Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CADERNO DA CIDADANIA >

Waldemar Ciglione, o rei da avenida Angélica

Por Wladir Dupont em 11/11/2008 na edição 511

Num de seus mais belos e comoventes romances urbanos, ao fundo, perene e misteriosa, a São Paulo dos anos 1940-50, Ópera de Sabão (1ª edição em 1978, outra mais recente da Companhia das Letras), o maior cronista das glórias e misérias da Paulicéia, Marcos Rey (Edmundo Donato, 1925-1999), contava a história de uma família de classe média baixa da Vila Mariana, os Manfredi. Ele, o marido, Manfredo, dono de uma empresinha de mudanças e, nas horas de folga, predador incansável de viúvas solitárias; ela, a esposa, Hilda, a prestimosa madame Zohra, astróloga de plantão da rádio Ipiranga. Enquanto Manfredo cultivava amores adúlteros e vivia obcecado com o suicídio de Getúlio Vargas, Hilda, ao microfone, orientava suas consulentes tristes e aflitas, dos estúdios da emissora, um casarão na avenida Angélica.

Cativo de minhas próprias lembranças das radionovelas que, menino ainda, ouvia ao lado de minha mãe, no Alto do Pari, anos 1950, eu me perguntaria muito anos depois: teria Marcos Rey, no momento de situar parte da trama do livro, se inspirado na mais popular rádio da época, líder de audiência, a PRA-5, Rádio São Paulo, cujo slogan era ‘A voz amiga’?

Fino conhecedor dos meandros boêmios e artísticos da capital paulista, os perigos e fascínios da noite incluídos, Marcos Rey, cioso de suas fontes de inspiração, não abria o jogo, apenas insinuava alguma pista, divertindo-se com a reação dos amigos, entre eles, com muita honra, este jornalista.

Emissoras Unidas

Pois semana passada morreu uma figura querida daqueles tempos e que, com toda certeza, poderia confirmar que o escritor, sim, se referia, ao menos em alguns aspectos, à Rádio São Paulo: Waldemar Ciglione, que, aos 89 anos, ainda trabalhava, na sua firme condição de jornalista veterano, como diretor superintendente da Rádio Mundial. Durante vinte e poucos anos, Ciglione reinou como o maior galã de radionovelas da cidade, escritas e produzidas num casarão da avenida Angélica, então sede da hoje saudosa Rádio São Paulo.

Até há vinte anos, na última vez que o entrevistei para a antiga Folha da Tarde em sua casa na periferia da cidade, Ciglione mantinha, no andar de baixo, uma salinha de paredes cobertas de fotos, nas mesas, álbuns, recortes de jornais e revistas, rico material que exibia, orgulhoso, aos amigos, fãs e, sobretudo, aos estudiosos mais jovens pesquisando a memória radiofônica de São Paulo.

De fato, Ciglione tinha muito para contar, começando pela trajetória da própria emissora, que era parte do grupo Emissoras Unidas (as outras eram a Record e a Panamericana), iniciado em 1931, quando o jovem advogado Paulo Machado de Carvalho comprou uma pequena emissora, combalida, e a transformou na poderosa Rádio Record. Enquanto a Record produzia concorridos programas de auditório em seus apertados estúdios da rua Quintino Bocaiúva (musicais e comédias), a Panamericana, ali pertinho, na ladeira da rua do Riachuelo, também de instalações acanhadas, cobria, já com agilidade, o futebol, com ênfase no campeonato paulista.

A barulhada do sonoplasta

Na caçula São Paulo, o dr. Paulo, atento às novidades, observou, em 1941 como um dramaturgo respeitado na época, Odulvaldo Viana, voltara impressionado da Argentina com o sucesso do chamado radioteatro e implantara, também com enorme êxito, o gênero na carioca Rádio Nacional – dramalhões levados diariamente ao ar, que se estendiam meses a fio, cultivando o fértil imaginário das donas de casa, um público feminino sempre ávido por fantasias românticas, amores épicos, no ar um muito disfarçado tempero erótico – quem sabe para compensar seu cotidiano cinzento, escravizado e sofrido nas mãos pesadas de maridos machistas.

Aos poucos, a São Paulo montou o seu cast (termo americanizado da época) de atores e atrizes para ler e recriar com voz e respiração treinadas os mais variados papéis – vilões, heroínas, inimigos à espreita, intrigantes de carteirinha, pais e filhos em conflito, a amiga ciumenta e ressentida: além de Ciglione, brilhavam outro galã muito popular, Odair Marzano, as irmãs Nara e Leonor Navarro, Ceci de Alencar, Waldir de Oliveira, Olavo Palhares e muitos outros, cujos rostos saíam com freqüência em revistas do ramo, destaque para a lidíssima Revista do Rádio, editada no Rio. Na sua foto oficial, por exemplo, Ciglione aparecia, bonitão, algo rechonchudo, com o bigodinho fino da moda e o cabelo glostorado (de Glostora, um creme, cor abacate, para deixar tudo assentado e brilhante).

Toda essa gente diariamente a postos no casarão da avenida Angélica, driblando nos corredores e no jardim as fãs adolescentes indóceis e ruidosas, recitava suas falas dramáticas com o indispensável apoio técnico do sonoplasta Benito di Nardo, inventor da barulhada que reforçava e temperava o desenrolar da história – batidas de porta, ventos zumbindo, trotes de cavalos, tinir de copos e talheres, ruídos fantasmagóricos. Os patrocinadores eram em sua maioria produtos de higiene e beleza.

No rádio até o fim

Os textos do radioteatro eram criados originalmente ou então adaptados de histórias estrangeiras – podia ser de Cuba, Argentina, México. Uma mocinha mineira de Muzambinho, Dulce Santucci, escreveu muitas novelas na Rádio São Paulo antes de se transferir para a TV Excelsior e ali lançar, em 1963, a primeira telenovela brasileira, 2-5499 ocupado, com o jovem casal de atores Tarcísio Meira e Glória Menezes. Produtiva, Dulce, em certa época na São Paulo, assinava seis novelas diferentes ao longo do dia.

Ciglione, voz forte e bem modulada, também magnífico leitor de crônicas sentimentais com um toque amoroso, escritas por outro craque da época, o compositor Fred Jorge, calculava que participou de umas cinco mil radionovelas, quase sempre na pele do mocinho, aquele sortudo que no final, depois de vencer inúmeros e pesados obstáculos, levava a mocinha feliz e chorosa para casa.

Com a chegada da televisão, em 1950, começou o lento declínio do gênero, que gradualmente saiu de circulação. A São Paulo foi vendida em l967, fechando assim a fábrica maior de sonhos e ilusões da cidade. Houve algumas tentativas, frustradas, de Ciglione, inclusive nos anos 80, para reavivar o radioteatro em outras emissoras, mas a televisão, à medida em que se fortalecia, atraía aquele mesmo público feminino com telenovelas bem produzidas e interpretadas – na Excelsior e na Tupi, depois na Globo. As ouvintes não precisavam mais contentar-se com a voz de seus ídolos, imaginando como eram fisicamente na vida real; agora podiam apreciá-los de corpo inteiro na telinha.

Homem de saúde privilegiada, Ciglione nunca se aposentou de vez; envelheceu mas continuou no rádio até o fim de sua vida, sempre homenageado e respeitado por seus pares – tanto os velhos radialistas, dos quais ele era um dos raros sobreviventes, como as novas gerações.

Foi embora e deixou o jornalista com outra pergunta sem resposta: teriam Marcos Rey e Waldemar Ciglione se conhecido algum dia e batido um papo nostálgico sobre a gloriosa Rádio São Paulo?

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Jornalista e escritor

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