Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIêNCIA > JORNALISMO CIENTÍFICO

As metáforas da nave Stardust

Por Ulisses Capozzoli em 16/01/2006 na edição 364

Jornais de todo o mundo trazem nas páginas da edição de segunda-feira (16/1) o relato do retorno do lander (a cápsula de pouso) da nave Stardust, que em 2004 coletou poeira do cometa Wild-2, além de amostras de vento solar e interestelar.

A cápsula que penetrou a atmosfera da Terra como um bólido espacial, a 45 mil km/h, e deixou atrás de si uma trilha luminosa semelhante à de um meteorito, foi recolhida no deserto de Utah, no Oeste dos Estados Unidos, onde foi programada para pousar na ponta de um par de pára-quedas para amortecer a velocidade de pouso.

Para leitores mais desatentos, a descida da cápsula (como o lançamento previsto para terça-feira, 17/1, da nave News Horizons, com destino a Plutão, o planeta mais afastado do Sol) não passa de acontecimento aparentemente irrelevante do noticiário espacial. Certamente é mais que isso. E por mais improvável que possa parecer, o retorno da cápsula tem relação com uma história antiga que diz respeito a cada um de nós (não só os remanescentes dos finais dos anos 1960, para quem o nome Stardust remete diretamente a um romântico e bem marcado solo de guitarra que fazia furor nos bailes domingueiros).

A função do jornalismo científico, ou jornalismo de ciência como preferem alguns, é trazer à compreensão da sociedade quais as relações entre esses acontecimentos de forma a se oferecer inteligibilidade possível sobre ocorrências do cotidiano, entre elas a presença de mais de 6 bilhões de pessoas na superfície da Terra, esta terceira pedra do Sol.

Ao coletar amostras sobre o cometa Wild 2, cometa periódico que completa uma revolução em torno do Sol a cada 6,17 anos, a sonda Stardust de que o lander foi parte procura peças de um quebra-cabeças capaz de explicar tanto a formação do Sistema Solar, há 5 bilhões de anos, quando o Sol acendeu sua fornalha termonuclear, quanto ao aparecimento de vida em pelo menos uma das contas de seu colar planetário.

Marca da falibilidade

Cometas são uma espécie de entulho que sobrou dessa formação estelar/planetária a meio caminho entre a borda e o núcleo de uma galáxia espiralada com diâmetro de 100 mil anos-luz – uma espécie de polvo luminoso com seus tentáculos ligeiramente retorcidos pelo movimento de rotação, reunindo aproximadamente 200 bilhões de estrelas, boa parte delas centenas de vezes maior que nosso pequeno Sol.

Se a teoria – desenvolvida especialmente ao longo da década de 1950 – envolvendo cometas estiver correta, esses corpos abrigam material muito pouco modificado e por isso mesmo são amostras preciosas da química e bioquímica do passado remoto.

Bioquímica porque, ao menos de acordo com a concepção do físico-químico e Prêmio Nobel sueco Svante A. Arrhenius (1859-1927), pai da teoria da panspermia, a vida pulsa em todo o Universo e a superfície de cometas é um dos abrigos cósmicos para esse processo se manifestar.

Arrhenius foi lido e reinterpretado por um outro cientista notável, o matemático e cosmólogo inglês Fred Hoyle (1915-2001), investigador com participação fundamental na descoberta da origem dos elementos químicos, a tabela periódica dos químicos, tijolos que constroem o mundo e tudo que existe por aqui.

Hoyle previu corretamente a presença de uma quantidade razoável de material orgânico (à base de carbono) na superfície do cometa Halley, quando esse astro popular passou pela última vez pelas vizinhanças do Sol, em meado dos anos 1980.

Fred Hoyle, que às vésperas de sua morte relatou não esperar ter suas investigações reconhecidas enquanto vivia, retomou uma idéia corrente durante a Idade Média – de que os cometas espalham epidemias em suas passagens periélias (maior aproximação do Sol) quando interceptam a órbita da Terra e deixam um rastro de material semelhante à esteira de um barco que corta com velocidade a superfície de um lago.

A relação cometa/epidemias, na interpretação de Hoyle, estaria ligada ao fato de os cometas portarem formas elementares de vida, como vírus, essas impressionantes estruturas que ocupam um território indefinido entre o vivo e o não-vivo e que sempre estiveram por trás de epidemias capazes de erradicar populações inteiras de diferentes regiões ao longo da história da civilização.

Entre historiadores da ciência há quem defenda que essa ousadia de Fred Hoyle – que também foi um dos pais da teoria cosmológica do estado estacionário, ou criação contínua – custou-lhe o Nobel relacionado à identificação da origem dos elementos químicos como resultado de um processo de ‘cozimento’ por fusão nuclear no interior das estrelas de grande massa, e que um dia se extinguiram e ainda se extinguirão sob a forma de supernovas.

A negligência em relação a Fred Hoyle (não foi o único caso) é mais que suficiente para que o grande público, os leitores de jornais ao menos, se dê conta de que a ciência não é um empreendimento infalível, como ainda registram certos estereótipos. Ao contrário disso, a ciência ostenta a marca da falibilidade, porque é produzida por humanos, ainda que seja dos tesouros mais preciosos que devamos cultivar.

Mundo gelado

A idéia de uma ciência infalível de certa forma foi cultivada por parte dos próprios cientistas, tão vaidosos e ciosos de prestígio quanto jornalistas, embora manipulem ferramentas diferentes para atingir seus objetivos de reconhecimento público. Se os cientistas alimentaram esse mito (que alguns historiadores da ciência equiparam ao dos antigos sacerdotes), os jornalistas se encarregaram de divulgá-lo com a profundidade de uma gota de chuva pelos quatro cantos do mundo.

Ainda assim, nesta abordagem convém retomar o tema de interesse mais imediato, a coleta e transporte para a Terra de poeira de cometas e partículas do vento solar e interestelar.

Os finos grãos de cometa podem relatar como tudo aconteceu, quando a humanidade inteira e toda as outras formas de vida na Terra, das borboletas às girafas, passando pelas minhocas e as baleias, não eram mais que uma possibilidade futura. Isso parece o bastante para demonstrar que o pequeno lander pousado no deserto, mais que uma engenhoca qualquer, é uma espécie de máquina do tempo.

Não apenas pelos cometas, mas também pelos grãos do Sol e de outras estrelas, partículas que formam o vento solar ou estelar: prótons e elétrons retirados de átomos desestruturados pelas reações poderosas dos caldeirões estelares que confirma a teoria alquimista da mutação dos elementos. A diferença, neste caso, é que as panelas e o fogo alquímico eram reduzidos e impotentes para o porte das transformações.

Apenas a conexão alquimia/astrofísica seria o bastante para um relato sobre a extensão, complexidade e beleza da ciência, mas esta também é outra história que aqui só pode ser referida de passagem.

Neste sentido convém acrescentar que as referências à alquimia como sinônimo de ciência mágica na grande ‘noite’ ocidental da Idade Média, com alguma freqüência presente na abordagem apressada da mídia, deve ser repensada. E aqui temos tanto a presença de Hoyle, no primeiro caso, quanto do historiador holandês Jan Huizinga (retomado por Philippe Wolff), no segundo. Uma das obras de Wolff é mais que sugestiva a começar pelo título: Outono da Idade Média ou primavera dos tempos modernos?.

A segunda metade do século passado também trouxe uma razoável compreensão sobre o mecanismo de evolução estelar e as últimas duas décadas têm acelerado o conhecimento sobre formação estelar em torno de estrelas, muitas delas completamente diferentes do nosso Sol. O material trazido pela sonda e que será distribuído a pesquisadores do mundo inteiro já nos próximos dias pode ampliar de forma inesperada essas fronteiras sobre nossas origens.

Quanto à nave com lançamento previsto para terça-feira (17/1) para Plutão, trata-se de um esforço com o mesmo propósito. Plutão é um pequeno mundo gelado a 5 bilhões de quilômetros do Sol, de onde essa bola de fogo que doura corpos esculturais nas praias da Terra não passa de uma luz pálida e fria entre inúmeras outras estrelas, apenas um pouco mais brilhante que Sírius, a luz azulada mais intensa do céu.

Como se não bastasse, a astronáutica por trás do vôo da pequena Stardust também está presente nos satélites que garantem um enorme e surpreendente sistema global de telecomunicações e de orientação.

Estamos mais dependentes que nunca das fontes que se localizam no céu. Ainda que muita gente possa não ter uma idéia muito clara de como tudo isso se manifesta, um desafio para o jornalismo científico.

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