Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIêNCIA > AQUECIMENTO GLOBAL

Impacto continua ignorado nos EUA

Por Renato Gianuca em 04/10/2005 na edição 349

Stan, Tammy, Vince e Wilma estão sendo aguardados, com medo e ansiedade, nos Estados Unidos, até 30 de novembro. Eles são os últimos nomes de uma lista de furacões e tempestades tropicais, que incluiu Arlene, Dennis, Emily, o devastador Katrina, Ofélia e o mais recente, Rita. Em novembro, deverá terminar a atual temporada de furacões, a mais destruidora do século 21 – até agora. Os climatologistas da NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) e do Centro Nacional de Furacões previam para este ano entre 18 e 21 tempestades tropicais. Dessas, de nove a 11 se transformariam em furacões.

A NOAA acreditava que a temporada 2005 poderia igualar o recorde do ano de 1933, com 21 tempestades tropicais. Os especialistas em clima dos EUA são unânimes: o aumento da temperatura da água no Oceano Atlântico, derivado do fenômeno do aquecimento global, é o responsável pelo aumento da atividade ciclônica.

O presidente da Comissão Real de Poluição Ambiental do Reino Unido, o britânico Sir John Lawton, não tem nenhuma dúvida: fenômenos destruidores como o ‘Katrina’ e o ‘Rita’ são provocados pelo aquecimento global, causado pela ação do homem. Lawton garante que modelos feitos em computador já previam: o aquecimento global provocaria furacões como esses dois mais recentes.

Associação anti-Kyoto

O cientista britânico critica o governo dos Estados Unidos e de outros países que insistem em negar a relação entre essas mudanças climáticas sem precedente e as atividades econômicas do homem. ‘Se esses furacões fizerem certos lunáticos nos Estados Unidos admitir o problema, então algo de bom ainda pode surgir desta situação terrível’, declarou Lawton. Assim como ele, poucos especialistas em meio ambiente duvidam de que o aquecimento global poderá intensificar, no futuro, as mudanças climáticas, tornando-as ainda mais dramáticas, em termos de perdas humanas e econômicas.

Para o cientista José Goldemberg, atual secretário de Meio Ambiente do estado de São Paulo, ‘o único mecanismo internacional existente que lida, efetivamente, com o problema do aquecimento global é o Protocolo de Kyoto’. Em artigo publicado no Jornal da Ciência, da SBPC, em 2 de setembro, Goldemberg alerta para o possível fracasso, já anunciado, da Conferência de Montreal, Canadá. Por quê? A reunião deveria discutir um novo pacto para reduzir as emissões globais dos gases causadores do efeito estufa, expandindo dessa forma os compromissos adotados em Kyoto, no ano de 1997.

Mas Estados Unidos, Austrália e Coréia do Sul, com apoio da República Popular da China e da Índia, já formaram uma ‘associação’, que pretende ignorar os termos do Protocolo de Kyoto. E promoverá o uso de novas tecnologias, com ênfase no chamado ‘carvão branco’. Os principais produtores desse produto são EUA, Austrália, China e Índia. Essa ‘associação’, conta Goldemberg, foi criada para atender às pressões dos lobbies do carvão americano. E, claro, esses lobbies são inimigos mortais do Protocolo de Kyoto.

‘Prejudicial à economia’

De qualquer forma, boicotado ou não, o Protocolo de Kyoto já tem a adesão de 129 países, e entrou oficialmente em vigor no mês de fevereiro de 2005. Conforme seus termos, Kyoto determina que os países industrializados reduzam suas emissões de dióxido de carbono (CO2) e de outros gases responsáveis pelo efeito estufa em 5%, sobre suas emissões em 1990, até o ano de 2012.

Toda essa discussão, aparentemente acadêmica, mas vital para o futuro do Planeta Terra, deriva de um único conceito: o desenvolvimento sustentável. O que significa? Basicamente, é o crescimento econômico que possa garantir – ao mesmo tempo – o acesso ao consumo e a preservação do meio ambiente, bem como as tradições e as culturas dos povos da Terra. Ou seja: o desenvolvimento sustentável busca atender às necessidades do dia-a-dia dos cidadãos, sem esgotar por completo os recursos naturais do Planeta, para que nossos filhos e nossos netos possam utilizá-los para poder enfrentar suas necessidades básicas futuras.

Aí, entra o vínculo entre miséria e pobreza versus a degradação do meio ambiente. O problema econômico da distribuição desigual da renda deverá ser resolvido, em algum momento, para impedir que as necessidades das populações mais pobres comprometam o necessário equilíbrio ecológico. Ao tentar impor limites ao chamado ‘crescimento econômico infinito’, esse conceito de desenvolvimento sustentável não é aceito pelos países ricos, à frente deles os EUA. O atual presidente George W. Bush já foi bem claro: não assinará o Protocolo de Kyoto, por que ele é ‘prejudicial à economia norte-americana’.

Pressão internacional

E a Carta da Terra, firmada na Eco-92, ou Rio-92, a respeito das atuais mudanças climáticas, é bem clara sobre essa questão: ‘Os países ricos têm maior responsabilidade na preservação do Planeta Terra. E, se os avanços da tecnologia não forem suficientes para garantir a integridade da biosfera, será preciso diminuir o padrão de consumo e de produção dos países ricos do Primeiro Mundo’.

As piores previsões vão aos poucos se confirmando: a continuar a elevação constante da temperatura média do Planeta, o aquecimento global e se as emissões dos gases causadores do efeito estufa continuarem aumentando, então, durante este século 21, as temperaturas médias poderão ficar até 5,8°C mais altas do que no ano de 1990. E isso trará as conseqüências trágicas que já estamos vivenciando: o degelo do Pólo Norte (onde 8% da capa de gelo situada sob o Oceano Ártico desapareceu nos últimos 30 anos), o aumento do degelo na Antártida, e o crescimento da desertificação na África, Ásia, e América do Sul, a par de fenômenos de extrema violência, como o ‘Katrina’.

Enquanto isso, relata Stephen Leahy, da agência Inter Press (IPS), em artigo do dia 29 de julho: ‘Os Estados Unidos estão sendo considerados culpados pelo fracasso do G-8 (o grupo dos sete países ricos mais a Rússia) em tomar alguma medida concreta para combater o aquecimento global, procurando estabelecer, pelo menos, algumas metas ou calendários para reduzir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa’. Leahy acrescenta que toda essa pressão internacional sobre o governo de Washington forçou os EUA a agir rapidamente, formando a ‘associação’ citada acima por Goldemberg. E conclui: há poucas novidades nessa ‘associação’, mas o fato é que isso é o ponto mais explícito a que chegou o governo de George W. Bush, até agora, em reconhecer que o aquecimento global, de fato, é um grande problema internacional.

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Jornalista, integrante da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul e associado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência

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