Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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As impressões de um leigo petulante

Por Manuel Soares Bulcão Neto em 07/09/2004 na edição 293

Em Uma breve história do tempo, o físico teórico Stephen Hawking comenta que, nos últimos séculos, a ciência se tornou muito técnica e matemática para os filósofos ou qualquer outra pessoa além dos poucos especialistas. E Richard Feynman, outro físico eminente, referindo-se também à comunidade científica sentenciou: ‘Posso afirmar com segurança que ninguém entende a mecânica quântica’.

Por conta dessa névoa cada vez mais densa envolvendo a ciência, mais e mais o cientista se apresenta, aos olhos dos leigos, numa posição vizinha à do iniciado nos enigmas divinos e a quem os gregos antigos chamavam de ‘misté’ – termo que está na origem das palavras ‘mistério’ e ‘misticismo’.

Essa relação de contigüidade vem sendo reforçada pela forma um tanto descuidada com que alguns escritores e muitos jornalistas divulgam a ciência, abusando da analogia a ponto de confundir Vandenberg com iceberg. Tal procedimento dá rédeas soltas ao pensamento (já um tanto gasoso) dos profetas e messias, sobretudo ao dos mais obscurantistas, para os quais a palavra ‘ciência’ é o selo da verdade incontestável – um equívoco que, infelizmente, é hoje quase um senso comum.

Ora, são as verdades inquestionáveis, as certezas absolutas, o principal ingrediente do caldo da intolerância. Atentos a isso, muitos intelectuais ligados à ciência vem buscando, através da mídia, remover esse cancro do senso comum, pois sabem que, ao desmitificarem a ciência, demovem também do mito qualquer veleidade científica.

O problema é o perigo do ‘contágio de guerra’, fenômeno em que as forças antagônicas assimilam uma da outra algumas características, os vícios mais que as virtudes. Quando isso ocorre (e com freqüência ocorre na juventude, devido ao excesso de testosterona e à falta de experiência), em vez da desmitificação da ciência verifica-se o contrário: a sua ultramitificação sob a forma de ‘cientificismo’, que é uma espécie de racionalismo ensandecido (megalomaníaco), um discurso pseudocientífico com pretensões de pensamento único.

A questão, portanto, é a seguinte: como divulgar uma ciência com traços de esoterismo sem dar húmus ao que de pior existe nas religiões do Mistério ou a esse laicismo fundamentalista que não passa de uma religião ‘negativa’, isto é, apenas uma outra religião, só que com sinal trocado?

Se o que tem aproximado os discursos científico e místico-religioso é a incompreensibilidade, então antes de tudo cabe saber: por que as explicações científicas dos mistérios da natureza vêm se tornando elas próprias cada vez mais misteriosas?

Nosso mundo paroquial

Mesmo considerando-se alguns fenômenos complicadores (como os que levam ao conceito de ‘exaptação’), ainda vale dizer que o cérebro humano é um órgão que, como qualquer outro da nossa anatomia, evoluiu segundo os mecanismos da mutação genética e da seleção natural. Sua estrutura e os programas nele embutidos – isto é, a mente – são como são sobretudo porque nos conferem vantagem darwiniana na luta pela sobrevivência. Quanto aos ‘softwares’ responsáveis pelas funções cognitivas, bem, se não fosse possível haver entre nossos juízos acerca das coisas e as coisas mesmas uma relação de correspondência, isto é, uma ‘verdade’, há muito que teríamos desaparecido da face da Terra, ou melhor, sequer teríamos aparecido – sobre este fato, os filósofos que advogam o relativismo deveriam refletir mais.

No entanto, se o cérebro humano – com suas categorias lógicas e universais formais inatos – contribui para a nossa subsistência no mundo, o mundo em que vivemos não é ‘todo o mundo’, mas apenas uma província. Ou seja, vivemos num mundinho paroquial, mediano, a meio caminho entre o comprimento de Planck e o raio do universo observável e cujos objetos – os objetos da nossa lida cotidiana – movimentam-se numa velocidade muito aquém da velocidade da luz. Nosso cérebro, antes de tudo uma ferramenta de sobrevivência, está programado para compreender ou tornar compreensíveis os fenômenos atinentes a este nível intermediário da realidade, pois é a este nível que reproduzimos a nossa existência. Já no que diz respeito aos eventos subatômicos e/ou relativísticos, nada garante que o mesmo se possa dizer (se esses fenômenos podem ser explicados, como veremos adiante ‘explicar’ não implica necessariamente ‘reduzir à evidência’).

Ocorre que a indústria e a tecnologia nos fornecem hoje meios para observar o muito pequeno e o demasiadamente grande ou distante: microscópios eletrônicos, telescópios astronômicos, radiotelescópios interferométricos etc. E o que se observa nessas outras plagas da realidade? Fenômenos que não cabem nas formas lógicas do pensamento humano e que, portanto, se nos afiguram absurdos: partículas que estão em todos os lugares e ao mesmo tempo em lugar nenhum; corpúsculos que desaparecem inopinadamente e reaparecem noutro lugar sem passar por nenhum espaço intermediário; objetos cuja densidade é de bilhões de toneladas por centímetro cúbico; regiões do universo em que o espaço-tempo colapsou; eventos que só são explicáveis caso o universo tenha muito mais que três dimensões espaciais.

Modelos, não explicações

A ironia é que, para explicar esses fenômenos insólitos, os físicos se servem de uma matemática exótica, quando não esotérica, repleta de entes tão ou mais bizarros: números imaginários, como a raiz quadrada de – 1; espaço n-dimensional esférico, que equivale à superfície de uma bola de [n + 1] dimensões (por exemplo, um espaço 4-esfera englobando uma bola pentadimensional); fractais, isto é, formas geométricas que descrevem dimensões fracionadas; infinitésimos de segunda ordem, ou seja, infinitésimos de infinitésimos.

Quanto ao infinitésimo, muitos matemáticos ilustres – entre os quais Euler – esforçaram-se para defini-lo sem, no entanto, lograrem êxito. Com base nessa imprecisão conceitual, o filósofo G. Berkeley afirmou que o Cálculo criado por Newton e Leibniz repousa em fundamentos ilógicos. Mas como o cálculo infinitesimal mostrou-se plenamente operacional – por meio dele pode-se fazer previsões que empiricamente se confirmam com uma precisão fantástica –, talvez isso indique que a natureza, para existir, não precisa ser inteiramente conforme a ‘nossa’ lógica. Isto é, que, provavelmente, as leis do pensamento correto não reproduzem fidedignamente a estrutura do mundo objetivo, até porque não seria necessário: um conhecimento constituído de aproximações grosseiras é o suficiente para que dele se obtenha os efeitos práticos esperados. E nas vezes em que a prática exige uma sintonia mais fina entre a idéia e os fatos, então é só complementar o naturalmente dado com algum artifício cultural, valendo até mesmo improvisar engenhocas conceituais do tipo ‘gambiarra’, como a muitos parece ser o infinitésimo de segunda ordem. [Em meados do século 19 o matemático K. Weierstrass elaborou uma versão do Cálculo que prescinde dos infinitesimais. Seu tratamento rigoroso da noção de limite requer apenas números finitos, o que proporcionou a este ramo da matemática a fundamentação lógica que antes carecia. No entanto, há uma análise não-Standard consistente desenvolvida por Abraham Robinson na década de 1960, em que os infinitesimais são reabilitados a expensas do abandono do axioma de Arquimedes. Contudo, valendo-se ou não dos infinitésimos, os resultados das operações são os mesmos.]

Os construtos matemáticos com os quais os físicos explicam o mundo dos ‘quanta’ são modelos que valem mais pelo seu poder de predição do que pela estética da explicação, sobretudo agora que a ciência não é tanto uma ocupação marginal de indivíduos curiosos, mas uma ‘força produtiva’, um setor cada vez mais autônomo da economia conhecido pela sigla P&D – Pesquisa e Desenvolvimento. Ademais, nem tudo que é explicável é compreensível, isto é, condizente com a nossa intuição. Se, por um lado, essas realidades extremas deixam-se revelar por meio da matemática, por outro lado, consoante as palavras de Johann Von Neumann, ‘em matemática você não compreende as coisas. Simplesmente se acostuma a elas’.

Ciência ‘esotérica’ e tecnologia

Conforme já foi dito, a ciência que trata do contra-intuitivo comportamento dos átomos e moléculas não se presta apenas à contemplação dessa realidade. Muito mais que isso, traduz-se numa tecnologia atualmente empregada em várias atividades. Atividades que, segundo dados de uma recente pesquisa realizada por iniciativa do Congresso norte-americano, respondem por um terço do PIB dos Estados Unidos da América.

Pelo significativo plus de conforto que propicia, o emprego cada vez mais generalizado de uma tecnologia que tem por base a mecânica quântica representa, sem dúvida, algo maravilhoso. Em contrapartida, esse progresso também significa a última pá de terra sobre aquela transparência que até bem pouco tempo existia entre os homens e seus utensílios. Se, por um lado, essa tecnologia (empregada na computação) encerra um potencial que torna factível um controle mais efetivo da humanidade sobre os seus produtos, a superação na medida do possível daquilo que Marx denominou de fetichismo da mercadoria, por outro lado não só mantém como leva ao limite alguns aspectos subjetivos desse fetichismo.

Com efeito, desde quando a ciência deixou de ser um ofício de fundo de quintal para se incorporar de vez à indústria que a atividade das pessoas, seja em casa, na rua ou no trabalho, vem sendo mediada por um número crescente de artefatos complexos cujo funcionamento é uma incógnita. E não poderia ser diferente, já que a ciência só existe porque raramente a aparência coincide com a essência. Como consiste no conhecimento de padrões ocultos, simetrias escondidas, relações estáveis sob um emaranhado de nexos fortuitos, a tecnologia fundada neste conhecimento tende a produzir objetos estranhos ao senso comum, o qual, como a ciência, também é um conhecimento empírico, porém assistemático, não-metódico, mais superficial e sobrecarregado de preconceitos.

Mas o senso comum é maleável. Com o tempo, termina incorporando grosso modo e sob a forma de bom senso as conquistas da ciência clássica, newtoniana. Hoje, porém, a indústria vale-se ‘deliberadamente’ e cada vez mais das informações atinentes a uma realidade cujas propriedades vão ao encontro de nossa intuição primária, a-histórica, isto é, ao conhecimento antepredicativo dos universais formais que, antes de se manifestar no cérebro, jaz codificado no genoma.

Mistério num enigma

Como, por exemplo, o fenômeno conhecido como ‘tunelamento quântico’, que é a chave do funcionamento dos microscópios de emissão e de tunelamento de elétrons, dos relógios atômicos de alta precisão e dos chips dos computadores atuais, que são circuitos eletrônicos constituídos de ‘diodos túnel’. Além disso, técnicas e dispositivos recém-criados – como o transistor do tamanho de um átomo construído por Dave Wineland e Chris Monroe em 1995 – sustentam a expectativa de exploração industrial de outras esquisitices do nanomundo, como a sobreposição de estados quânticos e o efeito EPR. O monitoramento dessas propriedades e processos, ainda incipiente, mas em aprimoramento, promete inovações extraordinárias e de grande impacto na vida cotidiana, como a computação quântica (muito mais veloz que a computação baseada na eletrônica tradicional), a criptografia quântica e o teleporte quântico de dados.

Sabe-se que o ácido acetilsalicílico, princípio ativo da aspirina, foi descoberto em 1897, mas seu mecanismo de ação só foi esclarecido em meados da década de 70 do século 20. De forma semelhante, a descrição dos processos quânticos permite a fabricação de inúmeros artefatos que utilizamos em nosso dia-a-dia, apesar de que ainda não se chegou à compreensão desses processos. A mecânica quântica, malgrado tenha se firmado como disciplina científica na década de 1930, até hoje não foi devidamente assimilada nem mesmo pela comunidade dos físicos, e talvez, caso os argumentos aqui explanados estejam corretos, jamais poderemos alcançar um conhecimento dos efeitos quânticos que não seja de caráter fenomenológico.

Ora, se o mecanismo profundo de funcionamento de um computador é algo misterioso mesmo para um físico, para um leigo, então, trata-se de um mistério dentro de um enigma.

Impasses da divulgação científica

Uma obscuridade que, se não é uma situação-limite, deixa em posição bastante incômoda os divulgadores e jornalistas científicos que por acaso são ateus ou agnósticos; ou que, mesmo crentes, sabem que a ‘liberdade de duvidar é uma questão importante em ciência e (…) também noutros campos. (e que esta liberdade) Nasceu de uma luta’. (Richard Feynman) Luta contra monarcas divinos, grão-sacerdotes e demais potentados responsáveis pela guarda de dogmas e enigmas religiosos.

Isso porque, como comentei antes, para expor ao leigo esse conhecimento que está na base da tecnologia moderna, é necessário reportar-se a entidades e processos que, a muitas pessoas, sugerem o Sagrado, dadas as semelhanças que existem entre eles e os artifícios dos quais se valem as mitologias para justificar os infortúnios da vida e contornar suas aporias. Afinal, tanto os fótons quanto os espíritos desencarnados não têm massa (ao leigo, a massa gravitacional dos pacotes de luz aparenta ser algo tão fantasmagórico quanto o ‘ectoplasma’ das assombrações); assim como um elétron pode atravessar barreiras energéticas, desaparecendo num lado e reaparecendo no outro de uma forma abrupta e simultânea, do mesmo modo os íncubos e súcubos surgem/somem inopinadamente e, sem nenhuma dificuldade, traspassam portas trancadas e muralhas; e se o elétron, na condição de onda, encontra-se virtualmente em todos os lugares em que é possível estar, tal ubiqüidade ondulatória também é um atributo dos deuses, já que – supõe-se – sua presença ‘vibra’ em qualquer hora ou lugar que sejam evocados.

Essas semelhanças embaraçosas tendem a se acentuar quando o divulgador ou o jornalista científico, em seu esforço para tornar os efeitos quânticos menos abstrusos ao leigo, procura ilustrá-los com os fenômenos corriqueiros do nosso universo cotidiano. Mas não porque esse recurso seja inapropriado, frise-se. Aliás, não raro os cientistas lançam mão da analogia até mesmo como instrumento de análise científica e de catalogação de dados. Na física das partículas elementares, por exemplo, os quarks distinguem-se em ‘sabores’ e ‘cores’, apesar de serem muito menores que o menor comprimento de onda de luz visível (a locução ‘cromodinâmica quântica’ é uma expressão técnica desse ramo da física).

Alimentando a crença

Ora, se os próprios físicos utilizam analogias para melhor metabolizar as estranhezas do objeto de suas pesquisas, mais razão têm os jornalistas científicos para empregarem-nas em suas resenhas. Pois, decerto, analogias e metáforas sempre foram de grande utilidade pedagógica. Representam uma fórmula pela qual o inusitado torna-se assimilável ou menos indigesto.

O problema está quando se extrapola o limite do razoável a ponto de confundir similaridade com identidade, analogia com homologia. Afirmar que o ‘sonho’ de toda molécula é reproduzir-se (François Jacob) ou que os genes são ‘egoístas’ (Richard Dawkins) é uma forma bastante expressiva – visto que poética – de esclarecer determinadas propriedades dos sistemas físicos não-anímicos. No entanto, é mister ressalvar que se trata apenas de alegorias; que, na verdade, as coisas se passam ‘como se’ as moléculas sonhassem e não que elas efetivamente sonham. Emprestar paixões humanas a objetos inanimados sem os devidos cuidados pode induzir o leigo a concluir pela pertinência do animismo quando não há premissas que levem a isso.

E não só ao animismo: como as moléculas são microssistemas físicos sujeitos ao Princípio da Incerteza de Heisenberg – isto é, sistemas quânticos – e, por isso, capazes de comportamentos extraordinários para o comum dos mortais, então considerá-las entes animados implica incluí-las na categoria dos viventes com poderes paranormais. E, se quiser, pode-se até ir mais longe, como dar a esses gnominhos uma dimensão mais respeitável, um tamanho macroscópico ou mesmo macrocósmico. Para tanto, basta apelar para uma das versões da teoria da inflação do físico norte-americano Alan Guth e pronto, ‘Fiat Dei!’. Isso é uma pilhéria, obviamente, mas é bom levar a sério a possibilidade de que divulgadores e jornalistas científicos, pelo fato de não controlarem os arroubos poéticos, estejam mesmo a alimentar, involuntariamente, a crença popular no sobrenatural.

Deus pessoal

Acrescente-se ainda que, devido às caricaturescas semelhanças já apontadas – entre fótons e duendes, entre a ubiqüidade do elétron-onda e a onipresença do doutor Fritz –, bem como a que existe entre a matemática avançada e o suposto saber místico (no que diz respeito ao caráter esotérico de ambos), em meio aos divulgadores da ciência que porventura são crentes muitos não resistem à tentação de extrair metáforas diretamente do universo mítico-religioso, e o fazem mesmo quando a divindade que professam nada tem a ver com as variantes folclóricas do mito. Bem, se o propósito disso é apenas a divulgação científica – sem a intenção embutida de sustentar dogmas religiosos escorando-os na ciência – então basta que se diga que esse recurso é absolutamente estéril, pois consiste em tentar esclarecer o obscuro com o abstruso. De resto, se não há razão para ser intolerante com o pensamento mágico, também não há motivos pelos quais a ciência tenha que acumpliciá-lo.

Mas a verdade é que até físicos consagrados utilizam-se desse recurso estéril, não porque são crentes, mas por serem irreverentes. Stephen Hawking, por exemplo, mesmo sendo um ateu convicto, sempre repete em seus livros de divulgação que o intento dele é compreender a mente de Deus. E, recentemente, a mídia noticiou com alarde a provável identificação da ‘Partícula de Deus’ (o bóson de Higgs, tido como o ‘santo graal’ da física) pelos cientistas da Organização Européia de Pesquisa Nuclear Cern. Não sei se a ênfase dada ao caso deveu-se mais ao fato mesmo da detecção do bóson ou ao seu sugestivo nome de guerra. Mas me lembro que, nesse dia, um amigo meu – católico fervoroso da Renovação Carismática – telefonou-me morto de feliz apenas para anunciar-me a ‘comprovação científica da existência do Senhor’ e tripudiar sobre a minha alma agnóstica.

É importante considerar que o Deus em que crê a maioria das pessoas é um deus pessoal e passional que ouve orações e zela pelos seus filhos, muito diferente do Deus dos filósofos (de Spinoza ou Leibniz), provavelmente a versão que inspirou a alcunha. A palavra ‘Deus’ é polissêmica e de valor emocional ímpar. Por isso, conferir a uma partícula fundamental – que supostamente deu origem a toda a massa do universo – o epíteto ‘partícula de Deus’ não é um ato tão inócuo como dar a um planeta o nome de Júpiter.

Fascínio pelo mistério

O fato de não compreender não suscita apenas sensações de aborrecimento ou medo. Pelo misterioso também sentimos forte atração, um tropismo que, curiosamente, é uma das condições de possibilidade da pulsão epistemofílica, do desejo de desvelar enigmas. Isso porque, para desconstruir mistérios, é preciso aproximar-se deles, ter com eles uma relação íntima.

Mas essa atração também pode apresentar-se sob a forma de resignação extática, como aquele amor passivo pelo insondável que o paradoxo de Tertuliano – ‘acredito porque é absurdo’ – tão bem ilustra. Qual a razão disso?

No romance O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro, Padre Monteirinho sente saudades do mar da sua antiga paróquia, porque ‘o mar ampliava o horizonte, era a liberdade, a sensação de que haverá sempre outro lado, sempre uma saída.’ Ora, o contato com o Mistério surte a mesma sensação. Com efeito, há algo de alvissareiro no fato de existirem fenômenos incompreensíveis que não obedecem às regras deste nosso mundo newtoniano. Pois, se existem, é porque essas regras não são tão férreas assim, a princípio incontornáveis. Isso cria a expectativa de que talvez haja uma porta de saída neste universo claustrofóbico; incute-nos a esperança de que também possamos nos libertar dessas leis que são também limites para a nossa felicidade e que arrasta tudo para a senescência e depois para a morte.

‘O último dos magos’

Também há algo de lúdico em todos esses fenômenos que ilustram o Mistério. Pelo simples fato de serem eles contrários – sob determinados aspectos – ao princípio da realidade, isso os torna contíguos ao princípio do prazer, tanto que o trazem à tona sob a forma de risos. Risos de encantamento, mas também de chacota. Sim, porque esses objetos ‘de outro mundo’, ao se comportarem de forma tão subversiva, até parece que estão zombando da realidade comezinha, escarnecendo dessa natureza banal cujas leis nos impõem tantas restrições – são como aqueles polichinelos de ‘underground’ que fazem pilhérias com a cara do déspota, proporcionando assim aos escravos, se não a própria liberdade, pelo menos esse alegre sucedâneo que é rir do tirano.

Em suma, existe uma paixão humana pelo misterioso que pode ser viril, ativa, uma pulsão para desvendá-lo, mas que também pode ser passiva, feminina, de extasiada entrega ao que ele tem de sublime.

Não é verdade, porém, que a primeira atitude seja exclusiva do cientista e a segunda, do sacerdote. Pois, por um lado, há uma categoria de místicos que, tanto quanto os homens de ciência, deseja a chave do enigma, com a diferença de que, consoante esta crença mística, o conhecimento dos segredos mais profundos não se obtém por meio de operações lógico-experimentais e de um ‘détour’, mas através de um pensamento não algoritmo, consistindo, portanto, numa visão direta da verdade. Às vezes, o cientista e o místico desta cepa reúnem-se num mesmo indivíduo, como foi o caso de Isaac Newton, considerado o pai da ciência clássica, mas que, segundo Keynes, também foi ‘o último dos magos’.

Elogio dos princípios

Por outro lado, muitos homens de ciência demonstram uma capacidade quase religiosa de se maravilhar com o imperscrutável, além de considerarem essa capacidade como uma característica essencial do espírito da investigação científica. Einstein, por exemplo, escreveu que ‘a mais profunda emoção que podemos experimentar é inspirada pelo senso do mistério. Essa é a emoção fundamental que inspira a verdadeira arte e a verdadeira ciência. (…) Foi o senso do mistério – mesmo se misturando com o medo – que gerou a religião. A existência de algo que nós não podemos penetrar (…) que apenas em suas formas mais primitivas são acessíveis às nossas mentes – é esse conhecimento e emoção que constituem a verdadeira religiosidade’.

De fato, muitos cientistas entendem que a ciência e mesmo a razão não são onipenetrantes, que há um conjunto de fenômenos que são irredutíveis à evidência e que, portanto, cabe ao homem resignar-se ‘da melhor forma possível’ à ignorância com relação a uma parcela significativa da realidade. A este respeito, Max Planck afirmou: ‘A Ciência não pode resolver o mistério definitivo da natureza, porque, em última análise, nós mesmos somos parte do mistério que estamos tentando resolver.’

A devoção ao mistério é, pois, um sentimento presente tanto na atividade científica como na religiosa. Por isso, e também como conseqüência do desenvolvimento recente da física (que pôs a humanidade diante de enigmas realmente insondáveis), a divulgação científica e o discurso místico-religioso tendem hoje a se interpenetrarem. Com efeito, seitas ‘new age’ inspiradas no misticismo oriental abusam dos conceitos da mecânica quântica e da cosmologia moderna. De outra parte, autores de ficção científica sem nenhuma ligação com essas seitas vêm acrescentando ao imaginário popular utopias muito estranhas: mundos futuristas em que a mais alta tecnologia coexiste com formas de Estado e costumes medievais, onde sábios cientistas posam de monges, corporações tecnocráticas têm ares de maçonaria e sofisticados robôs lutam em guerras maniqueístas. Tudo a reforçar uma espécie de mística cientificista.

Não creio que haja uma antinomia entre ciência e religião. No entanto, existem diferenças, e a minha opinião é que, tendo em vista o atual contexto, essas diferenças devem ser deixadas bem claras; que, para tanto, a divulgação e o jornalismo científico devem se ocupar também da filosofia da ciência, sobretudo do que a epistemologia tem de consensual ou menos controverso. Acho importante que não se fique apenas cantando loas às maravilhosas descobertas da ciência (dando mais ênfase às comprovações do que às refutações), mas que também se faça o elogio dos princípios que presidem o processo pelo qual se chega a essas descobertas.

Menos motivos para matar

Como o princípio segundo o qual todo conhecimento, por mais que seja corroborado pela experiência, jamais perde o caráter de mera hipótese, o que significa dizer que, embora possamos conhecer a verdade, o conhecimento que temos dela será sempre aproximativo, com uma margem variável de incerteza e, portanto, passível de questionamento. Aliás, é de suma importância ressaltar que, se há progresso na ciência, isso se deve ao fato de que o conhecimento científico não só é questionável – ou seja, duvidoso – como também é efetiva e permanentemente questionado.

Por que é tão importante martelar o postulado epistemológico de que ‘toda proposição é duvidosa, inclusive esta’? Porque, como disse Richard Feynman, a liberdade de duvidar é uma questão importante na ciência ‘e também noutros campos’. Realmente, as regras científico-metodológicas decorrentes do princípio da incerteza são, também, as regras do jogo democrático, os princípios da Sociedade Aberta. Senão vejamos: a democracia moderna tem por base os conceitos de igualdade, de liberdade e de respeito às minorias. Ora, o caráter incerto do conhecimento estabelece uma ‘igualdade’ de condição – a incerteza – entre todas as crenças, o direito à ‘liberdade’ de questionar – já que tudo é questionável, inclusive esta sentença –, além de conceder a qualquer opinião o benefício da dúvida, ou melhor, determina que as crenças mais dissentâneas sejam ‘toleradas’, pois não é absolutamente certo que sejam equivocadas.

Acredito firmemente que a maior contribuição da ciência à civilização consiste na conquista da liberdade de duvidar. Se, por conta das contra-intuitivas descobertas da mecânica quântica, os físicos contemporâneos encontram-se hoje numa relação de contigüidade com os antigos ‘mistés’ (os iniciados nos mistérios divinos), então é necessário que a divulgação e o jornalismo científicos também mostrem a diferença mais marcante entre a ciência e a mitologia religiosa: o posicionamento de ambas acerca da incerteza do conhecimento. E que sejam enfatizadas as implicações éticas da aceitação da dúvida ou da sua rejeição.

Penso que, no dia em que o ceticismo científico for definitivamente assimilado pelo senso comum, as pessoas terão menos motivos para matar e morrer.

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Bacharel em Direito (ninguém é perfeito), escritor em estágio larval e leitor voraz de livros e revistas de divulgação científica, Fortaleza

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