Quarta-feira, 26 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1006
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CIêNCIA > JORNALISMO CIENTÍFICO

A queda do não-investigado

Por Kentaro Mori em 17/08/2004 na edição 290

No fim de julho a estrondosa queda de diversos objetos ao norte do estado do Piauí e regiões vizinhas interessou à imprensa como curiosidade. Inicialmente noticiou-se mesmo a explosão de um ‘Óvni’ e o ‘pânico’ provocado na população. Mesmo quando ficou claro que os objetos seriam restos de um artefato bem terrestre e humano, reproduziram-se as opiniões de autoridades de que seria um ‘satélite desconhecido’.

É impressionante que hoje, quase três semanas após o evento, se tenha o objeto como desconhecido, e que mesmo o artigo de Ulisses Capozzoli no OI [ver remissão abaixo] ainda especule sobre sua identidade. Uma simples busca na internet pelos termos reentry e atmosphere no Google revela, já na primeira página, um sítio online que desde o dia 4 de agosto não só fornece a identificação do objeto, como localiza sua reentrada e a existência de destroços no Brasil.

O sítio é do Center for Orbital and Reentry Debris Studies (Cords), com sede na Califórnia, EUA, e foi o que encontrei quando, em 31 de julho, ao ler as notícias sobre a ‘queda-explosão’ do ‘óvni-satélite desconhecido’, fiz a busca. Encontrei lá a lista de reentradas previstas, e o possível culpado. Entre os dias 24 e 25 de julho de 2004, o segundo estágio de um foguete lançador Delta II deveria ter reentrado na atmosfera, e a previsão da trajetória do objeto passava justamente pelo norte e nordeste do Brasil. Contatei o Cords e solicitei informações que confirmassem que a queda de objetos no Brasil fosse de fato devida à reentrada prevista. Fui rapidamente atendido pelo diretor do centro, que agradeceu a informação e prometeu uma confirmação. Procurei também divulgar a possível identificação, anunciando-a no sítio online que mantenho e enviando mensagens aos veículos que divulgaram a notícia, como a Agência Nordeste. Mas até hoje não recebi nenhuma resposta.

Até então, o mais próximo que a mídia havia divulgado a respeito de uma identificação do objeto eram informações baseadas nas declarações de ninguém menos que um ‘ufólogo’, Reginaldo de Athayde. ‘O objeto é apenas sucata espacial e pode ser o pedaço de um foguete chinês que partiu ao espaço há 20 dias para o lançamento de um satélite’, como a Folha o citou no dia 30. Procurei contatar o ‘ufólogo’ para saber qual poderia ser esse foguete, já que aparentemente o único foguete chinês lançado no mês de julho o foi no dia 25 – o próprio dia da reentrada dos objetos sobre o Brasil. Mas o ‘ufólogo’ também não respondeu a minha mensagem.

Argentina apurou

Em 4 de agosto, finalmente recebi uma confirmação da identificação, e ela veio da própria Nasa, através de Nicholas L. Johnson, cientista-chefe e coordenador do Orbital Debris Program Office, Nasa Johnson Space Center. ‘A reentrada do segundo estágio Delta 2 foi acompanhada de perto no fim do mês passado, e notamos que a reentrada inicial ocorreu sobre o Brasil na noite de 24-25 de julho, de fato apenas alguns minutos depois do início de 25 de julho, GMT’, confirmou Johnson. ‘Hoje fui informado de que alguns fragmentos desse estágio podem ter sido recuperados no Brasil e que você está familiarizado com a situação’, continuou, solicitando ajuda para mais informações a respeito dos fragmentos.

Não só a mídia não havia identificado o objeto, tudo indica que nenhuma autoridade brasileira tampouco o havia feito corretamente, e assim a própria Nasa desconhecia que fragmentos haviam de fato chegado ao solo e sido recuperados. Comumente, os artefatos se desfazem na reentrada, ou caem em locais onde não são notados ou encontrados. A recuperação de fragmentos de objetos que reentraram na atmosfera é uma exceção. Indiquei a Johnson que entrasse em contato com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que segundo as notícias seria o destino pelo menos de uma placa de metal recolhida, pelo que ele novamente agradeceu.

Que o objeto não seja identificado pela mídia ou pelas autoridades nacionais se torna mesmo preocupante quando lembramos que em 20 de janeiro deste mesmo ano um evento praticamente idêntico ocorreu na Argentina, ao sul da cidade de Corrientes. Lá também, a população ouviu um estrondo, assustou-se, encontraram-se fragmentos de objetos, especulou-se sobre uma origem alienígena, constatou-se uma origem terrestre e mesmo confundiu-se a origem terrestre: teriam visto a inscrição ‘Made in Italy’ em um dos fragmentos.

Mas, no caso argentino, apenas um dia depois da queda a Comisión Nacional de Actividades Espaciales (Conae) emitiu comunicado à imprensa identificando corretamente o culpado: também um foguete lançador Delta 2, americano, mas de seu terceiro estágio. Jornais como Clarín divulgaram a nota imediatamente.

Mais fascinante

Nenhum veículo de mídia brasileiro parece ter lembrado deste evento tão recente ao noticiar o nosso caso. Que, repetindo, quase três semanas depois continua sem ter sido identificado na imprensa com uma confirmação oficial.

Em toda sua não-investigação, o jornalismo perdeu uma excelente história, quem sabe melhor que os supostos objetos voadores não-identificados ou satélites desconhecidos que parece ter preferido noticiar.

Os fragmentos que caíram sobre o Nordeste brasileiro eram partes do segundo estágio de um foguete Delta 2. Partindo em 7 de julho de 2003, ele lançou uma carga muito especial: o segundo Rover marciano, o Opportunity. Em vez de citar ‘ufólogos’, ou capitalizar sobre a queda de um foguete ou satélite ‘desconhecido’, as notícias poderiam ter citado a Nasa e apresentado a história verdadeira de como parte da sofisticada missão científica que chegou a Marte acabou caindo sobre o Nordeste brasileiro, causando medo e gerando especulações simplórias entre a população local.

Às vezes o identificado é muito mais fascinante que o desconhecido.

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Integrante da Sociedade da Terra Redonda, onde edita uma área dedicada a desmistificar a ‘ufologia’ e o ‘paranormal’ (Ceticismo Aberto: www.str.com.br/ca/)

Todos os comentários

  1. Comentou em 03/06/2006 Ary Junior

    O mais interessante e que em Parnaiba no litoral do Piaui , percebe-se uma enorme quantidade de aeronaves militares, em idas e vindas de Teresina-Parnaiba e Parnaiba a Teresina, comentam ser manobras de treinamento militar da aeronautica, isso justamente agora depois do ocorrido, e essas manobras nunca haviam sido feitas em Parnaiba. Porque sera?

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