Terça-feira, 20 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CARTAS NA MESA >

Dois companheiros na estrada do jornalismo

Por Umberto Mannarino e Luiz Felipe Mihich em 06/06/2018 na edição 990

Perfil dos participantes

O jornalista José Hamilton Ribeiro nasceu no dia 1º de agosto de 1935, em Santa Rosa do Viterbo, no interior de São Paulo. José Hamilton é considerado um dos grandes ícones do jornalismo brasileiro. Começou a trilhar seus primeiros passos como jornalista no jornal da escola, chegando à capital do estado em 1955, mesmo ano em que ingressou no curso de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

Sem completar o ensino superior, começou a trabalhar como redator na rádio Bandeirantes (SP). Na sequência mudou-se para o extinto jornal impresso O Tempo e por fim migrou para a Folha de S.Paulo, em 1956. Seis anos depois, José Hamilton tornava-se editor- chefe da revista Quatro Rodas, da Editora Abril, trabalho que lhe renderia seu primeiro Prêmio Esso, em 1964, mesmo ano em que se formou em Direito, na cidade de Uberaba (MG).

Em 1966 tornou-se editor-chefe da revista Realidade, pela qual atuou como repórter de campo dois anos depois, na guerra do Vietnã. Na ocasião, José Hamilton acabou pisando por engano em uma mina terrestre e perdeu parte de sua perna esquerda. A fatalidade rendeu diversas reportagens. A mais famosa delas, Nosso repórter viu a guerra de perto, trazia na capa uma imagem do jornalista ensanguentado, logo após perder a perna.

O livro “O gosto da guerra” também foi fruto das dificuldades enfrentadas por José Hamilton durante a cobertura no Vietnã. Ainda em 1968, participou da cobertura do assassinato do então senador norte-americano Robert F. Kennedy, que chocara o mundo. Trabalhando pela revista Realidade, venceu mais quatro Prêmios Esso (1967, 1968, 1973 e 1977), sendo que nos três últimos os veículos de comunicação estavam sob censura prévia durante o período do regime militar no Brasil.

Em 1974, cansado da censura, bastante criticada por ele, passou a trabalhar no interior de São Paulo, passando pelas cidades de Ribeirão Preto e São José do Rio Preto. Em 1981, começou a atuar na televisão, tornando-se repórter especial do Globo Repórter e posteriormente repórter especial do Globo Rural. Foi presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico e vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo. Além dos Prêmios Esso, ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo (2004), Prêmio Internacional Maria Moors Cabot (2006) e o Prêmio Brasileiro Imortal (2008).

José Hamilton foi homenageado em diversas ocasiões. Em 2015, durante as celebrações dos 60 anos de profissão, recebeu do jornalista Arnon Gomes a biografia “José Hamilton Ribeiro – O jornalista mais premiado do Brasil”. Neste ano de 2018, ganhou um centro histórico em sua homenagem, localizado em sua cidade natal, Santa Rosa do Viterbo. Além de todos os prêmios, é considerado por muitos o maior jornalista brasileiro do século.

Em janeiro deste ano, José Hamilton foi entrevistado por Ana Maria Braga no programa Mais Você. Ana Maria se revelou grande fã de José Hamilton, destacando as suas reportagens para o Globo Rural. Durante o programa, José Hamilton tentou dar a fórmula da chamada grande reportagem. “A gente chama de grande reportagem essas que demandam pesquisas, que temos tempo de trabalhar nelas, entrevistar pessoas, antes de fazer. Então antes de fazer a reportagem você já conhece um pouco as coisas.

A fórmula da grande reportagem é ter um bom começo para segurar o espectador e também um bom final. No meio tem que ter um bom trabalho e talento, o máximo de trabalho e talento”.

No último dia 28 de fevereiro, José Hamilton participou de um debate com o também jornalista Humberto Pereira. Na ocasião eles abordaram o tema “A influência do jornalismo na democracia”. O debate faz parte da websérie Cartas na mesa, uma parceria do curso de Jornalismo da ESPM-SP e do Observatório da Imprensa.

O jornalista Humberto Geraldo Pereira nasceu em Belo Horizonte, no ano de 1939. Humberto é conhecido por ser o principal criador do Globo Rural, programa que é exibido até hoje aos domingos, no período da manhã, pela Rede Globo. Quando concluiu o ensino superior, Humberto já trabalhava como redator publicitário. Durante 11 anos viveu na vanguarda da Igreja Católica na qual desempenhava seu trabalho focando nas mais variadas áreas, tanto econômicas quanto políticas e sociais. Nesse período, fez um curso de cinema que durou dois anos, passando a trabalhar com o jornalismo e o cinema simultaneamente.

Em 1968, Humberto atuou na cobertura da guerra do Vietnã, pela revista Realidade. Na ocasião, foi um dos autores da edição que trazia José Hamilton Ribeiro ensanguentado na capa, após ter perdido a perna esquerda ao pisar em uma mina terrestre. Humberto também participou da cobertura das diretas-já, logo após o fim do regime militar, sendo publicamente contra a censura existente no período. Ajudou a criar as chamadas “reportagens pedagógicas”, que visam ajudar os cidadãos a desenvolver uma opinião própria em relação à política nacional.

Humberto foi editor no Jornal Nacional, Jornal da Globo e Jornal Hoje, além de ter trabalhado no Fantástico. Em janeiro de 1980 levou ao ar pela primeira vez o Globo Rural, programa do qual participou diretamente da criação e acabou deixando no fim de 2017, após quase 38 anos e um período repleto de inovações para o jornalismo no mundo rural, principalmente no agronegócio.

Em entrevista a jornalistas da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), em agosto de 2015, Humberto contou um pouco sobre a origem do Globo Rural. “No segundo semestre de 1979, esse projeto apareceu na Globo, não pelo jornalismo, mas pelo departamento comercial. Eles haviam feito uma pesquisa no país todo e chegaram a alguns dados, por exemplo, de que havia 4 milhões de aparelhos de televisão espalhados na zona rural, e não havia nenhum programa na Globo voltado para esse público”.

Os Fradins: Baixinho e Cumprido, obra do cartunista Henfil foi inspirada em Humberto. O primeiro combatia a hipocrisia do mundo por meio da ironia, já o segundo era politicamente correto e religioso. Eles nasceram em 1964, mesmo ano que a ditadura, tão combatida por Henfil, e também por Humberto.

Em 2013, Humberto Pereira fez palestra no Desafio 2050, comunidade defensora do meio ambiente. Na ocasião falou bastante sobre o desenvolvimento decorrente da agricultura brasileira. “As nossas crises relacionadas a agricultura, são crises de fartura. Nós produzimos tanto que podemos exportar, e acabamos tendo um problema seríssimo de infraestrutura, que não acompanha toda essa evolução”, disse.

No ano passado, Humberto teve fundamental importância no planejamento de séries de reportagens para outros programas, como “A viagem pelo Rio Nilo”, no Fantástico.

No último dia 28 de fevereiro, Humberto participou de um debate com seu ex- companheiro de revista Realidade José Hamilton Ribeiro. Na ocasião, eles discutiram sobre a influência do jornalismo na democracia. O debate faz parte da websérie Cartas na mesa, um projeto desenvolvido em parceria entre o curso de Jornalismo da ESPM-SP e o Observatório da Imprensa.

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“Jornalismo e Democracia” foi o tema que marcou a primeira gravação do programa Cartas na Mesa, no último dia 28 de fevereiro. O programa promoveu um debate entre os jornalistas José Hamilton Ribeiro, 82 anos, e Humberto Pereira, 78 anos. Os dois são amigos de longa data e, inclusive, já haviam trabalhado juntos pela revista Realidade, na década de 1960. O debate teve um clima bastante amistoso, no qual os dois concordaram com a maior parte das questões abordadas.

Liberdade de imprensa

Para José Hamilton, o capitalismo é uma condição básica para se ter jornalismo com liberdade de expressão. Para ele, sem o capitalismo não há jornalismo. Pode até haver jornalista, mas não tem jornalismo. “Se tiver um outro governo, o socialismo, o nazismo, ou o comunismo, não tem imprensa, não tem jornalismo”, afirmou. Humberto, ao concordar, disse que durante uma ditadura, por exemplo, o jornalismo é uma ilusão, algo manipulado para induzir o público a acreditar naquilo que o governo quer que ele acredite. “Você está lá em determinado lugar, tem lá o produto impresso, o jornal na banca, o programa de televisão, mas não tem jornalismo acontecendo, por estar debaixo de uma ditadura”, resumiu.

Origem da democracia e do jornalismo

Jornalistas José Hamilton e Humberto Pereira debatem sobre conhecimento do jornalismo e democracia. (Foto: Alana Ferrer)

Humberto disse que a palavra democracia é de origem grega, uma junção de povo e poder. Portanto a democracia é o poder exercido pelo povo. Enquanto o jornalismo tem uma origem mais recente, a necessidade de informação por parte do povo existe desde sempre e veio à tona pela primeira vez, na chamada “Batalha de Maratona”, lembrou Humberto. No caso um mensageiro correu dezenas de quilômetros a Atenas para simplesmente notificar o povo que haviam vencido a guerra contra os persas. Dizem que na sequência morreu de exaustão. “Para mim o jornalismo começou aí”, disse.

Internet e jornalismo

Para José Hamilton, a internet se tornou uma “poeira de notícias”, onde é impossível discernir o que é verdade, o que é inventado e, até mesmo, o que é fofoca. Ele sintetizou que o jornalista hoje não é mais o responsável por transmitir a notícia. “Esse jornalismo de levar a notícia foi se sofisticando. Hoje o jornalismo não tem mais que levar a notícia, tem mais a função de vigiar o poder”. Humberto completou afirmando que a internet é hoje a grande praga do milênio, principalmente as redes sociais, pois nelas correm as fake news (notícias falsas). “É uma ferramenta poderosa que está nas mãos de todo mundo.

Por exemplo, se a Folha de S.Paulo, ou O Globo, ou qualquer jornal importante, publica uma notícia falsa, ele tem endereço”, disse, referindo-se ao possível rastreamento da origem de uma informação errada e à responsabilidade que os grandes veículos têm de checar os dados antes de publicar.

Influência política e econômica no jornalismo

Humberto disse que apesar de ser muito difícil evitar essa influência, o jornalismo tem uma definição ideal, uma ética, que faz com que ele tente evitar ser afetado pelos poderes político e econômico. “Isso gera uma batalha diária por parte de cada redação que se respeite, com o intuito de se vacinar contra essas contaminações”, afirmou. José Hamilton concordou, acrescentando que as grandes empresas hoje tentam se blindar ao máximo das pressões feitas por essas potências. “Elas tentam fazer seu produto isento dessa influência indesejada”, disse.

Herança da ditadura

Ambos afirmaram que a ditadura deixou um espírito de heroísmo, de resistência para o jornalismo. José Hamilton contou que durante a ditadura, quando trabalhava como editor-chefe da revista Realidade, chegou a ser ameaçado de morte por um delegado, após dizer que não sabia a localização de um repórter.

Humberto também lembrou que a mídia, em determinado momento, deixava bilhetes com recados que diziam o que poderia e o que não poderia ser noticiado. “Eu me lembro que a gente chegava à redação da Globo, no final da década de 1970, e a primeira coisa que tinha que fazer era ir para um quadro de cortiça, onde pregavam recados e anúncios da Polícia Federal. Era um telex que vinha, dizendo o que você podia e o que não podia informar naquele dia”, contou. José Hamilton fez uma ressalva. Disse que esse período também teve um outro lado: por ter sido um tempo de estabilidade econômica, as empresas acabaram se fortalecendo.

Humberto concordou dizendo que consequentemente o jornalismo econômico se desenvolveu muito nessa época, pois não sofria opressão por parte do governo. “O grande desenvolvimento do jornalismo econômico no Brasil foi debaixo da ditadura. No jornalismo econômico você podia falar de tudo”, disse.

As grandes mídias e o jornalismo atual

José Hamilton afirmou que o combate às grandes mídias é uma mera ilusão. Para ele, o jornalista precisa de uma grande empresa de comunicação para se estruturar. “Sem a empresa, você não tem mais jornalismo, porque não vai mais ter emprego para jornalista. Humberto discordou, dizendo que a internet não é feita apenas de notícias falsas, e ressaltou que existem jornalistas sérios, os freelancers, que por meio de blogs e das próprias redes sociais trazem informações. “A sociedade precisa desses jornalistas”, defendeu.

Liberdade de imprensa e democracia

Segundo Humberto, a luta pelo jornalismo livre de censura, pelo jornalismo democrático, acontece até hoje. Ele disse que o Poder Judiciário de uns tempos para cá tem controlado a imprensa, vazando apenas as notícias que venham a lhe favorecer. Para ele, o jornalismo deve se rebelar contra isso e lutar pela democracia diariamente. Ambos concluíram que devemos defender a democracia e a liberdade de imprensa a qualquer custo. “São dois valores que, se a gente bobear, a gente perde”, disse José Hamilton.

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Umberto Mannarino e Luiz Felipe Mihich são estudantes do primeiro semestre de Jornalismo da ESPM-SP

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