Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIêNCIA > T. R. E. SOUTHWOOD (1931-2005)

A ecologia perde o autor de Ecological methods

Por Felipe A. P. L. Costa em 23/01/2006 na edição 365

Professor, cientista e administrador, T. (Thomas) R. (Richard) E. (Edmund) Southwood (1931-2005), morreu no ano passado (26 de outubro) em sua casa, na Inglaterra. Como professor e cientista, ele foi ao longo da segunda metade do século 20 um dos principais nomes da ecologia em todo o mundo. Fora dos círculos acadêmicos, talvez fosse mais conhecido como administrador e homem público, em função, por exemplo, de seu trabalho à frente do grupo de estudo criado pelo governo inglês em resposta ao surto da chamada doença da vaca louca.

Nenhuma de suas obras jamais foi publicada em português. Mesmo agora, após seu falecimento, nenhum registro sobre ele apareceu na imprensa especializada brasileira. É uma omissão lamentável, mas é também sinal de um certo marasmo em nosso jornalismo científico. Digo isso, antes de mais nada, porque diversos obituários (em inglês, sobretudo) apareceram e continuam disponíveis na rede. Como se não bastasse, ao menos um obituário já foi publicado por uma das revistas que ditam a pauta das editorias de Ciência da nossa grande imprensa – ver Godfray, C. & Hassell, M. 2005. Richard Southwood (1931-2005). Nature 438: 928. Nesse caso, portanto, das duas uma: ou os editores não estão sequer se dando ao trabalho de ler o press-release ou não sabem reconhecer o trigo em meio ao caminhão de joio que recebem todos os dias.

O interesse do pequeno Richard por história natural começou cedo, enquanto ainda explorava os arredores da fazenda onde foi criado, nas proximidades de Gravesend, pequena cidade portuária no sudeste da Inglaterra. Sua curiosidade gerou frutos relativamente precoces: publicou o primeiro artigo em um periódico científico – o Entomologist’s Monthly Magazine, do qual mais tarde se tornaria editor, além de colaborador habitual – com apenas 16 anos de idade. Fez os cursos universitários em Londres, onde concluiu a graduação (1952) e o doutorado (1955).

Ao longo da carreira profissional, trabalhou como pesquisador, professor e administrador em diversas instituições, incluindo Silwood Park, um centro de pesquisa alçado à condição de excelência internacional sob sua liderança; a Universidade de Oxford, da qual foi vice-reitor, e a Sociedade Real de Londres, da qual foi vice-presidente. Na Universidade de Oxford, foi por vários anos chefe do Departamento de Zoologia, onde conviveu com Charles S. Elton (1900-1991), E. (Edmond) B. (Brisco) Ford (1901-1988), Nikolaas Niko Tinbergen (1907-1988), David Lack (1910-1973) e Peter Medawar (1915-1987), além de William D. Hamilton (1936-2000) e Robert May (1936-), que foram para Oxford levados por ele.

Referências-chave

Sempre se interessou pelos insetos e pela entomologia. Seus estudos iniciais nessa disciplina tratavam de sistemática, mas já em sua tese de doutorado – ‘Some studies on the systematics and ecology of Heteroptera’, jamais publicada – passou a lidar também com aspectos ecológicos da vida de insetos (percevejos). Por conta de seu interesse pelos percevejos da família Miridae, travou contato com um veterano e renomado especialista brasileiro, José Cândido de Mello Carvalho (1914-1994). Os dois chegaram a publicar artigo juntos e, o que hoje seria inusitado, em português – ver Carvalho, J. C. M. & Southwood, T. R. E. 1955. Revisão do complexo Cyrtorhinus Fieber-Mecomma Fieber (Hem. Het. Miridae). Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi 11: 7-72.

A primeira vez que encontrei uma referência a T. R. E. Southwood foi no artigo de um entomólogo brasileiro. O artigo mencionava a primeira edição (1966) de Ecological methods (Métodos ecológicos), talvez a sua obra mais citada. Fiquei particularmente empolgado ao saber que alguém, em algum lugar do mundo, havia escrito um livro sobre metodologia ecológica. Além de novidade, isso foi para mim uma verdadeira luz no fim do túnel: significava que era possível entender (e talvez aprender) como de fato os profissionais da ecologia conduziam e organizavam seus trabalhos de pesquisa. A leitura daquele artigo, porém, nada tinha a ver com minhas insossas e estéreis obrigações acadêmicas de então e o livro mesmo eu só fui conhecer (e apreciar) mais tarde, na pós-graduação.

Publicar uma obra pioneira como Ecological methods por si só já seria suficiente para inscrever o nome de Southwood na história da ecologia. (Em tempo: a terceira edição do livro, agora em co-autoria com P. A. Henderson, um especialista em peixes e pesca, foi publicada em 2000. O subtítulo das duas primeiras edições – com particular referência ao estudo de populações de insetos – foi apropriadamente retirado.) No entanto, além de professor entusiasmado, administrador eficiente e autor de um manual científico de primeira, ele publicou uma extensa lista de trabalhos, alguns dos quais se converteram em referências-chave em diversas áreas da ecologia (dinâmica populacional, interações entre plantas e insetos, biogeografia etc.).

Insights de adulto

Não seria o caso de listar aqui sequer os seus trabalhos mais representativos e influentes, mas não poderia encerrar este artigo sem mencionar antes um outro livro de leitura indispensável: Insects on plants: community patterns and mechanisms (Insetos em plantas: padrões e mecanismos comunitários), publicado em 1984, em co-autoria com D. R. Strong e J. H. Lawton. Em comparação com Ecological methods, um manual que mistura dicas práticas de amostragem com detalhes matemáticos de como tratar os dados obtidos, Insects on plants é um apanhado geral e bem acessível sobre a ecologia de comunidades de insetos herbívoros – um livro que pode ser lido a qualquer hora, mesmo por jovens iniciantes.

Coincidentemente, aliás, artigo publicado no volume de 2005 do prestigioso Annual Review of Ecology, Evolution and Systematics procura fazer um balanço crítico dos avanços conceituais e metodológicos que ocorreram na área desde que Insects on plants apareceu. Para os autores desse artigo de revisão (‘Insects on plants: diversity of herbivore assemblages revisited’, do brasileiro Thomas M. Lewinsohn, em co-autoria com V. Novotny e Y. Basset), os estudos modernos em ecologia de comunidades de insetos herbívoros adquiriram o perfil atual a partir de 1961, com a publicação de um artigo pioneiro de Southwood (‘The number of species of insect associated with various trees’).

O leitor não-familiarizado com o assunto talvez não saiba, mas os estudiosos dessa área da ecologia estão procurando respostas para perguntas abrangentes e um bocado instigantes, do tipo: de onde vêm os insetos que vivem associados a determinada espécie de planta-hospedeira? A quantidade de insetos herbívoros amostrados varia quando comparamos diferentes espécies vegetais que convivem em um mesmo hábitat? Em caso afirmativo, será que podemos prever com segurança os limites dessa variação? De resto, que fatores determinariam a composição e o tamanho das comunidades de insetos herbívoros que atacam diferentes espécies vegetais? Não ficaria surpreso se alguém dissesse que indagações como essas são insights de um adulto em resposta aos encantamentos com o mundo experimentados ainda durante os anos de infância…

T. R. E. Southwood deixou viúva e dois filhos.

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Biólogo, autor de Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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