Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIêNCIA > MÍDIA & SAÚDE

A pauta perigosa das dietas

Por Roxana Tabakman em 02/11/2004 na edição 301

‘Não deveria ser permitido que publicações não-científicas anunciassem dietas para perda de peso que não apresentassem também uma composição química adequada.’ Esta é a proposta que as pesquisadoras brasileiras Olga Amancio e Daniela Chaud, da Universidade Federal de São Paulo, publicam no última edição dos Cadernos de Saúde Pública, no artigo ‘Dietas para perda de peso anunciadas pela imprensa leiga’ – disponível, em inglês, em (http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X2004000500015&lng=pt&nrm=iso&tlng=en).

Na edição de quarta-feira (27/10), O Estado de S.Paulo publicou matéria baseada nesta pesquisa. Deixa de lado a afirmação dada acima, entre aspas, talvez por não considerá-la importante para os seus leitores, e dá o seguinte título: ‘Cuidado, dietas de revistas podem ser desbalanceadas (e inúteis)’.

O texto do Estadão mostra os resultados da pesquisa e se concentra no que é de interesse concreto dos leitores: os números não deixam dúvidas que na grande maioria das 112 dietas analisadas o teor energético e de macronutrientes – cálcio, ferro, vitaminas A e E, e colesterol – está errado e não há informações sobre a duração da dieta, ingestão de líquidos, atividade física e dieta de manutenção.

Para a mídia é vergonhoso isso acontecer. E para quem estiver interessado no assunto, a literatura registra outras pesquisas similares feitas nos Estados Unidos e também na Espanha e Argentina (em revistas e sites) que indicariam não ser esse um problema apenas brasileiro. Está claro que este é um fato grave, mas não surpreende. Todos sabemos que as dietas publicadas pelas revistas (dieta da lua, dos números, das proteínas etc., etc.) têm, com freqüência, validade científica comparável à de um horóscopo. Até porque os nutricionistas asseveram que não existe uma dieta que sirva para todas as pessoas indistintamente, e sua influência sobre a saúde humana poderia ser bem maior.

Alguém deveria fazer alguma coisa para isso não continuar acontecendo. O que pensar de um jornalista ou de um veículo de informação que recomende aos leitores dirigir na contramão para evitar sinal vermelho? Como devemos agir contra os conselhos potencialmente perigosos que brotam do teclado dos jornalistas?

Labirinto de Borges

As recomendações sobre o que poderia ser chamado de ‘censura preventiva’ merecem discussão, porque os objetos da proibição seríamos nós, os jornalistas. Mas, antes disso, há um ponto importante na pesquisa que não pode passar despercebido. Parece um erro metodológico, mas não é só isso.

Li o relatório científico que deu origem à matéria. Tinha curiosidade por saber quais eram as revistas e também se eram representativas do jornalismo brasileiro. Por quê? Se um estudo analisa matérias de todas as publicações brasileiras, o autor pode tirar conclusões válidas para todos os jornais e revistas do Brasil. Se analisar só um jornal, as conclusões são válidas só para esse veículo, exceto se seja líder de circulação ou tenha alguma particularidade pela qual os seus erros possam ser amplificados por efeito-cascata (programas de rádio que lêem as matérias, outras publicações que detenham direitos de republicação etc.).

Grande foi a surpresa quando procurei saber quais eram as revistas analisadas: os títulos não estavam lá! Evitar nominar as publicações pode parecer normal para jornalistas temerosos de um processo por dano moral (que não precisa de inverdades, só de danos à honra), mas não é o que se espera de pesquisadores porque não é assim que funciona a ciência. ‘Methods’ é a parte do relatório científico onde deve figurar tudo o que um outro pesquisador poderia precisar para repetir a pesquisa. Para quê? Para comprovar se é possível chegar aos mesmos resultados fazendo tudo do mesmo jeito. Sem esses dados, ninguém pode repetir o estudo.

Há muitas pesquisas sobre os erros da mídia, no Brasil e no mundo, e as identidades dos veículos nunca são preservadas. É de se perguntar por que o foram neste caso. Será que há algum conflito de interesses? Ou as revistas escolhidas não são representativas e isso tira brilho das conclusões?

De acordo com a descrição apresentada no relatório da pesquisa, primeiro foi feita a seleção de quatro publicações mensais dirigidas a público feminino que focam a nutrição e outros assuntos de saúde. Com certeza são mais de quatro as publicações brasileiras dirigidas ao público feminino que se centram na nutrição e saúde, já que TODAS as revistas femininas tratam com destaque desses temas. As nutricionistas autoras da pesquisa escolheram para analisar duas revistas que traziam dietas. Isso invalida as conclusões? Nem tanto. O fato é que a mídia publica inverdades perigosas para a saúde, sobretudo quando o assunto é mais ‘beleza’ do que ‘saúde’.

Curiosamente, lembrei de já ter lido de uma das autoras uma outra revisão sobre o assunto. Lembrava não só porque era muito interessante, mas também porque incluía uma pesquisa engraçada: você sabia que em uma hora assistindo à TV uma criança fica exposta a 2.590 calorias, 71 gramas de gordura e 2.673 gramas de sódio? (A quantos corpos nus fica exposta a pessoa que visita por uma hora ao Museu de Louvre?, fiquei pensando…)

O título daquele relatório é ‘Nutrição e mídia: uma combinação às vezes indigesta’ (disponível em www.projetoradix.org). Ali, Daniela Chaud anota que ‘o Conselho Regional de Nutricionistas – 3° Região conta com uma comissão que discute e implementa ações objetivando a ética e a qualidade dos conteúdos veiculados na mídia’. Mas as considerações finais resultam bem mais digeríveis: ‘Os profissionais da saúde e da comunicação devem assumir na sociedade seus papéis de cidadãos, buscando em suas atividades a saúde pública e, portanto, contribuindo para o bem comum’.

O assunto das dietas mentirosas é grave, mas a matéria que o Estado de S.Paulo publicou não aprofundava a pesquisa das duas estudiosas, que por sua vez não se aprofundava no assunto das revistas que publicam dietas perigosas e inúteis, e que ainda por cima não aprofundava no tema do tratamento da obesidade. Assim, os leitores se perdem num labirinto digno da pena de Jorge Luis Borges.

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Jornalista

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