Quarta-feira, 25 de Abril de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº984
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CIDADANIA > Abordagem institucional

O assassinato de Marielle Franco: a cobertura “palaciana” e fake da Folha e do Estadão

Por Samuel Lima em 29/03/2018 na edição 980

Publicado originalmente pelo objETHOS.

Passadas quase duas semanas do covarde (e cruel) assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de Anderson Gomes, motorista da parlamentar, é possível refletir criticamente sobre a cobertura dos dois maiores jornais impressos do país (Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo).

Desconheço qualquer investigação jornalística de ambos — nada foi anunciado ou informado aos seus leitores. O rumo da cobertura, passado o momento de comoção nacional e repercussão internacional, parece seguir a dimensão “palaciana” (chapa-branca, no jargão profissional), como havia identificado alguns dias depois a jornalista Paula Cesarino Costa (ombudsman da Folha), em sua coluna de 18/03/2018 (Leia aqui):

“São diversas as dimensões da morte de Marielle Franco: a dimensão palaciana, a dimensão política, a dimensão institucional da democracia, a dimensão policial, a dimensão dos moradores da favela, a dimensão movimento negro, a dimensão LGBT, a dimensão da mulher na política.

A Folha parece estar distante de várias delas. Perdeu a dimensão das comunidades, das manifestações, do que se convencionou chamar de voz das ruas. Sem essa voz, ficou — como sempre — no aspecto palaciano, na modorrenta narrativa dos gabinetes de Brasília.”

Com efeito, no dia seguinte à execução de Marielle, a Folha deixara no ar apenas uma reportagem em sua home, intitulada “Assassinato de Marielle mobiliza Planalto para combater desgaste”. Mesmo assim, ouvido pela ombudsman do seu jornal, o jornalista Vinicius Mota, secretário de Redação, avaliava o saldo da cobertura como “positivo”, reconhecendo apenas as “falhas” como a “baixa visibilidade dada ao crime na noite do dia 14 e o pouco destaque na capa do impresso do dia 15”. Do ponto de vista das lacunas do conhecimento jornalístico sobre o caso ou ainda o grotesco erro de avaliação da repercussão mundial, Mota não emitiu uma única palavra.

Ao desprezar as várias dimensões possíveis noticiosas (e humanas) do trágico acontecimento o executivo da Folha refletiu, ao naturalizar que sua cobertura fora “positiva” mais que uma simplória visão de mundo — um estranho tipo de conteúdo jornalístico sem conhecimento. Não se trata apenas de um erro de viés, ditado por uma lente ideológica conservadora. Ora, se das várias dimensões apontadas por Paula Cesarino (dimensão política, institucional da democracia, policial, a dos moradores da favela, do movimento negro, LGBT, da mulher na política) restou apenas a “palaciana”, a Folha abandonou seus leitores à própria sorte, ao sabor das fakes news que ela mesma alimentaria na edição (em papel) de 17 de março.

Samba de uma nota só…

Com igual viés, ditado por um olhar sobre a realidade que não consegue contemplar outras visões na sociedade plenas de legitimidade, seu concorrente O Estado de S. Paulo, três dias após o crime bárbaro, já assumia em editorial intitulado “O assassínio da vereadora” (acesse aqui) seu papel de porta-voz dos movimentos e correntes políticas à direita, que polarizam com entidades e partidos do campo progressista. Seu ponto de partida elementar foi acusar o “inimigo” comum: “não à toa, o PT tratou logo de explorar o caso”.

Contra todas as evidências de execução, subtraindo a figura pública, bandeiras de luta, compromissos com as lutas das favelas, e em defesa dos direitos da mulher e da comunidade LGBT, o Estadão apresenta um perverso requinte de falsa equivalência, num primor de raciocínio rastaquera. Afirma o editorial (cit.):

“É claro que não se pode pretender, ante a comoção nacional, que o assassínio de Marielle seja tratado como um crime qualquer. Por outro lado, seu caso não pode ser considerado mais importante do que, por exemplo, o assassínio do policial militar Jean Felipe de Abreu Carvalho, de 29 anos, cometido poucas horas depois, na zona oeste do Rio. Jean Felipe estava de folga e foi baleado por assaltantes. Com isso, chegaram a 27 os PMs mortos no Estado do Rio somente neste ano — no ano passado, foram mais de 130 — e nenhum deles teve a notoriedade post mortem da vereadora Marielle.”

No fundo, o diário impresso da Família Mesquita defende uma forma de naturalização da execução de Marielle, buscando desqualificar a mobilização e repercussão, com base no obtuso raciocínio da falsa equivalência, o tratamento igual para casos desiguais. Evidente que o assassinato de qualquer pessoa, seja qual for seu papel na sociedade, deve ser tratado com indignação e busca pela justiça. No caso de Marielle Franco há um conjunto de questões colocadas que não podem ser ignoradas, sob nenhuma hipótese: ela foi assassinada porque é mulher, negra, LGBT, de esquerda e comprometida com os direitos humanos e as reivindicações das comunidades empobrecidas do Rio de Janeiro. Seu assassinato é uma manifestação inconteste do Estado de Exceção que vivemos, na capital carioca, e no país, com o despertar das bestas-feras que comandam uma “operação”, supostamente contra a corrupção, seletiva e ideológica, que já dura quatro anos.

Folha alimenta as fake news

A opção pela cobertura “palaciana” (para usar uma expressão de Paula Cesarino) provocou outro impacto condenável no caso Marielle. Na edição de 17 de março (impressa), o jornal estampou o seguinte título: “Magistrada diz que Marielle tinha elo com bandidos”, com uma linha fina devastadora à memória e reputação da parlamentar assassinada: “Desembargadora diz que Marielle estava engajada com bandidos e é ‘cadáver comum’”. O jornal repercutia, sem apurar minimamente, uma postagem feita pela desembargadora Marilia Castro Neves (TJ/RJ) em rede social.

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Samuel Lima é professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo e do Posjor/UFSC. É pesquisador do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS).

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