Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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A inclusão social “faz de conta” no jornalismo público

Por Jade Abreu em 08/08/2015 na edição 862

É comum atribuir ao jornalismo o título de porta-voz das minorias. É exigida dos profissionais a responsabilidade social de incluir. De acordo com os teóricos americanos Kovach e Rosenstiel, a primeira lealdade do jornalista deve ser com o cidadão. Sob pretexto desse ideal, não raro, há uma preocupação em fazer reportagens sobre pessoas com necessidades especiais. Vale observar que veículos da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), destinada à comunicação pública no país, publicaram quase semanalmente textos sobre os preparativos para a competição do Parapan-Americano.

Entretanto, as matérias em vídeo não têm tradução para Linguagem Brasileira de Sinais (Libras, 2ª língua oficial no Brasil – apenas na Constituição) e os textos não têm opção para serem ouvidos dentro das plataformas online. Como uma vitrine, as pessoas com necessidades especiais ficam expostas e não há textos que tenham efetiva comunicação com elas.

Como um grupo excluído da sociedade, os portadores de necessidades especiais não têm acesso às informações como as outras pessoas, que é o primeiro item do código de ética do jornalismo. O livro Jornalismo e Sociedade, do autor Fernando Correia, cita um documento da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) da década de 70, no qual uma das funções dos media é a socialização. “Constituir um fundo comum de conhecimentos e de ideias que permitam a qualquer indivíduo integrar-se na sociedade em que vivem e favoreçam a coesão social e a tomada de consciência indispensável à ‘activa’ participação na vida pública.” Falar de atletas paralímpicos não é o suficiente para incluir. Essa é a máscara, uma espécie de “faz de conta”, que as redações assumem e ainda chamam de “reportagens de cidadania”. Será? O caminho seria apenas tentar conscientizar os “não deficientes”? Os veículos classificam esses textos como se fossem voltados para a inclusão social. Mas podem ser realmente denominados como uma pseudo-inclusão. Fala-se da personagem, mas ela não terá o acesso a receber essa notícia.

Inclusão só em tags

A EBC lançou um arquivo especial em 2012 com o tema “deficientes visuais”. Desde então, textos relacionados são “etiquetados” com as chamadas tags a permanecerem na mesma categoria. Uma espécie de editoria à parte dentro da classificação Cidadania. Depois disso, foram publicadas duas novas divisões: deficientes auditivos e deficientes mentais. A última tem uma publicação escassa. Apenas uma matéria dentro deste acervo. Além disso, o programa Outro Olhar mostrou um vídeo de cerca dois minutos sobre os deficientes auditivos. No início, é interessante. Começa com um rapaz falando em Libras e com as legendas em português. Mas depois outras personagens aparecem contando as histórias em português, só que sem nenhuma tradução para o público surdo. Uma empresa que é “pública” tinha que ter o conteúdo ainda mais relevante para os cidadãos, mas peca constantemente ao tentar incluir.

Nas recentes produções jornalísticas da EBC na categoria “deficientes audiovisuais” constam materiais em rádio apenas. Louvável que o veículo tenha se preocupado com os cegos se informarem, mas tinha que ter dado acesso para os surdos também. A sensação é que as editorias separadas também seccionam o direito ao acesso de um grupo à informação de outro.

É impressionante como os meios de comunicação se articulam de forma hipócrita. Antes de começar qualquer programação na grade aberta, aparece a legenda classificando a programação para a idade do público ideal. Nesse espaço, aparece um tradutor de Libras. Durante a exibição, contudo, não há mais tradutor. Os programas – inclusive os jornais, que tinham que priorizar a inclusão social – já ignoram a presença dessas pessoas.

17 milhões isolados

O último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010 apontou que 6,7% da população declararam algum tipo de deficiência severa. Segundo o instituto, isso equivalia a 17,7 milhões de brasileiros. E eles não estão incluídos. É como se não existissem os documentários em Libras. As plataformas digitais têm já capacidade de desenvolver newsgames para pessoas com deficiências cognitivas entenderem as informações de forma diferenciada e dinâmica, mas não classificam, na prática, o público de deficientes como prioritário.

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Jade Abreu é estudante de Jornalismo

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