Sexta-feira, 22 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CARTAS NA MESA > Websérie

Conheça os debatedores do episódio sobre jornalismo investigativo

Por Anna Victória, Heloisa Freitas e Luiz Felipe Mihich em 13/06/2018 na edição 991

Perfil dos participantes

Cíntia Gomes, 34 anos, é jornalista, formada pela Universidade Anhembi Morumbi. Cursou pós-graduação em Comunicação e Mídia. Nascida e criada no bairro do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, Cíntia produz um jornalismo independente, com uma grande incerteza no quesito financeiro, mas repleto de ideais e voltado para bairros periféricos.

A jornalista não acredita que produza um material ativista. Prefere não estereotipar o meio que trabalha, já que as periferias na maioria das vezes são rotuladas com clichês cheios de preconceito.

Atualmente trabalha como repórter e editora na Agência Mural, projeto nasceu em 2010. De início era apenas um blog, mas mostrar o outro lado de um lugar que é marginalizado pelas mídias tradicionais (os bairros periféricos) deu tão certo que se tornou uma agência. A missão dos muralistas, como são chamadas as pessoas que atuam na agência, consiste em mostrar a cultura dos lugares onde habitam e os eventos que lá ocorrem. Cíntia por exemplo, é correspondente no Jardim Ângela.

Ela fez parte do coletivo Nós, Mulheres da Periferia, que possui as mesmas ideologias e objetivos da Agência Mural, porém com um diferencial: todo seu conteúdo é produzido por mulheres que conhecem a realidade da periferia. Intitula-se como um jornalismo apartidário, independente e transparente.

Cíntia trabalhou como assessora de imprensa na empresa Lead Comunicação, reconhecida nacionalmente pela sua atuação na comunicação de empresas e organizações sustentáveis, até março deste ano.

Também trabalha para plataformas de notícias independentes como o site Curta SP, além de escrever para o blog mural do jornal Folha de S.Paulo.

José Cícero da Silva, 35 anos, nasceu em Agrestina, cidade localizada no interior de Pernambuco. O jornalista chegou a São Paulo no ano de 1985, aos dois anos de idade, e foi morar na periferia da cidade, mais precisamente no Jardim São Luís, no qual passou 27 anos de sua vida. Atualmente, José mora no Capão Redondo.

Fotógrafo e videomaker, atuou como freelancer para veículos de comunicação que abordam violações de direitos humanos. Contribuiu para a revista Carta Capital, para a rede Brasil Atual e para o site Outras Palavras. Atualmente o jornalista trabalha como fotógrafo e videomaker para a Agência Pública de Reportagem e Jornalismo Investigativo, primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil. As reportagens são pautadas pelo interesse público e foram republicadas no ano passado por mais de 700 veículos de comunicação sob a licença Creative Commons. Além da Agência Pública, faz parte do DiCampana Foto Coletivo, que fotografa grande parte das periferias e favelas de São Paulo.

Suas três principais videorreportagens foram: “Quanto vale um Rio?”, que fala sobre a contaminação de metais pesados no Rio Cateté e a população indígena xikrin, que o utiliza para praticamente tudo, desde alimentação até higiene pessoal; “Bala Perdida”, que trata sobre a morte de moradores por balas perdidas no Rio de Janeiro e sobre as ações das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nas comunidades; e “Enquadro”, que levanta a diferença nos tratamentos nas abordagens policiais nas periferias e nas áreas mais nobres da cidade de São Paulo.

Dentre as reportagens, “Bala Perdida” foi realizada em junho de 2017 e publicada no dia 7 de agosto do mesmo ano. O jornalista compila dados como o número de vítimas mortas ou feridas por balas perdidas, o número de tiroteios em um dia comum, entrevistas com moradores, especialistas, integrantes de coletivos, famílias que tiveram vítimas, professores. Relata também as dificuldades do dia a dia e a busca por justiça de alguns dos moradores que sofrem até hoje com suas perdas.

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O jornalismo e uma nova visão sobre as periferias

Cíntia Gomes, jornalista da Agência Mural, e José Cícero da Silva, jornalista da Agência Pública, participaram no último dia 8 de março do programa Cartas na Mesa, parceria do curso de Jornalismo da ESPM-SP com o Observatório da Imprensa. Na ocasião, Cíntia e José Cícero discutiram assuntos como o jornalismo e a periferia nas grandes mídias, o ativismo e a censura.

Voz das minorias
Ambos os jornalistas tentam trazer em seus trabalhos uma nova visão sobre as minorias. Buscam fazer uma abordagem com um olhar diferenciado e não estereotipado. “A grande mídia acaba se pautando muito no factual”, afirmou Cíntia. E completou: “A gente traz a voz do morador, porque muitas vezes a gente vê na grande imprensa que as pessoas são estereotipadas”. José Cícero disse que é uma responsabilidade muito grande dar essa voz aos lugares que normalmente não são ouvidos. Ele falou sobre casos que ocorreram em suas reportagens sobre pessoas que sempre disseram não ser ouvidas, como em uma matéria que produziu na Agência Pública chamada Amazônia Resiste.  “As pessoas, querendo ou não, depositam uma certa fé que você vai trazer o problema para ser resolvido”, resumiu José Cícero.

Ativismo
Os jornalistas não se consideram ativistas. Eles diferem o ativismo de um jornalismo que fecha os olhos para o que acontece. “É difícil classificar o jornalismo como jornalismo ativista. Pode ser benéfico em algumas perspectivas, mas em outras não. Por exemplo: na questão política pode, por um lado ser bom, mas por outro cegar”, afirmou José Cícero. Cíntia completou. “Eu defendo o jornalismo de qualidade. Produzir conteúdos de qualidade, buscar informações de qualidade. Às vezes, ao entrar no ativismo você pode perder isso e não dar a informação completa e necessária”, disse. Cícero se preocupa com o quadro político do país, já que às vésperas das eleições para a Presidência não há candidatos confirmados. “Vai ser uma eleição catastrófica. Se você fizer um jornalismo ativista nesse momento, ficar defendendo bandeira de partido, é um pouco problemático”, afirmou Cícero.

Censura e perseguição
Para os jornalistas, a censura e a perseguição durante reportagens investigativas podem ser combatidas com uma boa apuração e tendo cuidado com as histórias que serão contadas. José Cícero exemplificou citando quando grandes empresas aparecem envolvidas em irregularidades. Segundo ele, nessas situações, são necessárias provas concretas, grande embasamento e apoio judiciário. “Por mais que venham situações em que as empresas queiram processar depois ou queiram censurar, dificilmente terão como fazer isso, pois você já está calçado. Agora, se estiver mal apurado ou a história não está embasada, existe uma chance maior da empresa querer processar”, explicou José Cícero.

Cidadania
“É fundamental entender o quanto o jornalismo contribui para a formação não só da cidadania, mas também das pessoas, das opiniões sobre determinados assuntos”, declarou Cíntia quando o assunto foi a formação da cidadania e do jornalismo. A jornalista ressaltou novamente sobre o quesito da qualidade da informação e exemplificou com as eleições, destacando a importância de fazer o leitor se informar e saber realmente o que é melhor para seu bairro.

Jornalismo de soluções
O jornalismo de soluções foi debatido a partir de visões diferentes. Para José, isso é perigoso. “Qual solução você vai propor para o outro? Pensando na perspectiva que eu trabalho, que é a violação dos direitos humanos, qual solução você vai propor para o outro? Você nem sabe se aquilo que está fazendo vai surtir efeito”, questionou. Já Cíntia relatou um caso de um colega que fez uma matéria sobre os buracos e enchentes da rua e após publicação procurou a prefeitura para avaliar a situação, o que solucionou o problema. Ou seja, para Cíntia, algumas vezes isso é possível. “O papel fundamental não é fazer isso, mas em algumas situações acaba contribuindo”, disse.

Flexibilidade do jornalista
Cíntia e José Cícero discutiram a importância de o jornalista ter aptidão para atuar em áreas diversa. Para eles, é preciso estar apto a mudanças. O ofício requer uma maior flexibilidade de quem vai atuar na área e maior disposição para atuar em diferentes vertentes do jornalismo. “Os jornalistas acabam se especializando em algo, mas atuam em todas as áreas. Acho complicado se rotular”, resumiu Cíntia.

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Anna Victória, Heloisa Freitas e Luiz Felipe Mihich são estudantes do primeiro semestre de Jornalismo da ESPM-SP.

Fotos de Iris Brito (3º semestre) e Guilherme Santiago (1º semestre) do Curso de Jornalismo da ESPM-SP.

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