Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CHECAGEM DE INFORMAçõES >

A impulsividade na interpretação dos fatos ontem e hoje

Por Francisco Fernandes Ladeira e Kauana Scabori dos Santos em 13/06/2018 na edição 991

No dia 30 de outubro do longínquo ano de 1938, o locutor da rádio estadunidense CBS Orson Welles leu, como se fosse uma notícia, trechos do romance A Guerra dos Mundos, de Herbert George Welles, que descrevia uma invasão alienígena na Terra. A “notícia”, divulgada em “edição extraordinária”, era, na realidade, uma estratégia utilizada pela CBS com o objetivo de superar a audiência da estação concorrente (NBC). No entanto, grande parte do público entendeu que a narrativa de Welles tratava-se de algo verídico. Após a encenação radiofônica do romance de H.G. Welles, ocorreram mortes, suicídios e milhares de pessoas fugiram dos supostos invasores.

De acordo com analistas midiáticos, alguns fatores foram decisivos para o êxito da falsa mensagem emitida por Orson Welles: o tipo de locução, os jogos sonoplásticos e a crença de que o rádio noticiava a verdade. O jornal Daily News resumiu na manchete do dia seguinte a reação ao programa: “Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos”.

Oito décadas depois, o rádio já não possui a mesma influência de outrora. O poder visual das mensagens televisivas e, posteriormente, o advento da Internet, fizeram com que o rádio deixasse de ser o veículo de comunicação mais popular do planeta. Conforme aponta o professor aposentado da UFSJ, Guilherme Jorge de Rezende, “um fato jornalístico mostrado com palavras e fotografias tem mais força do que se for mostrado apenas com palavras, pois o valor testemunhal da imagem serve como prova de que o fato ocorreu em tais circunstâncias”. Todavia, algo permanece intacto no complexo processo de comunicação: a capacidade de grande parte das pessoas em dar credibilidade a informações falsas.

Nos últimos dias, uma notícia atribuída aos caminhoneiros em greve, divulgada em áudios e textos compartilhados em grupos do WhatsApp, dizia que a categoria realizaria uma nova paralisação no domingo (3/6); ou na segunda (4/6), de acordo com outras versões. Segundo o comunicado, a ordem das lideranças dos caminhoneiros era clara: todos deveriam estocar alimentos e combustíveis, pois o Brasil iria parar de vez. No entanto, conforme checou o site Boatos.org, a suposta paralisação dos caminhoneiros não era verídica ou, para utilizar um termo do momento, tratava-se de mais uma fake news, isto é, uma informação criada exclusivamente com objetivo de direcionar o receptor para aderir a uma determinada ideia.

Os áudios e textos sobre a paralisação dos caminhoneiros divulgados no WhatsApp seguiam o roteiro básico dos boatos: eram vagos (que líderes falavam?), alarmistas, com desvios da Língua Portuguesa normativa, apresentavam pedidos de compartilhamentos, além de não citar fontes confiáveis ou que poderiam ser devidamente checadas.

Porém, como em nossa contemporaneidade, “se está compartilhado no WhatsApp é verdade”, muitas pessoas, ao receberem a notícia da nova paralisação dos caminhoneiros, não só acreditaram de imediato em seu conteúdo, sem nenhum tipo de reflexão ou checagem, como passaram a reverberar a “informação” em seus ciclos de amigos “virtuais” e “reais”.

Levando-se em consideração que atualmente o poder dos meios de comunicação é muito maior do que o registrado na época de Welles, não é difícil inferir que, poucas horas após à sua divulgação, a história da nova paralisação dos caminhoneiros tomou as rodas de conversa em todo o país. E muitas pessoas começaram a agir como se realmente fosse haver uma nova greve: consumidores correram aos supermercados em busca de alimentos, frentistas alertavam clientes sobre a falta de combustíveis nos próximos dias e funcionários de transportadoras informavam que os prazos de entrega de determinados produtos seriam estendidos.

Mas, o que leva pessoas a aderirem tanto as informações falsas, independente da época em que vivem? Por quê? Será que por trás de toda mentira há sempre um fundo de verdade? Evidentemente, a resposta para essa complexa questão não é fácil, mas, nossos estudos em Teoria da Comunicação, Análise do Discurso e áreas afins nos permitem fazer algumas reflexões, o que não significa, em hipótese alguma, considerar nossas colocações como herméticas, acríticas, completas ou absolutas.

No caso brasileiro, o baixo nível de instrução apresentado pela maioria da população, com destaque para as grandes dificuldades interpretativas, seria uma boa linha de análise para entendermos os motivos pelos quais notícias falsas se espalham com tanta facilidade.

Outra possível explicação está relacionada às nossas necessidades de interação social. Como a greve dos caminhoneiros é a principal pauta da agenda pública nacional no momento, as pessoas, de maneira geral, para não serem excluídas das rodas de conversa, precisam falar sobre o assunto e, na falta de informações concretas ou opiniões mais reflexivas, passam a reproduzir as “notícias” que chegam até elas, mesmo que sejam inverídicas. Não obstante, a enxurrada de informações às quais temos contato diariamente nos impede de ter um olhar mais aprofundado sobre os fatos, pois cada vez mais temos a impressão de que devemos nos posicionar com a mesma rapidez com que recebemos as notícias.

Já de acordo com a prática designada por psicólogos como “viés da confirmação”, o ser humano tende a se lembrar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais. Cada sujeito está envolto em uma “bolha ideológica” a qual condiciona sua maneira de interpretar e agir sobre o mundo. Isso significa que, se estou em contato com algum texto que vai de encontro às minhas concepções político-ideológicas, provavelmente vou concordar com o seu conteúdo e, consequentemente, vou compartilhá-lo em meu perfil nas redes sociais, independentemente de sua veracidade.

O “viés da confirmação”, explica, por exemplo, o porquê de leitores assíduos de revistas com forte inclinação política como Carta Capital ou Veja não recorrerem a estas publicações para formarem suas opiniões, mas para reforçarem seus argumentos. E também o fato de muitos indivíduos terem compartilhado nas principais redes sociais textos, imagens, vídeos e áudios que anunciavam uma suposta intervenção militar no Brasil. Se, por um lado, temos o desejo; do outro lado, temos as construções que alicerçam as vontades. Como muitos brasileiros encontram-se insatisfeitos com os reajustes nos preços dos combustíveis, alimentos, entre outros problemas, e é grande a disputa política entre os cidadãos, haveria a crença de que um novo movimento grevista em todo país poderia facilitar a queda de Michel Temer.

Diante dessa realidade, para revertermos esse quadro caótico de desinformação que toma conta do país, consideramos que as pessoas deveriam ser educadas desde a pré-escola para o bom uso dos dispositivos digitais, para que assim possam usufruir do senso crítico, e agir não a partir do que se espera dos acontecimentos, mas aguardar e tecer uma análise mais detalhada entre o que se observa no próprio contexto em que vive e aquilo que é veiculado ou mesmo distorcido pela mídia “massa de manobra”. Precisamos ser receptores críticos, que checam informações, comparam diferentes tipos de fontes e não tenham o receio de rever posicionamentos.

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Francisco Fernandes Ladeira é Mestre em Geografia pela UFSJ e pesquisador sobre as relações entre mídia e ensino de Geografia na educação básica.

Kauana Scabori dos Santos possui especialização em Neuroaprendizagem, é mestranda pela UEL e pesquisadora na área de Estudos da Linguagem – Fonética-Fonologia no território do Paraná.

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