Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CIêNCIA > O PREÇO DO COMODISMO

Araucárias e jornalismo em extinção

Por Julio Ottoboni em 08/02/2005 na edição 315

O jornalismo passivo continua a fazer suas vítimas. Como a regra é só fazer uma leitura de fatos consumados, estamos de braços cruzados a ver o fim do único pinheiro nativo da flora brasileira. Em dois anos a Araucária angustifólia ou Pinheiro do Paraná sumirá, literalmente, do mapa nacional. A espécie sucumbiu aos avanços do cultivo da soja e à exploração de madeira nativa dentro dos limites da Mata Atlântica. Neste caso, estamos vendo duas extinções em curso, a do jornalismo científico de caráter investigativo e da segunda árvore-símbolo no país.

O pior nesta constatação é que os grandes problemas ambientais do país vieram à tona alçados por um jornalismo de primeira linha. As denúncias envolvendo a destruição da Amazônia, a morte de grandes rios, o avanço predatório das cidades sobre a Mata Atlântica surgiram para a sociedade num exercício consciente da importância de formar e informar. Mas a percepção das funções sociais do jornalismo está minguando, como as matas de araucária.

Para os que só conseguem ver números nas reportagens, basta observar os levantamentos da agonia do pinheiro. O Ibama do Paraná constatou em 2002 que só 0,8% das formações originais resistiam no território estadual. As projeções atuais indicam que apenas 0,5% das matas remanescentes desta espécie pertencente à floresta ombrófila mista ainda permanece em pé. A araucária surgiu no cenário sul-americano há 200 milhões de anos e chegou a povoar do Sul ao Nordeste do Brasil. Atualmente, sua ocorrência se concentra nos estados do Sul e parte do Sudeste.

O preço do nosso comodismo como profissionais de imprensa tem sido alto. O tal do ‘faro jornalístico’ evaporou-se das narinas congestionadas da burocracia das redações, das contenções de despesas e no minimalismo e provincianismo editorial. Só olhamos para o próprio umbigo, somos sedentos por questiúnculas. O triste é saber que conseguimos superar as tempestades de uma ditadura política para depois naufragarmos na ditadura da mediocridade.

Fatalismo autista

No último encontro da SBPC, as denúncias sobre a destruição do Cerrado pautaram uma série de reportagens sobre o assunto. O espaço aberto na mídia para o ecossistema mais ameaçado do Brasil foi mais generoso, porém o assunto já sumiu das pautas. Tornamos o jornalismo no exercício do incompleto, do inacabado. Mesmo assim o resultado do esforço mínimo foi positivo. Apesar de o INPE já ter essas informações desde 1997 e isto ter sido veiculado pela Agência Estado e nos jornais O Estado de S.Paulo e Jornal da Tarde.

Porém, com a araucária a situação está bem diferente nas redações. Pouquíssimos editores se sensibilizaram para a gravidade do quadro. Nos jornais do Sul, a Gazeta do Povo (PR) trouxe o assunto numa grande reportagem no fim de 2004. Já na grande imprensa do eixo Rio-São Paulo, novamente o Estadão saiu na frente, com matéria de Herton Escobar, na edição da quarta-feira (2).

Mas ficou-se por aí. Esperamos acabar para noticiar, essa é a lógica de nosso fatalismo autista. Assistiremos passivos, ignorando nossa cumplicidade nessa e em outras extinções.

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Jornalista diplomado e pós-graduado em Jornalismo Científico

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