Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CHECAGEM DE INFORMAçõES > Checagem de dados

Pesquisa mostra índice de confiabilidade do público

Por Eugenia Mitchelstein em 31/05/2016 na edição 905
Reproduzido do site Poynter, 16/05/2016; tradução de Jô Amado
Chequeado

Logotipo de “Chequeado”

Verificar a autenticidade dos dados é um árbitro para o debate público e complementa a mídia tradicional, mas seus consumidores não deixam de ter reservas, de acordo com os grupos de leitores que dirigi no website de verificação de dados argentino Chequeado.

A análise, financiada por bolsas da Fundação Friedrich Ebert e da embaixada dos Estados Unidos na Argentina, consistia de grupos de discussão com seis homens e seis mulheres, com idades entre 19 e 53 anos, e menos de um mês depois da disputada eleição presidencial de novembro de 2015.

Os participantes dos grupos de discussão prestaram mais atenção do que o normal à verificação de dados durante a campanha presidencial (durante a qual o tráfego no website Chequeado ficou nove vezes maior). Vários participantes mencionaram momentos em que um candidato usava como fonte, durante um debate na televisão, informações do Chequeado para fazer perder a credibilidade de seu adversário.

A verificação de dados também despenhou um papel de árbitro num nível interpessoal: uma mulher, de 23 anos, disse que o website Chequeado ajudou-a a evitar discussões com amigos e com a família sobre determinados assuntos.

O Chequeado “se expande para além das opiniões parciais dos jornais” e também “democratiza a informação, dá novas ferramentas para analisar as notícias”, disse outro participante, um estudante universitário de 22 anos.

Uma ONG protegida de pressões políticas e de mercado

Embora o Chequeado fosse interpretado como uma fonte útil, não foi considerado capaz de ajudar a ganhar ou derrotar um candidato porque a maioria dos eleitores não se interessa pelas mentiras dos políticos. Outra mulher, uma economista de 23 anos, disse que “as pessoas já fizeram sua opção. Não acredito que um site de checagem de fatos vá mudar o seu voto”.

No entanto, outros participantes disseram que a checagem de fatos poderia desestimular a participação, tornando públicas as mentiras dos candidatos e desmotivando prováveis eleitores.

O compartilhamento seletivo da checagem de fatos também foi uma questão abordada. Um participante de 19 anos explicou “as pessoas que são filiadas a um partido sempre colocam no Facebook o trabalho do Chequeado sobre o candidato de que não gostam”.

Este último comentário destaca a atenção que os cidadãos argentinos dão à parcialidade, mesmo quando estão lendo textos de amigos no Facebook. A falta de confiança no discurso público, em parte, é alimentada na Argentina pela decisão da ex-presidente Cristina Fernández de Kirchner de divulgar estatísticas públicas adulteradas – ou de simplesmente não as divulgar.

Neste contexto de ceticismo, os participantes tendiam a confiar mais no Chequeado do que na mídia tradicional, tanto por ser um site de checagem de fatos quanto por seu status de organização não-governamental (ONG), que aparentemente o protegem de pressões políticas e de mercado.

Uma cultura baseada em fatos

Nas palavras de um estudante de arte, de 22 anos, “se houvesse um pH de objetividade-subjetividade, com 0 sendo a objetividade absoluta e 14 a subjetividade absoluta, o website Chequeado estaria mais próximo do 0 do que a média dos jornais, mas nenhum seria absolutamente objetivo, pois isso é uma coisa que não existe”.

Portanto, a confiança da audiência no website Chequeado não foi absoluta. Um estudante de Economia de 21 anos criticou a tendência que viu no Chequeado no sentido de distribuir as checagens dos fatos de maneira igual entre as forças políticas, enquanto ele confiava mais em alguns políticos do que em outros. Outro participante desconfiava da associação do website com o jornal La Nación, o que ele considerava uma contradição, já que o Chequeado procurava verificar os fatos da mídia, mas também dos políticos.

Estes dois exemplos sugerem que as audiências avaliam as organizações verificadoras de dados segundo suas próprias preferências políticas e ideológicas.

Os participantes também questionaram as categorias intermediárias para checagem (“Verdadeiro, mas”; “exagerado”). Um participante de 46 anos argumentou que “as coisas deveriam ser ‘verdadeiras’ ou ‘falsas; ‘exagerado’ representa a opinião de alguém”.

Num país em que o ceticismo em relação ao discurso público é a regra, alguns participantes acreditam que o website Chequeado pode contribuir para o desenvolvimento de uma cultura compartilhada baseada em fatos, e não em opiniões ou promessas.

Embora uma única operação de verificação de fatos não possa, por si só, resolver a falta de confiança generalizada no discurso público, seu trabalho pode promover o reconhecimento do valor dos fatos e a verificação do discurso público.

N.R. = o texto completo da pesquisa pode ser acessado aqui

***

Eugenia Mitchelstein é professora adjunta de Comunicação

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