Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

CIêNCIA > DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Como usar o ‘bom senso’ para gerar bobagens

Por Felipe A. P. L. Costa em 17/02/2004 na edição 264

Cientistas não costumam expor publicamente o que pensam sobre assuntos que escapam dos domínios de sua especialidade. Assim, boa parte do que sabemos sobre como eles vêem o mundo ou mesmo sobre o seu trabalho cotidiano depende da intermediação de jornalistas, notadamente os que estão envolvidos com divulgação científica [veja, por exemplo, Hogan, J. 1998, SP, Companhia das Letras; ver ainda Garrett, L. 1995, A próxima peste, RJ, Nova Fronteira.]. No Brasil, país onde o debate acadêmico não pode bem ser classificado como vigoroso, o número de cientistas vivos conhecidos pelo grande público é ínfimo. Os próprios editores e repórteres envolvidos com divulgação científica habitualmente restringem seus contatos no mundo acadêmico a um conjunto bastante acanhado de fontes. Isso tudo cria um círculo vicioso, difícil de ser quebrado.

Para piorar ainda mais as coisas, vários daqueles sujeitos que a imprensa eventualmente apresenta como ‘autoridades científicas’ nessa ou naquela disciplina estão mais para ‘grandes sapos’ do que para pesquisadores verdadeiramente ativos e criativos. [Gente que está mais preocupada em defender ou promover sua posição na burocracia estatal do que em promover pesquisas científicas; para comentários detalhados sobre esse problema em países como o Brasil, ver Mares, M. A. 1991, How scientists can impede the development of their discipline: egocentrism, small pool size, and the evolution of the ‘sapismo’, In Mares, M. A. & Schmidly, D. J. orgs., Latin American mammalogy: history, biodiversity, and conservation, Norman, University of Oklahoma Press; para um raro desabafo por parte de um cientista ativo sobre o papel parasitário da burocracia científica, ver Magueijo, J. 2003, Mais rápido que a velocidade da luz, RJ, Record.]

Quando solicitados, cientistas naturais treinados em determinada área de pesquisa – digamos, fisiologia de membranas ou genética de microorganismos – tendem a extrapolar a mesma lógica que usam no seu microcosmo particular (i.e., o laboratório, a sala de aula, os corredores do departamento etc.) para interpretar assuntos mais gerais sobre os quais pouco ou nada conhecem em detalhes [o contrário também me parece verdadeiro: quando cientistas naturais procuram se inteirar dos detalhes de um problema alheio, as chances de que surjam palpites ou afirmações consistentes são extremamente elevadas.].

Aperte os cintos

Nessas extrapolações, é comum ouvir colegas recorrerem a uma ferramenta chamada por eles próprios de ‘bom senso’. Para muitos de nós, cientistas ou não-cientistas, isso simplesmente parece ser o mais óbvio a ser feito: extrapolar a lógica que ‘explica’ as coisas do dia-a-dia e, assim, tentar então construir uma explicação consistente para as outras coisas desse mundo. Como o mundo das aparências não corresponde muito bem à essência das coisas, muitas dessas extrapolações logo se revelam inadequadas – quer dizer, muitas são analogias que, quando analisadas com um pouco mais de calma, não funcionam como explicações lógicas e consistentes.

Vejo, por exemplo, que um colega levanta os braços para reclamar ruidosamente da falta de verbas para pesquisa (quando, na melhor das hipóteses, quer apenas mais dinheiro para o seu laboratório), enquanto um outro anuncia (sem aparentar cinismo ou má-fé) as benesses de um mundo futuro governado pelas ‘maravilhas’ geradas pela genética molecular… Nos dois casos, lança-se mão de uma lógica e de um tipo de raciocínio que ambos estão habituados a empregar dentro dos domínios de suas respectivas especialidades profissionais. Às vezes, isso pode dar origem a uma sacada instigante e produtiva; mais freqüentemente, porém, o resultado tem sido espantosamente desastroso.

No que segue logo abaixo, apresento uma lista com 13 exemplos colhidos na mídia brasileira, incluindo afirmações encontradas em artigos escritos por jornalistas e também por cientistas, entremeada por uma ou outra máxima popular. Em comum, todas essas afirmações têm o mesmo país de origem (o bom senso), diferindo apenas pela variante (erudita ou popular). Aperte os cintos, que lá vamos nós:

1) O Sol gira em torno da Terra durante o dia, enquanto as estrelas fazem o mesmo durante a noite.

2) O inverno é a estação mais fria porque a distância Terra-Sol alcança seu valor máximo nessa época do ano.

3) O excesso de chuvas que cai durante o verão é responsável pelas cheias que assolam algumas das maiores cidades brasileiras.

4) O colapso da URSS significou o fim do comunismo (pode-se também usar ‘socialismo’ em vez de ‘comunismo’).

5) Lavagem cerebral era a técnica usada pelos comunistas para converter opositores em defensores do comunismo.

6) O capitalismo é o modo mais racional de organizar a sociedade humana, pois está fundamentado em princípios derivados de nossa essência biológica.

7) Populações tradicionais (índios, ribeirinhos, quilombolas etc.), que subsistem às margens do regime capitalista de produção, vivem em equilíbrio com seus respectivos ambientes, pois exploram os recursos de modo ecologicamente sensato.

8) Jogadores de futebol afro-descendentes são inerentemente mais habilidosos que os não-afro-descendentes, pois a ginga de corpo é uma característica própria de negros e mulatos.

9) O aumento anunciado no consumo de água mineral sinaliza o vigor de nossa economia.

10) Precisamos concluir logo o inventário de nossa biodiversidade, para então descobrirmos aplicações.

11) Devemos expandir a fronteira agrícola do país para aumentar a produção de alimentos.

12) A produção de organismos geneticamente modificados (transgênicos) é uma importante contribuição da ciência para aumentar a produtividade agrícola e, assim, combater a fome no mundo.

13) Os anéis do chocalho indicam a idade da cascavel.

Pois é. Há erros, mal-entendidos ou falácias em todos os 13 exemplos acima. A notícia boa é que, de um jeito ou de outro, essas afirmações podem ser submetidas a um exame criterioso. E é justamente essa a tarefa fundamental do cientista: tatear as respostas dadas às indagações feitas sobre o mundo que nos rodeia. Repórteres e editores que escrevem sobre ciência deveriam não se esquecer disso.

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Biólogo, autor do livro Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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