Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIêNCIA > MÍDIA E MEIO AMBIENTE

Anos quentes de jornalismo morno

Por Julio Ottoboni em 30/01/2006 na edição 366

A Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA), dos Estados Unidos, divulgou recentemente que seus estudos apontam o ano de 2005 como o mais quente do século. Os três últimos anos vêm a reboque, numa preocupante crescente da temperatura média global. Se encaixarmos neste quadro a anomalia climática provocada pelo El Nino, em 1998, este ano assume a segunda colocação no ranking.


Esse dado importante só ouriçou ainda mais a capacidade de associação no imaginário jornalístico. Qualquer evento meteorológico de maior intensidade, porém em microescala e previsível nos contornos climáticos da região atingida, já se tem culpado garantido. A mania de prejulgar do jornalismo atual se espalhou por todas as áreas de atuação –o jornalismo científico incluso.


Com raras exceções, o que hoje se vê nos jornais brasileiros, em todas as mídias, é uma onda de ignorância e cegueira científica capaz de inundar o leitor com informações desconexas e equivocadas: afastamos o problema da realidade e dificultamos a formação de uma consciência crítica sobre questões ambientais.


De acordo com a NASA, o aquecimento totalizado nos últimos 100 anos é de 0,8ºC. Desse total, 0,6ºC é resultado das últimas três décadas. Algo grave em se tratando de proporções planetárias, mas que virou base de argumento para oportunistas travestidos de ambientalistas encobrirem a ausência de preparo dos jornalistas para assuntos mais complexos – e uma saída fácil para as autoridades se desvencilharem de sua imensa parcela de culpa na potencialização de fenômenos naturais.


O alarmante nisso tudo é a insensibilidade do jornalista para notar o que está ao seu lado, muitas vezes na cidade ou bairro em que reside e trabalha. As mudanças microclimáticas são centenas de vezes mais rápidas de serem ativadas na transformação do meio ambiente urbano ou rural, seja na interrupção artificial no trajeto dos ventos ou na formação de microdesertos urbanos.


Infernos urbanos


As ‘ilhas de calor’, embora tenham papel fundamental no comportamento de tempestades, dispersão de poluentes em suspensão e alteração metabólica dos seres vivos, entre outros aspectos estudados, nunca tiveram o espaço devido na imprensa e muito menos na cobrança de nossas autoridades públicas.


Veja-se o caso da cidade de São Paulo. Os estudos do Instituto de Estudos Avançados (IEA), da Universidade de São Paulo (USP), mostram que as temperaturas da malha urbana da metrópole variam em até 14ºC. Isto é o mesmo que sair da zona norte com 23 ºC e chegar ao centro onde se registrará 37ºC – num curtíssimo espaço de tempo e sem alteração nas características meteorológicas gerais.


Pesquisas da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), também com foco na capital paulista, constataram que houve um aumento da temperatura média em torno de 1,2ºC desde os anos 1950, época de intensa industrialização. No mesmo período, Nova York registrou uma elevação de 0,8ºC na sua temperatura, em média. Grande parte disso se deve ao planejamento urbano feito para satisfazer o mercado imobiliário.


O que deveria ter elaboração científica é norteado pela volúpia econômica. Mas isso está longe de ser uma característica paulistana. São raríssimas as cidades brasileiras de grande e médio porte que fogem deste quadro de alteração microclimática.


Violentos e imprevisíveis


O eixo Rio-São Paulo concentra um dos maiores índices per capita de cientistas e institutos de pesquisa da América Latina – embora isso signifique muito pouco, em termos práticos, para a melhoria das condições ambientais da região. Além de ter a maior poluição atmosférica concentrada em todo Hemisfério Sul do planeta, e o maior índice de poluição luminosa, agora estamos também nos transformando no principal corredor de tornados do país.


Fim de tarde de terça-feira, 24 de janeiro de 2006. Saída do expediente da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), em São José dos Campos (SP). Uma tempestade atinge as unidades fabris e gera um tornado de potencial destrutivo impressionante. As instalações mais afetadas da empresa foram os hangares F-45, de estocagem de materiais, o F-51, destinado à manutenção de aeronaves, e o F-30, onde se fabricam peças e a montagem final dos jatos ERJ-145. Mais de 20 funcionários foram feridos e outros conseguiram fotografar um imenso cone de vento vindo de encontro à fábrica.


A intensidade dos ventos foi tanta que aviões foram arrastados, os galpões destroçados e mais 50 carros danificados no estacionamento da empresa. O evento, no entanto, demorou poucos segundos. Alguns quilômetros após a destruição na Embraer, na zona sul de São José dos Campos a tempestade lançou um outro tornado que atingiu residências de bairros operários. As conseqüências foram destelhamentos, derrubada de paredes, árvores arrancadas e prejuízos significativos nas redes elétrica e de telefonia.


A imprensa regional que se arriscou a descrever o fenômeno tropeçou nos próprios pés. O grau de desconhecimento dos repórteres e editores sobre eventos naturais foi novamente colocado em teste. O caminho foi omitir a informação e usar o velho expediente da ‘forte ventania’ ou confundir tragicamente a ocorrência de um tornado com de um tufão – que só ocorre no continente asiático, diga-se de passagem.


No começo de janeiro de 2006, dois tornados foram fotografados durante a formação de uma chuva de verão em Taubaté (SP); um pouco antes, no final de dezembro, um tornado foi registrado em Ubatuba (SP). Uma semana antes do incidente da Embraer, na divisa de São José dos Campos com Jacareí , durante a formação de um cúmulo nimbo (nuvem de tempestade) pôde-se observar movimentos concêntricos na base da nuvem, muito semelhantes aos que determinam o surgimento dos tornados.


Basta se reportar às informações na década de 199o para constatar que o número de registros desse tipo de fenômeno vem aumentando nesta região. Nos últimos 10 anos, os perímetros urbanos de Volta Redonda e Resende (RJ) foram atingidos por esses violentos e imprevisíveis cones. No lado paulista, também as cidades de Cachoeira Paulista, Cruzeiro, Lorena, Campos do Jordão e Pindamonhangaba.


Obscurantismo científico


No trecho paulista de maior concentração populacional e de indústrias, onde a malha urbana está totalmente conurbada, a freqüência dessas violentas tempestades deveria ter despertado a atenção tanto de cientistas como da imprensa.


O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostrou que a atividade de descarga elétrica atmosférica no trecho que envolve Taubaté, Caçapava, São José dos Campos e Jacareí é muito superior ao restante do Vale do Paraíba, só se comparando às duas capitais e aos pólos industriais situados no estado Rio de Janeiro.


As ilhas de calor e o alto volume de poluição atmosférica eram responsáveis pelo agravamento das tempestades. Coincidência ou não, os relatos de tornados ou ‘vendavais’ aumentaram consideravelmente nestas localidades no mesmo período. Inclusive em estações como verão e inverno, quando esse tipo de fenômeno tem baixa freqüência.


Apesar da gravidade da situação, nenhuma dessas cidades ou mesmo seus institutos de pesquisas e universidades decidiram estudar as mudanças microclimáticas e as conseqüências advindas do crescimento urbano desordenado, sem controle quanto aos transtornos ambientais.


A imprensa do eixo Rio-São Paulo, que sempre se considerou a mais importante e influente do país, continua no obscurantismo científico, acreditando que mudança climática só ocorre em larga escala e afetará somente os países desenvolvidos. Mais uma vez se prova que mesmo no centro mais avançado em tecnologia e pesquisa de ponta do Brasil ainda vale a máxima popular: ‘Casa de ferreiro, espeto de pau’.


Mas, até quando?

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Jornalista, pós-graduado em jornalismo científico.

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