Segunda-feira, 21 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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CHECAGEM DE INFORMAçõES > Ponto de vista

Marielle, fake news, as iscas de cliques e os inocentes úteis

Por Sylvia Debossan Moretzsohn em 21/03/2018 na edição 979

Texto publicado originalmente pelo objETHOS.

[A autora agradece a Mario Leme e Pedro Aguiar pelo diálogo e o fornecimento de informações fundamentais para a elaboração deste artigo]

Qual a estratégia mais eficaz para se enfrentar uma onda de boatos?

Esta questão, recorrente nesses tempos em que as notícias falsas se reproduzem com uma frequência e uma velocidade inéditas, emergiu com força diante da repercussão do assassinato de Marielle Franco, quando uma enxurrada de mentiras grosseiras sobre a vereadora começou a se propagar pela internet. A reação mais comum e instintiva é também a pior: quem protesta contra a agressão acaba ajudando a difundi-la, ao compartilhar as publicações difamatórias.

Os ataques à reputação da vereadora foram produzidos por uma minoria — cerca de 7% dos que se manifestaram nas redes a respeito do caso, de acordo com o levantamento que a Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da FGV fez dois dias depois do crime. Entretanto, a mídia tradicional ajudou a disseminá-los, ao divulgar as acusações da desembargadora Marília Castro Neves de que Marielle estava “engajada com bandidos”, havia sido “eleita pelo Comando Vermelho” e teria sido eliminada por descumprir “compromissos” com esse grupo.

“Vários sites difundiram as declarações da desembargadora sem apontar que eram baseadas em fatos falsos”, assinalou o Monitor do Debate Político no Meio Digital. Questionada, ela saiu pela tangente: “Eu postei as informações que li no texto de uma amiga”, disse à Folha de S.Paulo. Essa “justificativa”, porém, aparece apenas ao final da matéria, que reproduz as acusações inclusive no título: “Desembargadora diz que Marielle estava engajada com bandidos e é ‘cadáver comum’”. Dessa forma, os boatos ganharam uma dupla legitimação: pelo status de quem passou a espalhá-los e pelo comportamento acrítico de uma imprensa que não cessa de descumprir sua promessa, permanentemente reiterada, de ser um antídoto às fake news. Assim, uma onda inicialmente insignificante vai crescendo: a mentira começa a circular numa corrente de WhatsApp, um formador de opinião a publica em suas redes, os jornais a reproduzem — ainda que para desmenti-la — e mais pessoas, fora da rede original, compartilham a matéria com a afirmação falsa.

Ao formatarem seus títulos de maneira a atrair cliques — com uma interrogação que convida à leitura mas, ao mesmo tempo, levanta a dúvida que corrobora a acusação ou, no mínimo, deixa a resposta em suspenso —, os sites jornalísticos também ajudam a sedimentar o boato, o que é particularmente contraditório quando se trata de um trabalho de checagem, supostamente interessado em desfazer mal-entendidos. Um exemplo é esta manchete do UOL Notícias, na noite de 18 de março, alterada pouco depois:

Reprodução da página do UOL de 18 de março de 2018, com a fisga para atrair leitores.

Reprodução de página do UOL em 18 de março de 2018, com mudança de título.

As dificuldades de esclarecer

Os ataques à reputação de Marielle provocaram revolta nas redes e a determinação de processar quem divulgasse aquelas acusações. Formou-se um movimento que orientava as pessoas a salvar a publicação ofensiva e enviar o material, com o link e o perfil de quem o compartilhasse, a dois endereços de escritório de advocacia.

No último domingo, 18 de março, começou a circular um apelo: “Compartilhe a verdade”. No site que expõe a trajetória e a atuação da vereadora, inseriu-se uma aba que conduz a um texto elaborado no mesmo estilo das agências de checagem de fatos, com o carimbo de “falso” ao lado de cada acusação, e o respectivo esclarecimento.

Antes disso, o site de checagem Aos Fatos já havia publicado os mesmos desmentidos: “Não, Marielle não foi casada com Marcinho VP, não engravidou aos 16 e não foi eleita pelo Comando Vermelho”. Essa estratégia, entretanto, é precisamente o oposto do que se deveria fazer, de acordo com o linguista George Lakoff e seu parceiro no FrameLab, Gil Duran: “Quando você repete um argumento falso, mesmo com o objetivo de dizer que ‘não é verdade’, você ajuda a sedimentar esses argumentos na cabeça de quem o lê. Devido à maneira pela qual o neurocircuito cerebral funciona, você reforça o que está tentando negar”. A saída seria riscar o “não” do discurso, substituir a negação pela afirmação. Seria, no caso concreto, ignorar as acusações — na disputa discursiva, não no que diz respeito às responsabilizações jurídicas, naturalmente — e afirmar a trajetória verdadeira de Marielle. Portanto, mesmo o caminho adotado pelo site da vereadora como o apelo para que se “compartilhe a verdade” teria sido equivocado, ao reproduzir as acusações para contestá-las.

A melhor das estratégias, porém, dificilmente surtiria efeito entre os que já estão convencidos do contrário. Não apenas pela tendência, que todos temos, de desejar confirmar nossas crenças – daí a dificuldade do esclarecimento, que frequentemente exige confrontá-las –, mas por causa do enorme preconceito contra os marginalizados, contra os moradores de favela, contra gays e lésbicas, contra os negros, contra os direitos humanos, contra a esquerda, contra tudo, enfim, que Marielle representava.

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Sylvia Debossan Moretzsohn é professora aposentada de jornalismo da UFF, pesquisadora do ObjETHOS

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