Terça-feira, 22 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

CIêNCIA > IMPRENSA, CIÊNCIA E VIDA

Debate pertinente, edição sofrível

Por Ulisses Capozzoli em 15/03/2005 na edição 320

Em 1943, quando fez um conjunto de palestras sobre um tema enigmático ainda hoje (O que é vida?), o físico austríaco Erwin Schrödinger (1887-1961), Prêmio Nobel de 1933, produziu um clássico que acabou conhecido com este título – e que o matemático e astrofísico inglês Roger Penrose interpretou como um dos mais importantes escritos científicos do século passado.

As palestras foram desenvolvidas no Trinity College, em Dublin, na Irlanda, como desdobramento de um convite feito pelo primeiro-ministro Éamonn da Valera para Schrödinger ocupar a Cátedra de Física Teórica da Universidade de Grass.

Um dos criadores da mecânica quântica e inteligência singular mesmo entre a constelação de gênios do século passado, Schrödinger assimilou a vida intelectual de Dublin e só retornou à monotonia austríaca em 1956, pouco tempo antes de sua morte.

O que é vida? estimulou cientistas como Crick e Watson, os descobridores da forma helicoidal do DNA, e o bioquímico inglês J.B.S. Haldane, um dos pais da teoria clássica sobre a origem da vida, para citar duas referências em meio a uma multidão de influenciados.

Em 1997, a Editora Unesp publicou em português O que é vida?, acompanhado de Mente e matéria e Fragmentos autobiográficos, e, no mesmo ano, O que é vida? – 50 anos depois, especulação sobre o futuro da biologia, uma releitura do trabalho original de Schrödinger após meio século.

As duas obras merecem a leitura de interessados nos debates que ocorrem neste momento em torno das chamadas células-tronco – ou células-mãe. Quem se deliciar com a leitura desses dois livros (192 e 221 páginas, respectivamente) terá uma noção clara da superficialidade do tratamento dado ao tema pela mídia, a exemplo do material publicada pela edição de domingo (13/3) da Folha de S. Paulo (pág. C 9).

Fé cega

O problema na edição da Folha não é da repórter, que reproduziu as falas do debate ‘O direito à vida’, entre aspas, ao que tudo indica, com precisão. A improcedência é de edição, o que remete ao estilo simplista da Folha, como se assuntos dessa complexidade coubessem na meia dúzia de regras previstas em seu pretensioso Manual da Redação.

A manchete da página sintetiza o equívoco: ‘País precisa definir o que é vida, diz cientista’, o que nos remete a Schrödinger.

De fato, a repórter registra cautelosamente entre aspas a fala da geneticista Lygia da Veiga Pereira, da Universidade de São Paulo, mas a referência em destaque foi feita em outro contexto, com uma evidente ponta de ironia. Até porque, mais à frente, segundo o registro da repórter está dito: ‘Não existe uma definição científica de vida, argumentou Lygia Pereira’, acrescentando que ‘ela defendeu o conceito de que o embrião tenha um ‘potencial de vida’, que vai aumentando à medida que passa pelos diferentes estágios de desenvolvimento e considera ‘suportável’ utilizar as células de embriões com até cinco dias’.

O problema, aqui, é que para quem lê a manchete de página sobre um debate que reuniu representantes de diferentes áreas relacionadas a células-tronco, aborto e avanço da ciência, fica a mensagem de que, por um ato burocrático, pode-se resolver uma questão dessa complexidade, que tem por trás séculos de discussão, para considerar apenas filosofia e medicina.

O efeito nefasto deste tipo de abordagem não se limita à manchete de página que, exatamente por ser literal, trai a verdade ao não refletir a ironia do falante.

A geneticista havia dito, neste contexto, que o Brasil já conceituou a morte [morte cerebral], mas o nível de complexidade entre essas duas situações é abissal, o que não foi esclarecido em nenhum momento. A menos que o jornal entenda que seus leitores prescindam dessas interpretações.

Como se não bastasse, a geneticista Lygia Pereira foi, ao menos no contexto do material publicado, a única com conteúdo promissor quanto a idéias e propostas. Numa certa assimetria intelectual, as posições defendidas pelo bispo emérito de Jundiaí e professor da PUC-Campinas, dom Amaury Castanho, são um amontoado de equívocos e de má interpretação, o que também evidencia limitações e inconvenientes desse modelo de discussões como fonte de produção de notícias.

O bispo sustenta que ‘é posição científica hoje indiscutível a existência de uma vida humana no momento em que o óvulo é fecundado pelo espermatozóide’.

Para retomar as palavras do bispo, ‘posição científica indiscutível’ é uma expressão que não faz sentido no universo da ciência. Em princípio, nada é indiscutível na busca do conhecimento. O problema aqui talvez se deva ainda a uma tentativa de conciliar ciência e fé, iniciativa que levou os escolásticos a dar com os burros n’água, mas não desanimou a administração Bush de reeditar obscurantismos ideológicos.

O bispo diz que ‘a partir da nova lei [recentemente aprovada pelo Congresso] o investimento do Ministério da Saúde e de outras instituições nas células-tronco embrionárias humanas vai prejudicar o avanço das pesquisas e das aplicações das células-tronco adultas’.

Se tivesse domínio de ciência equivalente ao das Ave-Marias, o bispo compreenderia que a busca do mistério da vida nas profundezas bioquímicas, eventualmente quânticas das células, não se dá de maneira superficial e necessariamente excludente. Ao contrário, a compreensão das células-adultas não pode ser desvinculada do desvendamento das células-embrionárias. Qual a mais promissora delas para o tratamento de doenças degenerativas? Estamos apenas iniciando o processo e não concluindo, como entende equivocadamente o religioso.

Há aqui uma beleza que a fé cega não pode enxergar. Isso faz do bispo, com pretensões de pensador, um homem incapaz de contemplar as profundezas da criação que pretende ser domínio exclusivo da religião.

Amenizar sofrimentos

Historicamente, desde que o citologista e fisiologista alemão Theodor Schwann (1810-1882) estabeleceu, em 1839, as bases da teoria celular, pesquisadores do mundo inteiro se deram conta da possibilidade de se gerar um organismo adulto completo a partir de uma única célula.

No século passado, dois outros pesquisadores – o alemão Hans Spemann (1869-1941), Prêmio Nobel de Medicina de 1935, e o norte-americano naturalizado Jacques Loeb (1859-1924) – começaram a decifrar as células-tronco utilizando experimentos com células de embriões.

A ovelha Dolly, clonada em 1996, é um legado de Spemann para as técnicas de implantação de núcleo celular. E nada disso é reprovável enquanto conhecimento, ainda que o emprego de qualquer técnica dependa de sustentação ética, o que significa que toda conquista é acompanhada de uma dose de ameaça, princípio válido desde que o homem apareceu neste mundo.

O bispo dom Amaury Castanho diz que ‘em princípio sou favorável à vida [do embrião] em todos os casos, mesmo em casos de violência contra a mulher e quando há riscos à mãe. Nunca nós, cidadãos, deveríamos estar ao lado de uma linha de cultura da morte, de uma política antinatalista. A vida é intocável’.

A primeira parte do raciocínio choca-se com a realidade. Até porque bispos, ao menos por exigências profissionais, não têm mulher e filhos, o que significa que dom Amaury Castanho não dispõe de experiência vivida para relatar.

Na segunda parte de sua fala, o bispo se trai por um advérbio de negação: ‘nunca’.

Uma leitura rápida do que foi a Inquisição, o braço armado da Contra-Reforma, é o bastante para revelar o quanto a Igreja torturou e matou nas fogueiras da ‘purificação’. Giordano Bruno, quem anunciou a vida espalhada não apenas neste mundo, mas em todo o Universo, orbitando a maioria dos sóis da Galáxia, é um dos cadáveres insepultos vítima do fogo insano do passado. Sem falar de Copérnico e Galileu.

Copérnico destronou a Terra já do leito de morte, fora das garras da Inquisição. Mas Galileu foi pego e obrigado a se retratar, sob a vistas dos ferros de tortura. Daí a inconveniência de dom Amaury em utilizar o advérbio ‘nunca’ para livrar a Igreja de uma memória de brutalidades.

A perspectiva da ciência, ainda que não haja garantias absolutas neste sentido, é a de amenizar o sofrimento humano. Neste sentido, as células-tronco representam a possibilidade de materializar promessas encenadas como ‘milagres’ pelas religiões.

Tratar leucemia, doenças e lesões pela substituição de tecidos doentes ou destruídos. É o caso de enfermidades neuromusculares, diabetes, enfermidades renais, cardíacas e hepáticas, entre outras. Pacientes vítimas de acidentes e que ficaram paralisadas, como aconteceu com o ator Cristopher Reeves, quem encarnou o Super-Homem, poderão recuperar seus movimentos.

Síntese filosófica

Religiosos mais ortodoxos costumam ver decadência onde há criação – e com isso contribuem para uma perigosa paralisação das idéias, com riscos de retrocessos que quase sempre são incapazes de avaliar. Ao menos a parcela mais intelectualizada da sociedade deve repelir essas incongruências, herança do passado teológico que empobreceu o Ocidente.

Outro dos debatedores, o presidente da União dos Juristas Católicos, Paulo Leão, defendeu que a Lei de Biossegurança, aprovada pelo Congresso e que ainda depende de sanção do presidente da República, ‘avilta a vida de todos. Todos nós já fomos zigoto, ovo fecundado, blastocistos [referindo-se à evolução celular]. E a partir daqueles momentos, todas as informações genéticas já estavam presentes. Não seríamos o que somos hoje se não tivéssemos sido esse ovo fecundado’.

É um típico argumento emocional. Para serem coerentes, defensores de idéias como essa não deveriam tocar em nada que é vivo, o que significa perecer por inanição.

Discutir a condição humana nos limites exíguos de certo formalismo é, mais que subverter as leis da vida, perder a dimensão do Cosmos. Por isso mesmo é confortável registrar uma expressão significativa utilizada pela geneticista Lygia Pereira, de que é ‘suportável’ utilizar as células de embriões com até cinco dias.

Há aqui uma outra perspectiva para a condição humana: a de que, apesar de tudo, é preciso seguir na busca do conhecimento levando-se em conta que a ética não é um adereço localizado, mas uma postura indissociável da estética – neste caso, o próprio mistério da vida.

O debate reproduzido pela Folha reuniu ainda o ministro da Saúde Humberto Costa e a procuradora Flávia Piovesan, do Comitê Latino-Americano e do Caribe para os Direitos da Mulher (Cladem).

O resumo das discussões, confinado em uma página, pode não ter passado de pálida idéia do que os participantes ouviram no auditório, o que reforça as limitações desse recurso. Para oferecer inteligibilidade possível, um articulista teria, obrigatoriamente, que distinguir as idéias expostas, as perspectivas promissoras das falas comprometidas com um formalismo estéril e anacrônico.

Ou, para tomar de empréstimo uma idéia de Manfred Eigen, que escreveu ‘O que restará da biologia do século XX?’, o segundo capítulo de O que é vida? 50 anos depois. Para Eigen, bioquímico do Instituto Max Planck, na Alemanha, ‘vivemos em uma sociedade que se esquiva do risco. Chegará um momento em que, por esta razão, ela fechará as portas para a ciência e especialmente para a pesquisa básica’. Mesmo agora, diz Eigen, ‘não me surpreenderia ver um adesivo no vidro de trás de um carro dizendo: ‘Pesquisa básica – não, muito obrigado’’.

Na avaliação de Eigen…

‘…um olhar de relance para o estado atual do mundo provavelmente nos deixará pessimistas. A primeira metade deste século confrontou-se com duas guerras terríveis. E que lição aprendemos? Nada irá mudar se não basearmos nossas decisões na razão, aceitando a humanidade como um imperativo moral. O futuro da humanidade não será decidido no nível genético. Precisamos de um sistema ético de ligação entre todas as pessoas. É aqui que a evolução, uma evolução do indivíduo para a humanidade, espera por sua consumação’.

Como se vê por essas considerações, os desafios para o presente não são poucos nem insignificantes. Estendidos para o futuro são ainda maiores e certamente não serão vencidos por mentalidades restritivas.

Como sintetizou um filósofo, o problema não é o medo. Mas a falta de coragem para enfrentar o medo.

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