Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIêNCIA > GLOBO REPÓRTER

Demografia confunde imprensa

Por Felipe A. P. L. Costa em 10/04/2006 na edição 376

As palavras democracia e demografia têm a mesma raiz etimológica (deme, do grego dêmos, povo), mas não são sinônimos nem deveriam ser confundidas. Democracia diz respeito a um tipo de sistema político, enquanto demografia tem a ver com a investigação de atributos numéricos (tamanho, taxas de natalidade e mortalidade etc.) de populações.

Democracia é hoje uma daquelas palavras de uso fácil. Em Brasília, por exemplo, sempre tem algum gaiato dizendo que isso ou aquilo pode significar um retrocesso na democracia brasileira. Já no Oriente Médio, há uma guerra em curso em nome da democracia: as Forças Armadas dos EUA, o país mais poderoso do mundo, estão nesse momento empenhadas em ‘democratizar’ o Iraque, nem que para isso tenham de continuar matando os seus habitantes.

Distinção necessária

Demografia, por sua vez, é um assunto menos badalado, ao menos na imprensa brasileira. Notas ou mesmo matérias mais extensas sobre demografia só costumam ser publicadas quando o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulga algum de seus relatórios. Na edição de sexta-feira 7/4, por exemplo, o Globo Repórter, da Rede Globo de Televisão, abordou um tema demográfico: a expectativa de vida do brasileiro. A pauta era boa, mas o programa infelizmente trocou os pés pelas mãos, dando um enfoque superficial e equivocado a um fenômeno populacional importante. Desconfio que muitos telespectadores tenham ficado com impressões igualmente equivocadas a respeito do assunto.

O pano de fundo do programa foram os resultados de uma pesquisa do IBGE, segundo a qual os mais de 5.500 municípios brasileiros podem ser classificados de acordo com a expectativa de vida de seus habitantes. Os municípios de São Caetano do Sul (SP) e Antônio Carlos (SC) estariam hoje encabeçando a lista. Com isso em mãos, o pessoal da produção foi atrás de casos, exemplos de vida e, claro, ‘explicações’. O programa mostrou então alguns breves relatos de brasileiros idosos (quase todos acima de 60 anos), incluindo moradores da bucólica Antônio Carlos e da agitada São Caetano do Sul. Também foram apresentados casos de outras cidades, como Alfenas (MG) e Recife (PE).

Boa parte dos equívocos do programa talvez pudesse ter sido evitada se o roteiro fizesse uma clara distinção entre expectativa de vida e longevidade. Para que não haja dúvidas: em termos demográficos, expectativa de vida pode ser definida como a quantidade de tempo (em anos, por exemplo) que os integrantes de uma população ainda devem viver. No caso de populações humanas, os demógrafos costumam falar em expectativa de vida de diferentes classes etárias – e.g., ao nascer, aos 5 anos de idade, aos 10, aos 30, aos 50 e assim por diante. É possível ainda discriminar a expectativa de vida de acordo com o sexo, a região geográfica, o nível de renda etc. Nesse caso, poderíamos então investigar se a expectativa de vida ao nascer seria a mesma para meninos e meninas ou entre crianças nascidas em diferentes regiões do país.

Longevidade inalterada

Podemos dizer que a expectativa de vida dos seres humanos aumentou desde a invenção da agricultura, há 10 mil anos. Ao que tudo indica, no entanto, o aumento mais expressivo ocorreu nas últimas décadas, após o advento em larga escala de medidas básicas de saneamento e saúde pública. Nesse ponto, devemos ter cuidado para não confundir dois processos distintos: o aumento na expectativa de vida e uma eventual alteração em nossa longevidade, entendida aqui como o tempo de vida máximo dos seres humanos.

Ao contrário da expectativa de vida, nossa longevidade não parece ter mudado muito desde que os nossos ancestrais inventaram a agricultura e adotaram um estilo de vida mais sedentário. Em outras palavras (grifo no original),

(…) Há indícios de que o homem de Neanderthal vivia uma média de 29,4 anos; o homem Paleolítico (…), 32,4 anos; e o homem Mesolítico, 31,5 anos. Os seres humanos da Idade do Bronze chegavam aos 38 anos e mesmo na Grécia e Roma clássicas as pessoas só viviam uma média de 35 e 32 anos, respectivamente. Nos EUA, no início do século [20], as pessoas viviam mais ou menos até os 48 anos. Só a partir de 1950 é que aumentamos nossa duração de vida provável para cerca de 70 anos, o tempo concebido pela Bíblia.

(…) Há alguns indícios de que nestes milhares de anos, nós não aumentamos realmente nossa longevidade projetada. Nem mesmo com a medicina moderna. Aumentamos meramente nossa média de duração provável de vida. (…)

Antigamente, porém, muita gente morria quando ainda restavam numerosos bons anos em seus relógios biológicos. (…) Como uma pessoa jovem tinha alta probabilidade de morrer a qualquer tempo, 30 anos era a média da duração de vida provável. Mas isso tudo significa simplesmente que tantas pessoas viviam até os 60 anos quantas morriam na primeira infância. Havia pessoas velhas naquelas antigas cavernas espanholas. Havia velhos imprestáveis manquitolando no Senado romano. As populações humanas sempre tiveram um grande segmento de pessoas velhas. – Wallace, R. A. 1980. Sociobiologia: o fator genético. SP, Ibrasa, p. 180-181.

Quer dizer, enquanto a expectativa de vida aumentou de modo significativo ao longo da história recente da espécie, nossa longevidade atual não seria muito diferente daquela que usufruiríamos na Idade Média, na Grécia Antiga ou mesmo em épocas ainda mais remotas.

Prolongar é possível?

O que está ocorrendo agora entre nós, brasileiros, é um fenômeno populacional que já ocorreu antes em diversos outros países do mundo: a idade média ao morrer está sendo empurrada para perto da época em que atingimos os limites de nossa longevidade máxima. Mais uma vez, devemos atentar para os dois processos que estão em curso. O caso brasileiro apenas exemplifica o que os demógrafos de outros países já testemunharam: é perfeitamente possível aumentar a expectativa de vida dos integrantes de uma população, mesmo quando a longevidade máxima permanece inalterada.

A distinção entre expectativa de vida e longevidade certamente diminuiria o impacto sensacionalista do gancho explorado pelo programa. Em contrapartida, no entanto, os telespectadores poderiam usufruir um enfoque mais amplo, profundo e realista. Por exemplo, o programa poderia abordar questões mais diretamente ligadas ao sonho (ou seria delírio?) de combater ou mesmo reverter o processo de envelhecimento (senescência). Não é de hoje que sonhamos com isso. Conta-se, por exemplo, que o explorador espanhol Juan Ponce de León (1460-1521), contemporâneo de Cristóvão Colombo (1451-1506), morreu enquanto viajava pelo Novo Mundo em busca dos segredos da Fonte da Juventude (para detalhes sobre essa lenda, ver aqui).

Mesmo sem irmos tão longe, ainda caberia perguntar: seria de fato possível estender a duração da vida humana por algum período significativo de tempo? Mais especificamente, seria possível prolongar nossa longevidade, digamos, dos atuais 70-80 anos para, quem sabe, 120-150 anos? Na verdade, alguns estudiosos em biogerontologia argumentam que nossa longevidade atual poderia ser multiplicada várias vezes, embora esse ainda seja um tema controverso, mesmo entre os especialistas. No fim das contas, porém, o Globo Repórter não chegou a tocar nesse assunto.

Perspectiva evolutiva

Cabe ainda registrar aqui outros dois equívocos cometidos pelo programa. Primeiro, não ficou claro qual seria a melhor explicação para a posição de destaque ocupada na classificação do IBGE por cidades com dinâmicas tão diferentes como São Caetano do Sul e Antônio Carlos. De minha parte, arriscaria o seguinte palpite para explicar um resultado aparentemente tão contraditório: morando no campo ou na cidade, (quase) qualquer coisa que mexa com a gente serve para melhorar nosso bem-estar físico e mental, inclusive desligar a TV e ir conversar com os amigos…

O segundo equívoco é bem mais sutil e, por isso mesmo, deve ter passado despercebido pelo pessoal da produção. Trata-se do seguinte: programas como o Globo Repórter quase sempre abordam fenômenos biológicos de um ponto de vista meramente descritivo ou funcional, deixando de lado a perspectiva histórica. No caso da senescência, por exemplo, a regra seria ouvir a opinião de algum especialista que discorresse sobre como o processo de envelhecimento ocorre. Mas esse é apenas um dos lados da moeda. Para obter uma explicação mais completa e consistente, a produção do programa também deveria se preocupar em ouvir alguém que pudesse falar sobre a origem e a evolução da senescência – afinal, por que envelhecemos?

Perguntas do tipo ‘como?’ e perguntas do tipo ‘por quê?’ representam os dois grandes domínios das ciências da vida. Após um estágio meramente descritivo, durante o qual descrevemos a forma de determinada entidade (célula, indivíduo, bioma etc.) ou processo (crescimento, reprodução, senescência etc.), cabe-nos ainda responder outros dois tipos de pergunta: como tal entidade/processo funciona e por que funciona assim, e não de um outro modo qualquer? Na prática, estamos todos muitos mais habituados a pensar em termos funcionais, deixando a perspectiva evolutiva de lado. Essa parcialidade, no entanto, pode ter conseqüências negativas.

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Biólogo, autor do livro Ecologia, evolução & o valor das pequenas coisas (2003)

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