Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIêNCIA > LEITURAS DA ZERO HORA

Falácias pseudocientíficas

Por Paulo Bandarra em 28/12/2004 na edição 309

Quem fuma charutos de cem dólares não tem verminoses. Ao contrário dos que fumam palheiros. Parece que charutos caros protegem das parasitoses intestinais. Apesar da relação existir, ela não é verdadeira. Chama-se este erro de um viés (Bias). As pessoas que fumam charuto de cem dólares não andam de pés descalço, possuem ótimo saneamento e acesso a tratamentos sofisticados, ao contrário dos moradores da periferia.

O diário Zero Hora (sexta-feira, 24/12) publicou no seu caderno Vida uma ampla reportagem apregoando a proteção da fé religiosa nas doenças e mais rapidez de recuperação das mesmas. Mais uma vez jornalistas abandonam o conhecimento científico para apregoar coisas que desejam que seja realidade, mas que não são provadas, além de improvável. Trata-se do recrudescimento da fé e das religiões no fim do século 20 que tem levado pessoas a abandonar o método científico, apesar de apregoar provas científicas do que afirmam.

As estatísticas mostram que os ateus não passam de 4% da população. Então, a não ser que só ateus estejam ocupando os hospitais, quem está doente é crente de alguma religião. A doença é uma coisa natural entre os seres vivos (bactérias tanto atacam bactérias como ratos ou pessoas, independente da fé). Assim como as doenças advêm do envelhecimento e da alimentação viciada.

Claro que um mulçumano na Arábia Saudita que não bebe bebidas destiladas não vai ter cirrose. Não porque seja religioso, mas porque não entra em contato com o tóxico. Cristãos que bebem, além de poder sofrer de alcoolismo (que não é um defeito de falta de vontade) podem desenvolver cirrose, pois estão expostos ao dano.

Adventistas que usam a dieta ovo-lacto-vegetariana não sobrevivem mais (supostamente) porque sua fé faz isto, mas pelo tipo de alimentação que consomem, e que pode ser usada por qualquer um cético para obter o mesmo efeito.

Quem fica em casa à noite e não se expõe a riscos não será atacado, mas isto independe da religião. Quem não fuma, não bebe ou não faz sexo não padecerá das conseqüências deste tipo de vida. Não pela fé, mas pela recusa.

Intolerância extrema

O grave deste tipo de falácia é que leva as pessoas a abandonarem tratamentos crendo que realmente são coisas estabelecidas. Mas uma malária, pneumonia, tuberculose ou sarna duram o mesmo tempo num crente e num não-crente. Não existem evidências epidemiológicas de que exista diferença.

Uma infecção hospitalar não vai acometer mais um ateu, ou qualquer pessoa de algum tipo de credo especial. Isto é pura bobagem. Se as medidas de prevenção científicas não forem tomadas, a chance de adoecer é igual para todos.

As epidemias de dengue, cólera, febre amarela ou sarampo acometem as pessoas independentes da sua fé, de seu estado de graça ou sua descrença no sobrenatural, por mais que as pessoas queiram acreditar nestas coisas. A prevenção pelas vacinas se faz independente de grau de fé – e quem não se protege, como o caso daquelas crenças que abominam tal ato, padecem das doenças previsíveis de igual modo.

O uso de penicilina em uma pneumonia terá o mesmo efeito independente da crença, se usada num ser humano, num cachorro ou num cavalo. As diferenças serão pela espécie ou pela resistência da bactéria, e não pela fé professada.

A afirmação totalmente falsa de que quem possui fé tem uma sobrevida de 50%, como afirmado na matéria da Zero Hora, é uma assertiva que não encontra respaldo na ciência. Ninguém morre por ter pecado (o que é isto, afinal?) ou estado de graça por ter um câncer. Morre pela natureza da patologia, que não será alterada por quem reze ou não.

Usar argumentos semelhantes num jornal de grande circulação é uma irresponsabilidade para com as pessoas que possuem fé e terão a sua evolução não alterada por esta crença, sentindo-se que não merecerem a graça prometida de viver mais do que os outros.

A fé em nada vai mudar a evolução da doença, a não ser a vontade de viver – e, portanto procurar o tratamento, independente da fé que professe ou não. Ninguém adoece por que está em desgraça, apesar de milhões procurarem os pastores para dar o seu dinheiro nesta crença de proteção divina.

A bala que mata um cristão atravessará o judeu ou o mulçumano do mesmo modo. Nada o defenderá disto. E no caso das doenças, que são coisas também naturais, não será diferente. Não se pode deixar de mencionar os abusos sexuais, ponta de um iceberg apenas, de pessoas que foram prejudicadas pela fé por outras que deveriam estar em ‘graça’, mas suas taras não foram afetadas pelo exercício da mesma. Assim como não se pode deixar de considerar que a tragédia vivida pelos cristãos no Sudão e nas Filipinas, atacados pela intolerância religiosa contra as minorias.

A extrema intolerância com que as religiões se tratam hoje em dia se espalha pelo mundo. Onde são maiorias, desde que o mundo é mundo, procuram eliminar os ‘infiéis’. Onde são minorias, pregam a tolerância religiosa. Os cristãos, no Iraque, este ano não comemoraram o Natal por medo dos insurgentes mulçumanos que os vêem como simpáticos aos americanos.

A divulgação da ciência deve se fazer com uma maior proficiência se o objetivo é melhora a qualidade de vida das pessoas.

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Médico

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