Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIêNCIA > AMAZÔNIA NA MÍDIA

As iniciativas da igreja católica e da TV Globo

Por Ronaldo Pereira Santos em 27/03/2007 na edição 426

A Amazônia, enquanto velho tema de interesse geral, há tempos vem sendo alvo das mais variadas avaliações, especulações, mitos, preconceitos e – por que não dizer? – até de algumas raras verdades. Por consenso, no atual cenário de debates ambientais, não há marca mais forte que a floresta amazônica. Ainda assim, a região não tem o espaço que deveria na agenda brasileira, incluindo as ferramentas de massa, como a televisão e as religiões. Em última análise, tal fato estimula o cardápio indigesto e imaginário, tendo a internacionalização como prato principal.

 

Visto assim, talvez esses motivos fossem os catalisadores do interesse nascido à mesa das cúpulas da Rede Globo e da igreja católica em 2007. Retóricas à parte, o assunto passou a ter tratamento de horário nobre na programação das duas grandes instituições – pelo menos de forma mais midiática. Além da minissérie da TV Globo, a Campanha da Fraternidade (CF) da igreja católica também ligou os holofotes à máxima potência para a maior floresta tropical do mundo. O problema é que luz excessivamente alta pode cegar o ponto focado, mostrando o irrelevante ou escondendo o que interessa.

 

Manifesto dos globais

 

Para os católicos, desde 1964 – quando se iniciou o programa da CF, ainda timidamente no Nordeste –, é a primeira vez que o tema está relacionado a um grande bioma de interesse mundial. Até então, as discussões foram sempre ligadas às questões eclesiásticas ou, na melhor das hipóteses, sociais. Com o crescimento da importância de se aliar social e ambiental, a igreja mudou a mira. Os temas sócio-ambientais começaram timidamente ainda em 2004, quando a CF falou sobre a água. À época, a ala ambiental aplaudiu a iniciativa e, assim, a nova pontaria foi coroada.

 

Não se discute aqui supostos interesses em melhorar a imagem da instituição na Região Norte, onde há uma clara evasão de fiéis. Outros críticos (mais competentes e familiarizados) podem melhor fazê-lo. Na verdade, evangelizar os povos amazônicos – incluindo especialmente os índios – foi um dos pilares da igreja no início do século passado: as chamadas missões catequéticas. Nunca imaginaram, talvez, que deveriam olhar para a região como um todo para, quem sabe, chegar mais sensivelmente aos fiéis em potencial.

 

Já a Rede Globo vem incluindo há mais tempo a Amazônia em sua programação, seja de teledramaturgia, como a minissérie Mad Maria, ou em programas mais leves, como Globo Ecologia e Globo Repórter. Sem surpresas, a visão do paraíso selvagem exibido nas telas é sempre a mesma na maioria da mídia com sede no Sudeste: a Amazônia vista como local de mato, atrasado, cheio de feras e muita água; um exotismo sem igual. Em outras palavras, a visão eterna do santuário ecológico pedindo para ser ‘eternamente preservado’. Como bem escreveu uma pesquisadora da região ‘A Amazônia não é só paisagem’ (clique e leia o bom artigo em PDF). Infelizmente, é uma visão difícil de ser quebrada e é o que prevalece abaixo da linha de Brasília. Será que, enquanto líder de audiência a rede dos Marinhos não tem sua parcela de culpa na consolidação dessa imagem?

 

A atual minissérie da Globo estimulou algo interessante. Os atores globais finalmente descobrirem a existência da Amazônia e seus problemas (muito além, é claro, daquilo a que estão mais habituados – férias, hotel na selva, passeios com guias etc.). Lançaram uma página na internet divulgando sua indignação com o desmatamento em forma de abaixo-assinado. O manifesto chama-se sugestivamente ‘Amazônia para sempre’ (como se ela nunca tivesse existido). Entretanto, não exageremos no trato como os globais enxergam o Brasil além Rio-São Paulo. Afinal, não é somente a Amazônia vista assim, e nem tão pouco uma visão restrita aos globais.

 

Ponto positivo

 

Sob esta ótica, são válidas as ações das duas organizações? Sem dúvida. Na verdade a tendência é global. Pobreza e bem-estar dos povos estão intimamente ligados à maneira pela qual (des)tratamos o meio ambiente. Em análise mais crítica, estão ultrapassados os agentes ou as instituições que não tiram a venda ideológica para o assunto. A igreja e a TV mais importante do país não poderiam ficar no rabo da fila. Tendo a Amazônia como mote e, independente de qualquer objetivo paralelo, as iniciativas são uma clara evidência de como as questões sócio-ambientais bateram à porta de ambas. E esta foi aberta. Um grande acerto.

 

Óbvio que, em termos práticos, não teremos mudanças na realidade da Amazônia nem redução da taxa de queda de árvores. O mais importante é que parte do Brasil, (ainda majoritariamente católico) passará a conhecer um pouco do que é a região – vista, até então, com desdém e preconceito pelo Sul.

 

Claro, também, que a Campanha da Fraternidade não tem a missão solitária de resolver as encrencas aqui (Amazônia) geradas (nem tem força e obrigação para tal): a missão da igreja – segundo ela própria – é fraternidade, busca pela paz e justiça social. Mas se tomada como política interna permanente, a campanha tem importante papel na busca pela melhoria de vida de seus povos sem destruir a floresta, além de contribuir para o debate. Isto vai bem além da Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), iniciativas da Igreja já em processo na região.

 

Já a iniciativa da Globo talvez não dure mais que o fim da minissérie; a não ser, é claro, que a intenção vá além dos interesses de praxe da mídia, resumidos à expansão de dividendos – obtidos pelas marcas boas de publicidade – e a um superficial serviço à sociedade.

 

No grosso, o ponto positivo da iniciativa reside no fato de que tanto católicos quanto globais pelo menos já sabem que quase 20% da floresta está morta: mesmo num mundo de interesses, grandes ações podem surgir após alguma barbárie.

******

Engenheiro agrônomo com mestrado em Florestas Tropicais, Manaus, AM

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/04/2007 Paulo Bandarra

    … quem defende a idéia de floresta intocável de fato nem deveria opinar sobre o assunto pois nitidamente não entende nada sobre a floresta… O mesmo poder-se-ia dizer de quem defende o contrário! Minha opinião é que as pessoas devem livremente exprimir as suas opiniões, mas basear as mesmas em conhecimento e não em preferência! A verdade é que nenhuma floresta resistiu a esta exploração conservacionista até hoje!

  2. Comentou em 01/04/2007 Paulo Bandarra

    … quem defende a idéia de floresta intocável de fato nem deveria opinar sobre o assunto pois nitidamente não entende nada sobre a floresta… O mesmo poder-se-ia dizer de quem defende o contrário! Minha opinião é que as pessoas devem livremente exprimir as suas opiniões, mas basear as mesmas em conhecimento e não em preferência! A verdade é que nenhuma floresta resistiu a esta exploração conservacionista até hoje!

  3. Comentou em 31/03/2007 Paulo Bandarra

    homeopatia animal e vegetal!!! UAU!!! Estupendo! Quem é que faz a repertorização de cada planta ou animal, levando uma hora e meia para cada individuo em particular, para saber de cada particularidade de cada um, dos seus gostos e característica individual de adoecer? Como fazem com as pessoas humanas cobrando os olhos da cara! A escolha do similium do abacateiro ou da vaca de pasto? Será que plantas e animais têm doenças psicossomáticas também? Ou é tudo dado como se fosse vitamina dando para todos iguais? Será que plantas e animais têm pensamentos ruins por isto que adoecem? Ou será que existiu o pecado original de cada planta e animal que nós nem sabíamos que existira para agirem contra as leis de Deus? Será que um pé de alface é mais semelhante a um humano do que estes entre si, que pode ser usado a experiência no homem são para buscar os sintomas das plantas sem repertorizar? Quanto progresso que estão levando para a Amazônia!!!!! Se nossos agrônomos são assim, imagina na Jamaica???

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem