14/10/2003 5/13

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QUALIDADE NA TV
Pior do que droga

Estava assistindo ao programa do Datena na TV Bandeirantes e vi matéria sobre a morte de um motorista em São Paulo, que foi reclamar de uma multa de trânsito a um pessoal que operava um radar, acabando por ser baleado e morto por um PM. Estranhamente, uma ocorrência de violência policial transformou-se em protesto do apresentador contra uma suposta "indústria de multas" na cidade. Esse comportamento é nocivo à sociedade, principalmente para cidadãos não-esclarecidos. Leva multa quem viola as leis de trânsito. Ser contra as multas é promover um trânsito perigoso e violento. Importante: foi dado foco exagerado ao ato do policial que atirou, mas ninguém perguntou às pessoas entrevistadas o que o motorista assassinado pretendia com a manobra de retornar para "reclamar" da multa. Gerar violência e ser vítima dela?

Hoje, 11/10, estava assistindo ao Jornal da Record, quando a jornalista Salete criticou o fisco federal por autuar empresas erroneamente enquadradas no regime fiscal do Simples. Ora, se a lei especifica as atividades econômicas que podem ser enquadradas no regime fiscal simplificado, o erro dos proprietários dessas empresas é condenável, não a atitude do governo de rever os enquadramentos suspeitos por parte dessas "pequenas empresas". Elas violaram a lei, que culpa tem o governo, neste caso?

Proíbem propaganda de bebida, tabaco etc., mas ninguém proíbe esse jornalismo equivocado que passa ao cidadão uma versão errada dos fatos noticiados. Esses jornalistas fazem mais mal à sociedade do que as drogas.

Auricélia Costa, São Paulo

 

Jornalismo de indignar

No programa Bom Dia Brasil, da Globo, fiquei indignado com as matérias sobre desemprego no país. Dizer que existem vagas sobrando de um lado e desemprego de outro é simplesmente ridículo, assim como dizer que os índices de desemprego não estão considerando a "ótima" situação econômica do interior. Na minha opinião tudo isso é apenas uma distorção da realidade pelo jornalismo de conveniência da Globo. Usando o mesmo exemplo dado por esse jornalismo tendencioso, que nada apura: se uma vaga de confeiteiro não é preenchida pelas dificuldades de se encontrar um trabalhador que saiba fazer salgados isso é, na verdade, prova de que o problema é político por excelência, e não econômico, haja vista que esta situação não existiria não fosse a exploração neoliberal que exige a multifuncionalidade.

Essa conversa mole de despreparo e qualificação também já está se tornando entediante. Gostaria de lembrar aos gênios do jornalismo global que, nos dias de hoje, a vítima, não é somente a grande massa desintelectualizada e convenientemente desinformada. Entre as vítimas deste processo de exploração humana que assistem aos noticiários da Globo, ao contrário do passado, de pouco mais de 10 anos, está também grande parte da classe média intelectualiza que se irrita e se indigna com esse tipo de jornalismo.

Muitos desta classe média formadora de opinião eram antes indiferentes a esse tipo de jornalismo. Hoje, porém, além de indignados estão, cada vez mais, se preocupando em esclarecer essas distorções aos despreparados e desinformados. Diga-se de passagem, as insuportáveis conseqüência dessa política neoliberal já são tão evidentes que dispensam grandes preparos intelectuais, fazendo com que a experiência empírica de nosso dia-a-dia seja o bastante para percebê-la e compreendê-la, mesmo com a "cortina de fumaça" criada por jornalismos como esse que a Globo costuma apresentar. Estejam certo de que, se por um lado, minhas opiniões sobre essa nefasta ideologia neoliberal são questão de opinião pessoal, por outro lado suas desastrosas conseqüências já são quase consenso nacional.

"Para os descrentes na possibilidade de alternativas econômicas que não contem com a benção da comunidade financeira internacional e não estejam perfeitamente enquadradas nos cânones da ortodoxia, não custa lembrar que o obstáculo ao desenvolvimento nacional não é um problema técnico. O bloqueio a uma política econômica voltada para o atendimento das necessidades nacionais é sobretudo político." (Plínio de Arruda Sampaio Jr.) Indignado,

Rogério C. Medeiros

 

O vilão morre no fim

É interessante como novelas são reprodução do sistema em que vivemos: quem rouba nunca é punido, quem humilha os outros jamais tem os castigos de Deus ou dos homens. Na novela Mulheres apaixonadas a regra é a mesma. O playboy depois de tudo conquista a prima, o outro playboy músico terá na médica o fim de seus dilemas de paixão e o homem que bate em mulher terá prêmio. A novela só serve para mostrar que neste mundo manda quem pode e obedece quem tem juízo, ou que o dinheiro fala mais alto. Trata-se de mais um folhetim global de enaltecimento da burguesia e humilhação do povão. Um verdadeiro show de alienação. Será que o autor já leu o Observatório? Ou o mundo dele não contempla a realidade nem ele se incomoda com o que nós, pobres mortais, pensamos?

Francisco Djacyr Silva de Souza, Fortaleza

 

A vilã apanha no fim

Acredito que a qualidade da programação da televisão brasileira somente será aprimorada quando todos os profissionais ligados a ela, direta ou indiretamente, empreenderem uma verdadeira e constante análise crítica do conteúdo transmitido. Por esse motivo, portanto, não posso deixar de manifestar minha reprovação diante das cenas em que a personagem Dóris, da novela Mulheres apaixonadas, foi espancada e humilhada perante várias pessoas por seu pai. As imagens foram ao ar no dia 10 de outubro, quando foi exibido o último capítulo da trama, e são uma prova de que a questão dos direitos humanos precisa ainda ser incansavelmente discutida no Brasil. O autor da novela deu passos importantes ao abordar o preconceito vivido pelas lésbicas e a difícil situação enfrentada pelas mulheres que apanham dos maridos. Mas retrocede ao apresentar a violência física e moral do pai contra a filha como uma medida lícita de educação, com agravante de que essa filha não é uma criança, e sim uma mulher.

Quase todo fim de novela é a mesma coisa. Os bonzinhos casam e são felizes para sempre; os maus, recebem o castigo merecido e em algumas ocasiões se convertem ao bem. Conforme manda o figurino, a vilã Dóris foi então crucificada. Nesse caso em especial, porém, o fim escolhido para a personagem destoa de tudo daquilo que há muito tempo as organizações defensoras dos direitos humanos pregam: que a integridade física e moral do homem não pode ser violada, seja ele criminoso, prisioneiro de guerra, negro, homossexual, judeu ou uma Dóris da vida.

Como projeto de conclusão de meu curso de Jornalismo, estou produzindo, juntamente com uma colega, um livro-reportagem relacionado à questão da violência doméstica. Durante a realização das entrevistas para este trabalho descobri que as famílias precisam rever urgentemente seus métodos de educação. Porque a violência dentro de casa – seja ela física ou moral – forma meninos de 8 anos que manipulam as pessoas, roubam, mentem, dormem durante dias na rua e estupram irmãs de 4 anos. Essa história não é hipotética, mas sim um caso real contado por um dos profissionais entrevistados para o livro.

É por isso que as cenas da novela, além de enaltecerem o machismo, cultivam o mito da onipotência dos pais e da sagrada família. E isso é algo muito sério quando lembramos que televisão dita padrões e difunde comportamentos. O autor de Mulheres apaixonadas foi ainda muito aclamado, e com razão, ao abordar a necessidade do desarmamento no Brasil. Hoje, entretanto, é preciso realizar também um desarmamento dentro dos lares do país. Uma verdadeira queima em praça pública das varas, cintas, cordas, ameaças, palavras depreciativas e olhares amedrontadores utilizados, dia após dia, por pais que se julgam tão onipotentes quanto os bandidos que circulam pelo Rio de Janeiro.

Juliane Bazzo, estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Paraná

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