Sexta-feira, 19 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Uma aposta na perseverança

Por Renato D'Ávila em 07/03/2018 na edição 977

Em homenagem ao dia internacional da mulher, comemorado em 8 de março, conversamos com uma profissional que superou seus limites e conseguiu abrir caminhos no mercado de trabalho jornalístico. A jornalista Sergipana, Heloísa Rocha, nasceu com uma doença genética chamada osteogênese. Hoje, atua no mercado profissional em São Paulo. Na entrevista abaixo, Heloísa fala dos desafios que enfrentou para estudar e conseguir uma ocupação e sobre a forma estigmatizada da cobertura midiática sobre o cotidiano das pessoas com deficiência. E também de seu projeto mais recente: o Moda em Rodas.

P: Conte como o jornalismo entrou na sua vida e como foi sua vida universitária?

Heloisa Rocha: A decisão de cursar jornalismo ocorreu no ensino médio, pois, na época, via na profissão um leque de oportunidades de atuação e de opções, uma vez que eu poderia ter a possibilidade de trabalhar no impresso, no rádio, na televisão, na assessoria de imprensa ou lecionando. Assim, por conta da deficiência, eu acreditava que em alguma dessas áreas da profissão eu poderia me encaixar. Na universidade, eu tive muita dificuldade para estagiar e fui quase uma das últimas da classe a iniciar essa etapa profissional. No começo, muitas empresas fecharam as portas para mim por conta das minhas limitações e, ao fim do segundo ano de curso, cheguei a cogitar que havia escolhido a profissão errada e que talvez fosse necessário trocar de curso. Na época, eu procurei a coordenadora do curso e falei sobre as minhas angústias e dos meus receios e ela foi, muito solícita. Em um dado momento ,estava estagiando em três lugares simultaneamente e tendo que abdicar de um para não comprometer os estudos.

P: Você tem deficiência desde que nasceu ?
HR: Nasci com uma doença genética chamada Osteogênese Imperfeita que apresenta como principal manifestação clínica a fragilidade óssea. Isso explica porque ela é conhecida como a doença dos “ossos de vidro” ou “ossos de cristal”. Além da fragilidade, possuo deformidades nos membros superiores e inferiores por conta das inúmeras fraturas que obtive ainda dentro do útero.Uma escoliose bastante acentuada, meço menos de um metro de altura e preciso de auxílio para algumas atividades do cotidiano, como ir ao banheiro. Acredito que a maior dificuldade que eu tenha tido foi a de conseguir estagiar ou trabalhar por ser uma pessoa com deficiência do tipo grave.

P: Qual a sua formação e quais barreiras encontrou para atuar no jornalismo?
HR: Sou formada em jornalismo pela Universidade Tiradentes, em Aracaju (SE), e pós-graduada em Comunicação Jornalística, pela Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo (SP). Infelizmente, tanto em Aracaju como em São Paulo, a menor e a maior capital do Brasil, respectivamente, o meu ingresso no mercado de trabalho se deu por conta da indicação e/ou por conta da Lei de Cotas. Entretanto, especialmente em Aracaju, eu sentia que tinha que dar o melhor de mim — por vezes caprichar e me dedicar — para provar a minha capacidade. Em São Paulo, a deficiência se tornou um diferencial em relação aos demais colegas, mas sempre foi de suma importância provar constantemente a minha capacidade profissional.

P: Como era a rotina de vida em São Paulo?
HR: Em São Paulo a questão da inclusão da pessoa com deficiência no mercado de trabalho é um pouco mais esclarecida e, como para o trabalhador sem deficiência, há mais oportunidades. Porém, eu mesma recebi alguns “nãos” quando cheguei por conta do tipo de deficiência. Foi o que aconteceu comigo quando participei de uma seleção para trabalhar em um grande banco. Dos mais de vinte candidatos eu era a única que tinha um currículo melhor e uma deficiência mais grave. Eles alegaram que eu era muito capacitada para o que tinham a oferecer, ou seja, eles não se viam capazes de contratar uma pessoa nas minhas condições físicas. Por sorte, como diz o ditado, quando uma porta se fecha outra se abre, e poucos meses depois fui chamada para preencher uma vaga de redatora que havia sido aberta na Rádio Gazeta AM – Rádio Universitária da Faculdade Cásper Líbero.

Trabalho na emissora desde 2008 e atualmente sou responsável pela atualização do site da rádio e pelas redes sociais; além disso, os profissionais auxiliam os estudantes que ali participam, pois o espaço funciona como laboratório de rádio aos graduando e pós-graduandos. Assim, atuo na revisão dos textos dos estudantes e algumas vezes os acompanho em algumas coberturas jornalísticas, como Teleton, São Paulo Fashion Week, São Silvestre. Uma vez empregada, eu nunca tive muitas dificuldades, pois nunca fiz uma externa sozinha e sempre tive um apoio e uma compreensão das minhas dificuldades. Acredito também que a minha postura diante aos outros sempre foi um ponto positivo para que eu fosse respeitada como jornalista e nunca fui vitimizada ou diminuída por conta da deficiência. Aliás, eu sempre me apresentei como jornalista e não como uma pessoa com deficiência física. A deficiência é uma característica minha, mas não me representa como um todo.

P: Quais os desafios como jornalista, cadeirante na cidade grande?
HR: Acredito que as dificuldades e as barreiras sejam as mesmas em qualquer estado do Brasil, mas umas em maiores proporções que outras. Bem, as primeiras são as barreiras físicas, como a presença de escadas, ladeiras ou calçadas inacessíveis. A segunda é a falta de conhecimento no tratar, ou seja, nos enxergando como coitadinhos, infantilizados. Em outras palavras, eu posso dizer com segurança que, em São Paulo, há uma lista pequena — quase que se conta nos dedos das mãos — de jornalistas com deficiência na Secretaria Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência e, com muita satisfação, estou nela; uma pessoa com osteogênese imperfeita que nasceu em Aracaju (SE) e fez carreira em São Paulo. Quando vemos um coordenador, supervisor, presidente ou CEO com deficiência? Por isso, eu não vejo ainda grandes perspectivas nas áreas e especialmente porque as empresas ainda só querem preencher as cotas e não agregar o profissional com deficiência em uma posição de liderança ou de criação.

P: Como você avalia a cobertura da mídia sobre as pessoas com deficiência?
HR: As pautas sobre “pessoa com deficiência” devem sair da mesmice e começar a tratar de assuntos que fujam do estigma de “coitado” ou de “super herói”. Ou seja, quando tratamos do assunto nos veículos de comunicação é para: aplicações de novas leis, histórias de superação, datas comemorativas ou campanhas sociais. Os mesmo são válidos para as novelas, as campanhas publicitárias, os desfiles de moda e o paradesporto, que trabalha a imagem do paratleta como um ser de superação e não a de um ídolo. As pessoas com deficiência estão aí na sociedade e elas, além de uma cadeira de rodas, uma muleta, um aparelho auditivo, etc., amam, têm raiva, possuem desejos, gostos, afinidades, se divertem, pagam impostos, traem, são traídos, cometem crimes e têm vontade de fazer muita coisa na vida. Como trabalho com os futuros profissionais da comunicação, tento plantar esta sementinha para que amanhã eles levem esses questionamentos nas futuras reuniões de pauta. Felizmente, alguns estagiários, e hoje colegas de profissão, possuem uma visão muito menos distorcida da deficiência e em alguns casos já aconteceu deles me ligarem para pedir uma sugestão de pauta, confirmar a nomenclatura correta ou pedir minha opinião sobre determinado assunto que envolva o tema pessoa com deficiência. É uma mudança pequena e eu espero que outros colegas com deficiência façam o mesmo com a sua equipe para que amanhã essa visão distorcida que a sociedade possui com a gente seja erradicada.

P: Qual seu grande sonho?
HR: Atualmente estou mais inclinada no aprendizado do uso das redes sociais na profissão, especialmente por ter criado um Instablog sobre moda inclusiva. O perfil se chama Moda Em Rodas (instragam.com/modaemrodas ou facebook.com/modaemrodas) e atua como um “look do dia” comigo e o objetivo é o de trazer dicas de moda para quem, como eu, está totalmente fora dos padrões de beleza, pré-estabelecidos pelo mercado da moda. Além de resgatar a autoestima da mulher com deficiência, o espaço ensina aos seguidores a encontrar um estilo próprio, conhecer o seu corpo (os pontos fortes devem ser realçados e os pontos fracos disfarçados) e a se amar mais. Enfim, o Moda Em Rodas é um hobby que eu sonhava há alguns anos e que tem tido uma repercussão bastante positiva e me enche de felicidade. Sobre o jornalismo, o ofício é árduo e desafiador, mas eu nunca desisti porque é aquilo que eu sei fazer e que escolhi para seguir até o fim da minha vida. E para quem está começando, a dica que dou é utilizar da sua deficiência um diferencial estratégico e não como uma barreira.

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Renato D’Ávila Moura é jornalista, Pós-Graduado em Comunicação, Marketing e Web Jornalismo. Atuou na TV Sergipe, SEJESP, entre outros.

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