Segunda-feira, 19 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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CENSURA > Os jornais permanecem

Salvar a liberdade, a imprensa, a cultura, as flores

Por Norma Couri em 06/11/2018 na edição 1012

A mídia pode ser assustadora em alguns momentos históricos, e este é um deles. Primeiro especulando o futuro, a expectativa, os palpites do que pode acontecer.

1. Nas relações do país com o mundo: Bolsonaro não reconhece a Palestina, vai mudar a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém e ameaça romper relações com Cuba.

2. No país em geral: que aposentadoria nos caberá?

3. Na Cultura, espremida entre dois Ministérios: livrarias como a Saraiva e a Cultura fechando portas ou abrindo recuperação judicial, editoras perdendo controle acionário para a Penguin, como a Companhia das Letras, a editora Abril extinguindo 10 revistas e demitindo cerca de 800 funcionários, a Lei Rouanet na corda bamba, Paulo Guedes ameaçando dar fim aos patrocínios, entre outros S, do Sesc que traz deleites culturais internacionais a preços populares.

A culpa é da Imprensa

Mas pior é a ameaça à própria imprensa, que noticia isso tudo, intimidada pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro, dirigindo-se especificamente para a Folha de S.Paulo que o combateu, e não permitindo “por questões de espaço” na sua primeira coletiva a presença da Folha, Estadão, Globo.

Para a Folha coube o maior pacote, “vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre, parabéns. Imprensa vendida, meus pêsames… por si só, esse jornal se acabou”.

Os ataques do presidente eleito à imprensa bateram 10 por semana, (“imprensa lixo”,“TV Globo, liberdade não é publicar mentiras”), 129 desde o início do ano. A própria Folha levantou neste domingo 41 casos de agressão à liberdade de idéias e o que lê nas entrelinhas é “Censura”. Como Renato Lessa publicou na Ilustríssima da Folha neste domingo, relatando a coerção ao
ativismo social e a vida intelectual universitária, “para que eliminem Marx e Gramsci do nosso quadro intelectual e existencial, terão que fazê-lo antes com Locke, Montesquieu e Tocqueville”.

Democracia sem liberdade de imprensa não existe e como a espera até a posse do novo governo em janeiro é longa — e só este ano os processos de brasileiros pedindo cidadania portuguesa aumentaram 50% — é bom recorrermos aos SOS .

Um deles é o humor. O humorista luso Ricardo Araújo Pereira, neste domingo na Folha, confirma “Deus é brasileiro. Na Indonésia, permitiu que houvesse um sismo, um tsunami e uma erupção vulcânica. Nos Estados Unidos, deixou que matassem 11 judeus numa sinagoga. No Brasil, em seu discurso de posse, Jair Bolsonaro agradece a Deus”.

The Post

Mas há o SOS que sempre nos salva: o cinema ou a história filmada. Vale a pena rever “The Post” (2017) sobre como Steven Spielberg relatou o início da derrocada do presidente Nixon pelo The Washington Post que, em 1971, publicou documentos secretos do Congresso sobre a guerra doVietnã com três décadas de mentiras de quatro presidentes dos Estados Unidos. A primeira reação de Nixon, antes de cair em seguida com o caso Watergate conduzido pelo próprio jornal, foi barrar os jornalistas. “Nenhum jornalista ou fotógrafo do The Washington Post vai por os pés na Casa Branca”, vociferou. A imprensa ganhou.

Na revista Época desta semana, o jornalista Caio Tulio Costa relata as tentativas de intimidar a imprensa, passando por Cristina Kirchner e o jornal Clarín, Collor de Mello mandando a polícia invadir a Folha, Lula tentando expulsar o correspondente do The New York Times que relatou seu caso com a bebida, e Trump atacando o mesmo Times. “Kirchner passou, o Clarín está lá. Collor passou, e a Folha continua. Lula está preso, o Times segue ativo [e depois de Trump, o Times] ganhou mais assinantes e continua de pé.”

Rio da Dúvida

O fio condutor da narrativa é constituído ao se refazer o trajeto da expedição que atravessou regiões do Pantanal, Cerrado e Floresta Amazônica. (Foto: Rio da Dúvida/Divulgação)

Outro SOS é lembrar o Brasil profundo, mergulhar neste país que nos dá a dimensão, energia e força para salvá-lo contra qualquer investida. E esse SOS veio da Mostra de Cinema Internacional de São Paulo com alguns documentários providenciais (o ganhador foi Las Sandinistas, dirigido por Jenny Murray, sobre as mulheres guerrilheiras que lideraram o combate e a reforma social durante a revolução Sandinista na Nicarágua em 1979).

Rio da Dúvida é o documentário que nos devolve a certeza de que devemos lutar pelos nossos índios, o direito ao que é nosso, inclusive a liberdade.

Aqui , o que conta é a coragem da produtora Patricia Civelli e do roteirista Mario Cesar Cabral Marques e diretor Joel Pizzini. Patrícia, em resgatar e restaurar a expedição científica feita entre 1913-1914 pelo coronel Rondon (1865-1958) e o ex-presidente americano Theodore Roosevelt (1858-1919), que atravessaram o Pantanal, a Floresta Amazônica, o Cerrado e agruras inimagináveis para explorar o misterioso Rio da Dúvida e se aproximarem dos índios até então sem qualquer contato com gente “civilizada”.

Marques e Pizzini ousaram refazer o percurso cem anos depois recriando os personagens com atores mas mantendo o mesmo cenário, figurinos originais e descendentes dos mesmos índios e locais visitados então pelos dois desbravadores.

A narrativa no filme Rio da Dúvida, em ritmo de aventura, adotando um estilo “telegráfico” e sugerindo um hipotético diário dessa epopeia, mostra as agruras por que passaram Rondon, Roosevelt e seus companheiros. Também os choques e embates provocados pelas personalidades e visões de mundo tão díspares desses dois grandes líderes. (Foto: Rio da Dúvida/Divulgação)

Entre as imagens, 110 anos de diferença e trechos de depoimentos e atuações do antropólogo e político focado nos índios e na educação, Darcy Ribeiro, do médico e indigenista Noel Nutels e do sertanista Orlando Villas-Boas. O filme traz raridades e contém o maior acervo de imagens de arquivo etnográfico como Rituais e festas Bororó,  a aldeia dos Nhambiquara e dos Cinta Larga instalados sobre a maior mina de diamantes do mundo e ameaçados de extinção. Relata a insistência de Rondon em manter o caráter científico da expedição e não como oportunidade de caçadas, como queria Roosevelt, que se tornou um dublê de correspondente recebendo um dólar por palavra nas matérias para a imprensa americana.

Os seringueiros, as canoas quebradas, as cachoeiras perigosas, as correntezas, os garimpeiros, as instalações das linhas telegráficas caras a Rondon, o Brasil virgem e as deformações pelo agronegócio, o garimpo, as drogas e a prostituição que vieram com ele — a nossa história está ali, há cem anos e recontada hoje com todos os traumas e fraturas expostas especialmente agora. Patrícia é filha do ítalo-brasileiro Mario Civelli (1923-1993), fundador da Multifilmes com a mulher e mãe de Patrícia, Pola Vartuk ( 1927-1990), crítica de cinema e roteirista, e a irmã de Mario e tia de Patrícia, Carla Civelli. Mario Civelli é o detentor dos direitos da expedição , e passou 35 anos tentando dirigir o filme, primeiro em co-produção com os italianos que queriam Burt Lancaster no lugar de Rondon, depois com Roberto Farias para lançar um seriado de TV. Mario morreu sem conseguir colocar o filme nas telas.

Guardiã do acervo da Multifilmes, Patrícia inclui trechos da produtora, como O Gigante (1968), O Grande Desconhecido (1956), Rastros da Selva (1958), o setor de taxidermia do incendiado e apagado Museu Nacional , a fauna, os costumes, a flora, a flecha e a farda, as histórias dos índios de antes e os de agora relatando o que ficou na memória da expedição de Rondon e Roosevelt — como eram, como estão, como vêem a chegada dos brancos.

Macacos, lobos, o gavião real, o porco do mato — os índios flechavam para se defender mas Rondon não permitia que se matasse um índio, o que é bom relembrarmos hoje ao capitão Bolsonaro. A equipe ouviu as netas de Rondon, Elisabeth, Maria Cecilia, Maria Inês.

A equipe do filme, que incluiu o fotógrafo Luis Abramo, levou quatro anos para colocar nas telas Rio da Dúvida (hoje rebatizado Rio Roosevelt) com montagem de Idê Lacreta e música de Livio Tragtenberg. “Caminhões atolavam, canoas quebravam, da base ao set de filmagem levávamos 3 horas para ir e três para voltar, faltava comida, água, local para dormir, as cachoeiras tinham 100 metros de altura e a correnteza apavorava a equipe que tinha visto o ator Domingos Montagner morrer um dia antes afogado no rio São Francisco, nos amarrávamos com cordas para poder resistir e filmar. Assistimos conflitos entre caciques, ficamos presos na aldeia do cacique Cinta Larga, João Bravo, quase caímos na ribanceira — e só nos perguntávamos como Rondon e Roosevelt conseguiram fazer essa expedição 100 anos atrás.”

Humberto Mauro

Para lembrar outro pioneiro do cinema brasileiro que se preocupava com memória, história e preservação da cultura, o documentário da Mostra, Humberto Mauro (1897-1983), descreve a vida do diretor em Cataguases. Sozinho, uma câmera na mão, a mulher como atriz, os trabalhadores locais como figurantes, e, como ele diz no filme, “até o cachorro lá de casa entrava”, Mauro produziu um incrível cinema regional com dezenas de cenários improvisados e, se preciso, como ele diz, usando até lata de farinha láctea pintada de preto por dentro para os efeitos de diafragma.

As latas de filmes acabavam, a equipe parava um ano esperando conseguir a próxima “e, quando chegava, os protagonistas já estavam mais gordos, mudados”. Oportunidade para se conhecer carro de boi, roda d’água, sanfona de apaixonado, e ver um cineasta que repetia a cena na medida em que o orçamento permitia e quando saiu dos estúdios da Cinédia foi dormir no chão, na miséria.

“Minha mulher estava grávida, eu devia 9 mil de aluguel e tive de pegar emprestado com o padeiro 50 contos para pagar a parteira”.

Convidado por Roquete Pinto para trabalhar no Instituto Nacional de Cinema, Humberto Mauro, na entrevista concedida ao neto Andre di Mauro que dirigiu o filme, enumerou a enorme quantidade de filmes educativos a partir de 1936. Em 45 anos de cinema Mauro fez 11 longas e 230 curta-metragens.

O Descobrimento do Brasil, com música de Villa-Lobos, foi o filme mais caro produzido até então, 600 contos, Braza Dormida (1928) e Ganga Bruta (1933) aparecem no documentário e A Velha a Fiar é um fenômeno de animação para a época.

“A modernidade não é fotogênica”, reclama na entrevista que concedeu em1960. Foi o primeiro a representar o Brasil em Veneza em 1938, levou Vitória-Régia, O Céu do Brasil e O Descobrimento do Brasil para o exterior e o crítico Georges Sadoul considerou Mauro um grande cineasta.

Corajosos Invisíveis

A obra de Humberto Mauro foi preservada graças ao trabalho do neto André di Mauro, diretor do documentário. Assim como a de Mario Civelli, por conta do afinco da herdeira em conservar a memória do pai, Patrícia Civelli. E por causa desses corajosos invisíveis, apesar das incertezas e golpes, vamos costurando nossa cultura, salvando nosso acervo, nossos tesouros.

Foi isso que aconteceu com o jardineiro que o escritor José Eduardo Agualusa encontrou em plena guerrilha angolana na cidade de Huambo, bombardeada pelas tropas do governo durante 55 dias.

Ele ficou impressionado com a Estufa Fria que se manteve verde e florida durante esses dias e quis saber como. Trouxeram-lhe o jardineiro. Agualusa conta em O Globo deste sábado 3/11 por que o jardineiro arriscou tanto a vida quando todo mundo em Angola se escondia em bunkers.

“Não havia ninguém para tratar das flores, se eu não fosse trabalhar, as plantas teriam morrido.”

***

Norma Couri é jornalista.

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