Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIêNCIA > JORNALISMO AMBIENTAL

Fórum debate tarefas pendentes

Por Pedro Celso Campos em 21/12/2004 na edição 308

Promovido pelo Núcleo Paulista de Jornalismo Ambiental, foi realizado em 11/12/2004, no Sesc-Itaquera, em São Paulo, o 1º Fórum Paulista de Jornalismo Ambiental, em preparação ao congresso que será promovido em 2005. O evento contou com a presença de professores da USP e de outras universidades, além de especialistas na área ambiental. Os trabalhos foram subdivididos em três mesas temáticas: Formação em Jornalismo Ambiental, Comunicação Ambiental nas Empresas, Mídia e Meio Ambiente.

Os trabalhos foram coordenados pelo professor Wilson da Costa Bueno, da ECA-USP. Primeiro falou a professora Gabriela Pavanato Sardinha Rissoni, coordenadora do Curso de Jornalismo da Uninove. Ela informou que o novo currículo da escola inclui ‘Jornalismo Especializado I e II’, sendo que o II trata de ‘Científico’ e ‘Ambiental’. Na sua opinião, ‘os alunos devem ser despertados para a consciência ambiental a partir das pequenas questões do dia-a-dia, de modo a que não fique apenas no discurso, mas coloque em prática o que prega, sendo participativo nas ações ambientais da cidadania’. Para a professora, o jornalismo ambiental é um importante espaço para a saudável prática do jornalismo investigativo, contextualizado, explicativo. ‘Infelizmente’, ponderou, ‘o jornalismo ambiental ainda é visto como algo secundário, light, desimportante’.

Diante desse desinteresse da mídia convencional, ela entende que os profissionais precisam se mobilizar para atuarem diretamente nas comunidades, organizando ONGs, veículos alternativos, fóruns etc., para debate da questão ambiental diretamente com o povo, tendo em vista a urgência do problema. Isso poderá ‘despertar’ a grande mídia para que tome conhecimento da sua responsabilidade no modo de cobrir a notícia ambiental. A professora defendeu que é preciso formar jornalistas para a vida, e não para o mercado, destacando o projeto de iniciação científica de um grupo de alunos que, ao longo de um ano, fez um levantamento sobre o modo como cinco jornais de bairro cobriram temas relacionados à Agenda 21, chegando à conclusão de que os pequenos jornais se interessam mais pelas questões ambientais do que a grande mídia.

Governo não dá conta

Para o advogado Fernando Tabet, representante brasileiro na Rede Interamericana de Especialistas em Legislação Ambiental (Riela), participante da mesa, o governo sozinho não dá conta de cuidar do meio ambiente. Ele precisa da participação da cidadania, tanto da ação individual quanto da sociedade organizada em ONGs, dos meios de comunicação, da escola, das igrejas etc. Na sua opinião, isso ficou evidente em duas das três grandes conferências da ONU sobre meio ambiente: a de Estocolmo, com ênfase no desenvolvimento humano, em 1972, deu início a numerosas ações de política ambiental nos governos nacionais, em todo o mundo, com base na ‘Declaração de Estocolmo’.

Mas foi na Rio Eco-92 que a sociedade mundial, por intermédio das ONGs, mostrou todo o seu interesse pelo problema da sobrevivência do planeta, passando a realizar intenso trabalho de conscientização destinado não somente a ajudar os governos, mas a criticar ações consideradas incorretas ou pouco adequadas à preservação da vida (como se dá agora na questão dos transgênicos). Tabet destacou os principais documentos emanados da Conferência do Rio, onde se frisou o desenvolvimento sustentável, como a Agenda 21, que envolve a participação comunitária nas questões pertinentes ao meio ambiente; a Convenção do Clima, que prevê a política de seqüestro de carbono da atmosfera, que gera créditos aos países que poluem menos; a Declaração do Rio, que inclui o enunciado dos transgênicos, a Convenção sobre Biodiversidade, a regulação do uso dos recursos naturais; o Tratado sobre Florestas Tropicais etc.

Do mesmo modo que Estocolmo despertou os governos nacionais e o Rio mobilizou a sociedade civil representada nas ONGS, a conferência seguinte, de Joanesburgo, na África do Sul, em 2002, ganhou a adesão do empresariado. O empresário passou a pensar na função social da empresa, indo além da mera geração de empregos e produção de bens vendáveis.

Agora há um conflito a ser resolvido, pois à liberdade de comércio entre os países impõe-se a restrição ao comércio de produtos nocivos ao meio ambiente, como no caso dos pneus recauchutados, do comércio ilegal de espécies em extinção etc. Segundo Fernando Tabet, o jornalista precisa conhecer a questão ambiental para ensinar a sociedade a preservar e a se posicionar frente a tão grave questão. Na sua opinião, o que não falta é pauta sobre o tema, como os recursos naturais compartilhados (o caso da Amazônia, que envolve oito países), o Aqüífero Guarani, a questão nuclear, o lixo espacial, as grandes áreas contaminadas, a política de resíduos sólidos. Tudo que o jornalista precisa é saber acessar as fontes, disse.

Qual currículo?

Em seguida o professor Carlos Celso do Amaral e Silva, da Faculdade de Saúde Pública da USP, indagou qual seria a grade curricular ideal para um curso de Jornalismo Ambiental. Para ele, um curso assim deveria incluir Ciências do Ambiente, Psicologia Aplicada, Psicologia Social, Filosofia Básica. O importante, disse, é que o jornalista pode e deve ser um educador, mas só conseguirá isto se aprender a viver o que faz, para fugir do texto frio, insensível, apressado, mal apurado. Na opinião do professor, o jornalista deve ser um estudioso aplicado dos assuntos contemporâneos – entre eles, a questão ambiental –, pois é um profissional que trata com a atualidade num mundo onde um avião torna-se obsoleto já na prancheta, para dar pálida idéia de como tudo se transforma tão rapidamente. Se não estiver muito bem-informado, o jornalista não educará nem informará, pois o ambientalismo é um fato socioeconômico, e isso nos leva a pensar uma educação ambiental voltada para a cidadania.

O ambientalista Celso Antonio Petrillo, mestrando em Jornalismo da ECA-USP, informou que está se empenhando, nos ministérios do Meio Ambiente e da Educação, para a criação de um curso de especialização em meio ambiente nas universidades públicas voltado para um jornalismo de aprofundamento. Segundo ele, o profissional não pode se limitar ao factual, devendo levantar o debate em torno de questões importantes que interessam a todos. Citou o caso da Amazônia, que, no Brasil, só é discutida localmente, na Região Amazônica, quando sabemos que é um assunto de interesse não só de todo o Brasil, mas de todo o mundo, daí o interesse norte-americano pela área.

Petrillo acha que muitas vezes o jornalista ‘informa’ sobre questões a respeito das quais não está ‘informado’, como no caso de profissionais que acabam defendendo os transgênicos sem saberem exatamente do que se trata, ou quando condenam a criação do Conselho Federal de Jornalismo porque ouviram alguém se posicionar assim. Por isso é necessário pensar o jornalismo ambiental na universidade para que o país conte com profissionais bem-informados e capazes de não apenas editar, mas também de produzir matérias ambientais relevantes e esclarecedoras, dando voz aos anônimos ignorados pela imprensa comercial.

Na plenária final, depois do almoço, o presidente do fórum, jornalista Adalberto Wodianer Marcondes, convidou o coordenador de cada mesa a breves relatos. O editor de ecoturismo das revistas Business Travel e Meio Ambiente Industrial, Rogério Ruschel, relator da mesa sobre ‘Comunicação Ambiental nas Empresas’, disse que, em seu grupo, os participantes concluíram que cumprir a legislação ambiental é obrigação, e não mérito das empresas.

Prêmio Aloysio Biondi

Outros pontos abordados pelos debatedores:

** O jornalista vem perdendo qualidade de vida diante da quantidade de pautas a serem cumpridas e da concorrência com os focas que chegam;

** As empresas estão enxugando suas folhas, por isso o jornalista precisa buscar nichos de trabalho e um deles é o jornalismo ambiental na comunidade;

** A mídia perdeu a capacidade de investigar e de fazer crítica com consistência;

** Antigamente o movimento ambientalista era mais esquerdista, hoje as ONGs encontraram um eixo mais próximo do centro;

** Está em andamento a produção do ISO 14.063, que vai normatizar a comunicação ambiental no país.

O relator da mesa ‘Mídia e Meio Ambiente’ foi o próprio Adalberto W. Marcondes, que apresentou o seguinte resumo:

** Lugar de militante não é na página do jornal, ali é lugar de jornalismo profissional, para que todas as partes sejam ouvidas por igual;

** Meio ambiente é pauta porque é dinheiro;

** No jornalismo ambiental há liberdade para abordagem de temas não ditados pela política editorial de jornais e revistas convencionais, embora influenciados pelo mercado acadêmico;

** O jornalista ambiental deve estar atento ao valor intangível dos bens naturais: quanto vale o ar que respiramos? É preciso aprender a atribuir valores;

** Onde os jornais publicam meio ambiente? Resposta: da manchete à última página, mas não têm consciência disso;

** Por que alguns temas não são pautados, como os relativos aos excluídos em geral? Onde os jornais publicam o noticiário sobre índios: na Geral? Em Cidades? Em Nacional?

Durante o evento no Sesc/Itaquera foi lançado o Prêmio Aloysio Biondi de Jornalismo na categoria ‘Meio Ambiente Urbano’ para jornalistas e na categoria ‘TCC’ para estudantes de Jornalismo. A jornalista Nilda Rodrigues, da ONG Saúde Sem Limites, que atua com populações indígenas, convidou os interessados no debate sobre jornalismo ambiental a ingressarem na lista de discussão criada com esta finalidade (ambientesp@grupos.com.br).

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Professor de Jornalismo da Unesp/Bauru e doutorando em Jornalismo da ECA/USP, onde pesquisa jornalismo ambiental e consumo sustentável, sob orientação do professor-doutor Luiz Barco

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