Segunda-feira, 18 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CIêNCIA > JORNALISMO CIENTÍFICO

Em terra de ciclone quem tem um olho é furacão

Por Julio Ottoboni em 13/04/2004 na edição 272

A falta de uma cultura científica no meio jornalístico tem sido alvo de preocupação e de diversos comentários Mas, infelizmente, as manifestações têm tem parado por aí. Uma ação eficiente para corrigir ou minimizar o problema ainda está por acontecer.

Outra vez um evento natural se torna notícia. E o jornalista, nesta história, ou acaba por quebrar a cara por não conhecer nada do assunto e não ter fontes, ou tenta sair pela tangente, buscando consolidar a pauta nas opiniões de personagens do cenário político ou no joguete de intrigas.

Em se tratando de jornalismo, o pior disso tudo é saber que parte dos profissionais de imprensa sequer se apercebe de como esse tipo de informação se tornou crucial para o cotidiano das redações. O objetivo não é criar um jornalista-cientista, mas alguém que não seja um completo analfabeto em assuntos cujo foco noticioso é a ciência. A polêmica, antes de chegar ao governo federal, que dá palpites do futebol à climatologia, foi centrada na denominação do evento que ocorreu em Santa Catarina: ciclone ou furacão.

Formações ciclônicas ocorrem em todas partes do mundo. Em alguns lugares são chamados de furacão, como no Atlântico Norte, de tufão no Oceano Pacífico, e apenas de ciclone em outras áreas do hemisfério sul do planeta. Entretanto, foram poucos os profissionais de imprensa que tentaram fugir do ‘ineditismo’ do primeiro furacão brasileiro.

Vendavais, principalmente tornados, ocorrem com freqüência na porção sul do país nas estações climáticas de transição – ou seja, outono e primavera. Era buscar o histórico de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul e, principalmente do Paraná para se dar conta que por essas plagas passam tornados com poder de destruição 3 na escala Fujita. Mas, mesmo se sabendo disso, os detentores do poder nunca se preocuparam em estabelecer sistemas de alerta avançado nas áreas mais afetadas – ou mesmo treinar suas Defesas Civis para esse tipo de ocorrência.

Tecnologias de detecção

Em 1992, um tornado varreu na cidade de Almirante Tamandaré, na zona metropolitana de Curitiba, matando seis pessoas. Na pequena São Francisco de Paula, próximo a serra gaúcha, no final do ano passado ocorreu outro desastre provocado pelo vórtice de um tornado. E os relatos são muitos sobre esses fenômenos e outros, como chuvas de granizo com 5 a 7 centímetros de diâmetro, ou vendavais arrasadores provocados pela entrada de grandes frentes frias.

No Sul do Brasil, somente o Paraná possui um radar Doppler, que auxilia na identificação de grandes tempestades. Mesmo assim, o raio do equipamento não cobre com a devida precisão toda área territorial do estado. Tenho notícia de que se formou um grupo de cientistas da USP, UFRJ e do Inpe para estudar essa anomalia. Foi ou não furacão? Mas a Nasa e a Noaa disseram que é… o Inpe disse que não! Novamente vamos voltar a correr atrás do próprio rabo.

Além da destruição dos ventos acima de 100 quilômetros horários, as informações transmitidas pela imprensa e por eufóricos meteorologistas provocaram a grande maioria dos acidentes com vítimas. Gerou-se uma histeria coletiva, fora a tentativa desesperada de fugir. A falta de um jornalismo científico analítico e ponderado só serviu para ajudar a construir o caos. Desordem essa que matou uma pessoa de infarto, tal a agonia a que se chegou.

A questão é que em terra de ciclone, quem tem um olho é furacão. E por isso não vejo ninguém, muito menos na imprensa, cobrar uma melhoria imediata e efetiva nos prognósticos meteorológicos regionais. Ou exigir dos governos investimentos em tecnologia de detecção, ou mesmo aumentar e capacitar os quadros funcionais dos centros estaduais de previsão. E o principal: a urgente criação de programas de defesa da população em casos potenciais de catástrofes naturais. Para que não se precise fugir ou morrer por causa de ‘Catarinas’ ciclônicas ou alarmistas.

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Jornalista, pós-graduado em jornalismo científico, professor universitário e repórter especial da Gazeta do Povo, no Paraná

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