Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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CADERNO DO LEITOR >

Liberdade para o debate

28/09/2004 na edição 296

O conceito de liberdade de imprensa é simples de ser definido, e mais simples ainda de ser defendido. Defender a liberdade de imprensa é obrigação de toda a sociedade. Entretanto, sua defesa intransigente não significa inviabilizar qualquer discussão que busque maior qualidade. Estamos insatisfeitos com a televisão, desconfiados dos jornais e não habituados ao rádio. É certo que os meios de comunicação são fundamentais ao desenvolvimento de qualquer sociedade; é certo que, para exercer suas funções de informar, estimular o debate, denunciar, criticar e formar opinião, devem ser absolutamente livres; também é certo que devem ser tão livres quanto responsáveis e precisamos tanto da mídia quanto da ética e do profissionalismo de quem a conduz.

Mas, se há tantas certezas do ponto de vista conceitual, o mesmo não pode ser dito em relação à execução. E é isso que a sociedade começa a questionar. Se causa arrepios a fiscalização externa – termo incorreto, já que a sociedade não é ‘externa’ à imprensa – que se discutam alternativas. Que tal rever o papel da ABI? Afinal, será que fiscalização só não é pecado se for exercida sobre cidadãos ‘comuns’, juízes, médicos, prostitutas, engenheiros, advogados, políticos, açougueiros, carroceiros, pilotos de avião, empresários, enfim, qualquer um, menos o jornalista?

Esconder incompetência, preguiça, baixo custo, desrespeito, falta de profissionalismo, ética ou inconfessáveis interesses sob o manto sagrado e intocável da ‘liberdade de imprensa’ não parece saudável. A liberdade seguirá ameaçada enquanto dependermos exclusivamente da boa vontade, índole ou consciência daqueles que dirigem os meios. Ou, como insistem os que não querem discutir, do poder do controle remoto, como se adiantasse ter 100 alternativas sem nenhuma qualidade. A possibilidade de controle da mídia e de seus agentes causou reações esperadas, mas incomoda a histeria corporativista dos jornalistas que tentam abortar o debate. Temos presenciado erros graves cometidos pela mídia, destruindo nomes, histórias e reputações ou até patrocinando guerras, erros nem sempre involuntários ou justificáveis pelas limitações humanas.

A construção da notícia (no bom sentido) através de investigação, checagens e confrontações vem sendo substituída pela comodidade, mas também pelo risco, patrocinado pela internet. Temos que olhar criticamente o que nos é apresentado, avaliando a quem os meios de comunicação estão servindo. O sistema de concessões permite teoricamente que a sociedade defina quem deve receber o direito de explorar um meio de comunicação. Por pouca informação, ainda consideramos ‘donos’ os concessionários de veículo de comunicação, e não parece interessar aos nossos representantes reavaliar crítica e periodicamente tais concessões (será coincidência que haja tantos políticos detentores de concessões?).

Certamente, haverá um tempo com menos ‘ameaças’ como a criação de órgãos de controle. Talvez, até, um dia em que a mídia investigue e denuncie a mídia. Só chegaremos a esse dia com uma mídia forte e livre. Livre do poder econômico, do preconceito, da manipulação, da concentração em poucas e poderosas mãos, da preguiça, da falta de ética. Que a liberdade seja mais ampla do que simples bandeira de reação à observação crítica da sociedade.

Thogo Lemos dos Santos, médico, Uberlândia, MG



Não limem a idéia

Os casos que envolvem empresas e profissionais de mídia correm no ritmo da justiça comum e daí… simplesmente não se faz justiça. Nos casos da Escola Base e do Ibsen, por exemplo. Por acaso a Folha, a IstoÉ e a Veja tiveram algum tipo de punição? Assim como pacientes podem recorrer ao Conselho de Medicina para punir maus empresários ou profissionais, a categoria dos jornalistas também deve criar mecanismos para fiscalizar e punir o mau exercício da profissão. Se não é o Conselho, não vamos simplesmente limar a idéia, que seja outra instância.

Fabiana Tambellini, educadora, São Paulo



Não precisava tanto

Bem no clima milloriano (assim, relaxado) deixa eu tirar o meu da reta, tendo em vista o calibre do canhão utilizado pelo jornalista, nada mais nada menos que a Suprema Corte Americana, que bom, leiamos um trecho: ‘O espírito do jornalismo está em que, na pressa, ânsia ou necessidade de sua profissão, o jornalista, se fosse se deter em busca de provas definitivas, jamais escreveria coisa alguma’. Mas… a coisa funciona assim? Ouviu falar, tasca e vê o que acontece?

Sabemos que não, os jornalistas sérios lutam para que não seja assim, porque assim não pode ser, e na verdade não é, exceto quando se trata de mau jornalismo. Outro trecho da sentença da SCA: ‘A sanção contra o jornalista deve ser a da própria opinião pública, e através da lei, quando ficar provada de maneira irrefutável a intenção dolosa’. O problema é que a opinião pública só pode julgar se dispõe dos dados corretos, da notícia isenta, da informação relativizada e contextualizada. Ou seja, ela depende da mídia! Tudo isso parece bastante óbvio. E essa história de que os homens públicos têm acesso às tribunas populares e podem neutralizar ‘imediatamente qualquer mal que lhes atinja a reputação’ é muito, muito relativa. Não foi o caso de Ibsen, nem do ministro… do ministro… puxa, já faz tanto tempo, terá morrido? Para encerrar, receito ao grande Millôr seu próprio – e genial – remédio: livre pensar, é só pensar! Pra que usar a sentença, ou parte dela, sei lá, da SCA?

Luiz Paulo Santana, Belo Horizonte

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Imprensando – Entre Aspas [rolar a página]



Castigo merecido

A jornalista Vera Rotta errou. Como ela não inventou? Houve, sim, uma ‘consubstanciação’, uma fraude, uma adulteração. Recebeu o castigo merecido. Não compreendi a colocação de Dines.

Fernando Magalhães, jornalista, Fortaleza

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Olho na mídia, o único Conselho – Alberto Dines



Maioria desinformada

Ótimo texto [‘Precisamos de um Conselho Federal de Jornalismo?’]. Um dos artigos mais lúcidos que li recentemente. É um absurdo que suspeitas tão graves (sobre as urnas eletrônicas, por exemplo) não sejam objeto de pautas mais freqüentes na grande imprensa deste país. O autor, mesmo não sendo jornalista, mostra-se muito informado sobre os bastidores da profissão. Quanto ao CFJ, estou entre aqueles que defendem sua necessidade. Pelo que li até o momento, poucos são os que apresentam uma argumentação contrária sólida. A maioria está desinformada. E, os patrões, é lógico que apostam contra a organização da categoria.

Sergio Luiz Fernandes, jornalista, Cuiabá

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