Comunitárias de Segurança que estão sendo instaladas são similares às “Unidades de Polícia Pacificadoras” que o governo do Rio tem utilizado – em meio a muitas polêmicas – desde 2008 para conter a violência.

“Eu não quero ser rico, não”

O governador da Bahia, Jaques Wagner, analisa o aumento do tráfico de drogas em Salvador e, por isso, o aumento da violência, devido ao crescimento econômico que vem acontecendo no país. O boom econômico que o jornalista do Times ilustra é o motivo para traficantes buscarem novos mercados. “Se o mercado consumidor está crescendo, o traficante de drogas virá aqui também”, disse Wagner. “O progresso social no Brasil é visível. Mas, ao mesmo tempo, ainda temos problemas com o trafico de drogas e com a falta de respeito pela vida humana”.

O que deve se pensar que não basta o país crescer economicamente. O Brasil vem ganhando notoriedade internacional, vem se desenvolvendo. Mas, em um país continental este desenvolvimento não chega a todos. No documentário Falcão: meninos do tráfico, o rapper MV Bill e o sociólogo Celso Athayde retratam a vida de jovens nos morros do Rio de Janeiro e a inserção, no tráfico, de promessas para um país melhor. Em uma das entrevistas, um jovem identificado como De Verde acusa o governo pelo aumento do trafico.

“Se o governo não melhorar nada, tá predestinado a seguir o mesmo caminho que o nosso aí… (gritinhos de crianças ao fundo) e isso aí é uma coisa que como meu pai eu não quero. Nem pro meu filho, nem pro meu vizinho, nem pra ninguém. Então, se o governo não melhorar nada nesse país, amanhã ou depois, é o retrato dele que está aqui no meu lugar” (ATHAYDE E BILL, 2006, p. 182).

O que este jovem pede para o país é mais educação, mais igualdade para todos, saúde de qualidade, urbanização, “comida, diversão e arte”. E quando estes jovens não têm as suas necessidades básicas, muitos acabam encontrando no tráfico a forma mais fácil de conseguir uma vitória. De Verde completa:

“[…] meu sonho é sair dessa vida, né, mano, porque eu sei que não leva a nada (emocionado). Meu sonho é ter uma moto importada, meu sonho é ter uma casa. Nem que seja uma simples mesmo, pra que eu possa trabalhar, ter uma casa para eu botar minha família, pra minha família viver bem. Eu não quero ser rico, não. Eu só quero apenas ter um meio de vida melhor, só pra minha mãe chegar em casa, e aí, filho” (BILL E ATHAYDE, 2006, p. 184)

“O carrasco e o condenado”

O sistema prisional do país é precário e obsoleto. Os presídios sem estrutura, como, por exemplo, a Penitenciária Lemos de Brito, em Salvador, tem cada vez mais suas celas lotadas e sem segurança. Michel Foucault, em seu livro Vigiar e Punir, traz uma genealogia atual do complexo científico judiciário que, para ele, mascara a singularidade.

“Mas uma coisa é singular na justiça criminal moderna: se ela se carrega de tanto elementos extrajurídicos, não é para poder qualificá-los juridicamente e integrá-los pouco a pouco no estrito poder de punir; é, ao contrário, para poder faze-los funcionar no interior da operação penal como elemento não jurídicos; é para evitar que esta operação seja pura e simplesmente uma punição legal; é para escusar o juiz de ser pura e simplesmente aquele que castiga” (1999, p. 21).

No livro Abusado: o dono do Morro Dona Marta, o jornalista Caco Barcellos retrata como um traficante foi recebido na Bahia pelos policiais.

Cada sessão do pau-de-arara durou perto de uma hora. Tempo em que os carrascos os espancaram com cassetete de madeira na planta dos pés e com palmatória de borracha nas costas e pernas. Queria forçá-lo a falar nome de fornecedores de cocaína do Rio e de consumidores da Bahia. Era quase insuportável a pressão sanguínea na cabeça pendurada para baixo (2003, p. 159).

Esse nível de reabilitação que acontece nos presídios do país lembra mais a prática de suplício espetáculo que acontecia no século 18 na Europa, contada por Michel Foucault.

“No castigo espetáculo um horror confuso nascia do patíbulo: ele envolvia ao mesmo tempo o carrasco e o condenado. E se por um lado sempre estava a ponto de transformar em piedade ou em glória a vergonha infligida ao supliciado, por outro lado ele fazia redundar geralmente em infâmia a violência legal do executor” (1999, p. 08-09).

A eliminação de “grupos de extermínio”

A reportagem do Times afirma ainda que, para o setor de turismo baiano, Salvador não esta preparada para receber a Copa do Mundo de 2014 devido ao agravamento da violência e do tráfico de drogas.

“Agências de viagens dizem que estão preocupadas com o aumento da criminalidade violenta em favelas da Bahia – como os assaltos que ocorrem no Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, um dos principais pontos turísticos da cidade” (The New York Times, 2011).

O mais interessante é que esta reportagem aparece em um momento em que o governo da Bahia comemora uma diminuição de 13% nos homicídios até julho de 2011 em comparação aos primeiros sete meses de 2010. Mas a mesma reportagem traz um contraponto a este dado. Na comunidade Nova Constituinte, a chegada do crack tem sido devastadora. O líder comunitário Arnaldo Anselmo afirma que uma série de assassinatos relacionados à droga tem ocorrido na área durante os últimos cinco anos, incluindo o massacre de seis adolescentes num embate entre gangues rivais.

A reportagem do Times afirma ainda que o governo vem tentando combater este mal.

“O governo da Bahia criou um departamento de homicídios com 150 funcionários focado em investigações de assassinatos. Entre os desafios da nova unidade, está a eliminação de ‘grupos de extermínio’, milícias compostas por policiais que praticam crimes e são suspeitos de dezenas de assassinatos” (The New York Times, 2011).

O que fica visível na reportagem é que os homicídios na região Nordeste do Brasil têm índices cada vez maiores. Um país que vai sediar a Copa do Mundo a menos de três anos tem nesta região quatro sedes que vão acolher os jogos do mundial da FIFA: Salvador, Recife, Natal e Fortaleza. O destaque maior é para Salvador, pois, além de ser vitrine turística, é a quarta maior capital do país.

O aumento do programa Bolsa Família na região, em especial na Bahia, cresce progressivamente em conjunto com a violência e o tráfico de drogas, como é descrito na reportagem. O governador Jaques Wagner atribui este aumento à crescente economia do país. Mas, particularmente, acredito que este aumento ainda se deve à falta de educação, saúde, emprego e saneamento, necessidades básicas para o cidadão poder viver bem. Atribuo ainda aos desvios de verbas públicas para bolsos, cuecas e meias de políticos.

É importante destacar o número de homicídios a homossexuais na Bahia – o que não é retratado pelo Times. De acordo com o Grupo Gay da Bahia, o estado é recordista no assassinato a estas pessoas. A pesquisa aponta que em 2010 foram 29 homicídios contra gays, lésbicas e travestis. Esta prática pode estar relacionada não somente à homofobia, mas também ao tráfico de drogas.

Esta reportagem é relevante, pois destaca que Salvador, assim como Rio de São Paulo, é uma cidade violenta. A matéria de Barrionuevo serve para que as autoridades da Bahia e do Brasil façam realmente desse Brasil um “País rico, um País sem pobreza”.

Bibliografia

ATHAYDE, Celso e BILL, MV. Falcão, meninos do tráfico. Rio de Janeiro, Objetiva, 2006.

BARCELLOS, Caco. Abusado: o dono do Morro Dona Marta. Rio de Janeiro: Record, 2005.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. RAMALHETE, Raquel (Trad.) Petropolis, Vozes, 1987.

GOMES, Carlos Alberto da Costa. “O desafio da segurança pública para a Bahia”. 2010, disponível em: www.observatorioseguranca.org. Acessado em: 07 de setembro de 2011.

The New York Times

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[Washington Fagner Abreu Ramos Amorim é jornalista, Salvador, BA]

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