Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CIêNCIA > JORNALISMO CIENTÍFICO

Depois do furacão, os tornados

Por Julio Ottoboni em 11/01/2005 na edição 311

Parece que nosso complexo de inferioridade em relação ao Estados Unidos tem também se manifestado no segmento climático. Nossos jornais abrem espaços generosos quando se trata de mostrar cidades pretensamente de ‘clima temperado’ e seus chalés alpinos, neve no inverno, furacão e, agora, os tornados. Realmente podemos nos sentir menos subdesenvolvido e mais ‘em desenvolvimento’.

O surgimento de dois tornados em Criciúma (SC), demonstrou o quanto nossa imprensa é pouco afeita à cobertura de fenômenos naturais com maior precisão científica.

Ficamos sempre no factual e, quando se tenta sair dele, esbarramos na total falta de conhecimento, nesta nossa ignorância terceiro-mundista, muitas vezes insolente. O jornalista não precisa ser, evidentemente, um meteorologista, mas o mínimo que pode fazer é buscar fontes confiáveis e se inteirar do assunto.

A cobertura teve seu ponto alto na manchete do Jornal Nacional, destacando os tornados como ‘fenômeno muito raro no Brasil’. Raro para quem não conhece nada do comportamento climático do Sul e Sudeste e Centro-Oeste do país. Eles ocorrem até na Amazônia! Basta pesquisar, não mais que isto. Mas a cômoda desculpa da falta de tempo nas redações sempre opta pelo mais fácil, não importa que se dê a informação errada.

O mais interessante nisto é que foi preciso se obter imagens do tornado para dar o destaque necessário ao assunto. Pelo visto, se não tiver fotografia ou uma gravação em vídeo – mesmo que amadora – do evento, não lhe é aberto o devido espaço nos noticiários. Diversos tornados como esses acontecem principalmente nos períodos de meia estação, inclusive causando mortes. Entretanto, a falta de conhecimento sobre o assunto buscou a simplificação do fenômeno, denominando-o genericamente de ventania.

Sem questionamentos

Alguns pesquisadores entrevistados referiram-se à falta de equipamento para identificar as nuvens potencialmente formadoras de tornados. Mas ficou nisto, ninguém da imprensa sequer procurou saber que aparelhagem é essa ou mesmo o porquê de nada ser feito neste sentido. Somos totalmente passivos diante da informação. Colaboramos, então, para a manutenção da ignorância, da desinformação e ainda com políticos que insistem em não ver a importância dos estudos científicos.

Como a preferência em boa parte das coberturas jornalísticas é pelo sensacionalismo, houve quem buscou apenas o espetacular do caso e alguém que pudesse ‘qualificar’ essas informações. Uma das fontes usadas num dos maiores portais de conteúdo da internet disse que os tornados duram entre 30 e 40 minutos e que isto dificilmente ocorreria novamente em um centro urbano.

Duas informações equivocadas e perigosas dentro do contexto de pânico estabelecido na região Sul. Os tornados são eventos de curta duração e de comportamento imprevisível. Infelizmente, o que fica evidente nisso tudo é que tem muita gente falando bobagem e quase não há filtragem por parte da imprensa. Parece até que as pautas pedem que entrevistem o primeiro que virem pela frente e nunca questionem nada. E assim vamos entulhando os leitores, ouvintes e telespectadores de um noticiário cada vez menos confiável.

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Jornalista e pós-graduado em jornalismo científico

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