Segunda-feira, 27 de Março de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº938

CIêNCIA > PARANORMALIDADE NA MÍDIA

Jornalistas assombrados por espíritos

Por Paulo Bandarra em 13/03/2007 na edição 424

Quando se critica a mídia, não se pode deixar de incluir o seu material pensante, que são os jornalistas. A maioria, diríamos – se não a totalidade, hoje em dia –, egressos de faculdade para formação profissional desta área. Na edição passada, o jornalista Maurício Tuffani comentava neste Observatório (‘Mídia omite decisões judiciais sobre transgênicos‘) a situação dos leitores frente a questões ambientais, mais especificamente em relação aos organismos geneticamente modificados e à sua biossegurança, dizendo que os leitores ainda não tinham convicção devido aos problemas da informação. Lembro eu que não é apenas nesta área que o jornalista não consegue fazer o leitor progredir.

A edição nº 237 da revista Superinteressante (2/2007), mais uma vez traz suas assombrações jornalísticas. A começar pelo título: ‘Eles vêem espíritos’. Mas a matéria logo esclarece que ‘para a ciência, ver e ouvir fantasmas não tem nada de sobrenatural: tudo é criado pelo cérebro’. Para a ciência, espíritos não existem. Ou seja, os cientistas não podem ver espíritos, mas apenas alegar que os estão vendo. A não ser que existissem provas da existência deles, e que fosse possível visualizá-los, quando estaria correto o título enganador.

Alegações miraculosas

Após uma série de exemplos selecionados da literatura e apresentados por alto, a autora vaticina: ‘Apesar de tantos relatos semelhantes, só nos últimos 20 anos é que o assunto saiu dos filmes de terror e voltou a ocupar as páginas de estudos científicos sérios.’ Uma espécie de argumentum ad populum. Se muitas pessoas alegam uma coisa, é porque de fato têm razão. Mas a autora não esclarece os leitores que as alegações nunca foram iguais. Em cada época, elas foram completamente diferentes. Não só alegavam ver espíritos, mas dragões, demônios, mulas sem-cabeça, gnomos, grifos, homens com cabeça de pássaro ou cavalo, discos voadores, monstros marinhos, seres das florestas, chupa-cabras etc.

Ou seja, a capacidade das pessoas verem coisas em que acreditam, e que sabemos não existirem, não se restringe a uma experiência espiritual apenas, e nem podemos dizer que sejam assemelhadas em culturas diversas. Menos ainda podemos dizer que as pessoas que alegam ver outras coisas miraculosas sejam mais doentes do que as que vêem espíritos. Do ponto de vista dessas narrativas, elas não convencem judeus, nem católicos, nem evangélicos ou muçulmanos.

Religião como prática médica

A jornalista alega que essas pessoas podem prever o futuro. Fora de filmes e novelas de autores sectários, não existem provas disso. Coisa facílima de comprovar, que até um aluno do segundo grau realizaria. É só a pessoa registrar suas previsões, e depois serem reveladas após o acontecido! É o que se faz em ciência: que a água ferverá a 100º, que penicilina inibirá o crescimento bacteriano, que o El Niño ocorrerá este ano, que amanhã deve chover, que fluoxetina faz regredir uma depressão. No entanto, apesar das inúmeras alegações de que são capazes disso, nada conseguiram provar! O mágico James Randi promete um milhão de dólares a quem provar a afirmação de que adivinha a data da morte dos parentes, mas ninguém se propôs demonstrar isso para ele. O que me parece é que essas pessoas não são tão ricas para dispensarem tal quantia, nem que seja para dar à caridade.

A autora relata as conclusões do psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, médico psiquiatra e doutorando em Psiquiatria pelo Departamento de Psiquiatria da FMUSP, Fundador e Coordenador do Neper, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e membro do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper) da USP, sob orientação do professor Francisco Lotufo Neto, que aplicou testes psicológicos em 115 médiuns da capital paulista. O professor orientou também Frederico Camelo Leão – Uso de práticas espirituais em instituição para portadores de deficiência mental. 2004 – Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. O que demonstra que os autores são menos pesquisadores e mais praticantes, como se religião fosse prática médica.

Escolhidos a dedo

A conclusão a que o trabalho chegou foi de que aquelas pessoas são mais do que normais, mais do que a população em geral. Contrariando a literatura, a pesquisa de Almeida constatou que 76,5% dos médiuns eram mulheres, a idade média era de 48 anos, menos de 3% estavam desempregados e 46,5% tinham curso superior e seguiam a doutrina espírita, em média, há 16 anos. A pesquisa mostrou ainda que ‘a maioria dos médiuns estudados teve o início de suas manifestações mediúnicas na infância, e essas, atualmente, se caracterizam por vivências de influência ou alucinatórias, que não necessariamente implicam num diagnóstico de esquizofrenia’. Os médiuns participantes do estudo trabalham em nove centros espíritas kardecistas da Aliança Espírita Evangélica, em São Paulo. Ou seja, foram selecionados a dedo pelos autores.

Apesar de alegarem que estudam as questões religiosas e espirituais segundo o enfoque científico – sem vínculo com qualquer corrente religiosa ou científica –, foram escolhidos os médiuns de uma alegada religião apenas, restritos a apenas uma pequena área. Religião existente praticamente no Brasil, com pequena adesão de pessoas em relação aos outros credos, com menos de 2% de adeptos.

Conflito de interesses

É evidente que para chegar a tais conclusões os autores eliminaram todos os diagnósticos sintomáticos usados normalmente: alucinações auditivas e visuais, sensação de presença, a alegação de conversa corriqueira com seres imaginados, fazerem diagnósticos, profetizarem, sem no entanto analisar essas afirmações em coerência com o que dizem. Assim como são normais (norma, em estatística, é o valor de maior ocorrência) dentro do seu grupo, mas não dentro da população em geral. Não foi pesquisada a credulidade em outras situações imaginárias, como proposto por Wilson, Sheryl C., and Theodore X. Barber, 1983, para determinar a ocorrência de pessoas com fantasy-prone personality (personalidades propensas à fantasia).

Não precisamos ir muito longe para verificarmos que os médiuns praticavam no passado infanticídio, sacrifícios humanos e animais, acreditavam na predição do futuro pelo estrebuchamento dos animais para ler em suas entranhas; além do histórico de feitiçaria, vodu, candomblé, umbanda, quimbanda, xangô, tambor-de-mina, candomblé-de-caboclo, babaçuê, pajelança, catimbó. O que mais uma vez caracteriza uma seleção muito parcial dos autores do alegado trabalho científico. Os mesmos não declararam se possuem conflito de interesse com o assunto, como, por exemplo, vínculos familiares e emocionais com tal crença, ou por que desprezaram a ampla gama de médiuns existentes na sociedade. Encontramos o trabalho dos autores nos sites e revistas espíritas, como a da Associação Médico Espírita do Brasil.

Falsificações e vida em Marte

É por isso que pesquisas científicas utilizam a seleção aleatória da amostra estudada – e não selecionada, como no caso – e um grupo controle para comparar os resultados. Senão, um grupo de drogados parecerá normal entre si, assim como um grupo de alucinação com o diabo. Os torturadores da inquisição eram normais e imbuídos do melhor espírito social para salvar a humanidade das heresias!

Como não fazem uma análise crítica das alegações espíritas destes médiuns do passado, parece que existe ou desconhecimento do assunto, por parte dos autores, ou simpatia dos mesmos, o que não promove uma visão crítica e científica adequada. Nada disto é explorado pela jornalista, deslumbrada pelo assunto, sem a visão crítica de quem tivesse conhecimento do que estava tratando. O conde Maxime Puységur alegava a clarividência (pessoa que prevê os acontecimentos) associada a hipnose; podemos mencionar as falsas alegações já feitas por Alan Kardec na sua Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos; a ampla distribuição de seres humanos vivendo nos diversos planetas do sistema solar; os erros de interpretação dos fenômenos naturais; a crença desmedida em falsificações e fotografias forjadas. Chico Xavier alegava que recebia cartas nas quais o espírito Maria João de Deus, sua querida mãe, entre outros temas, descrevia com riqueza de detalhes a vida marciana (Cartas de uma morta – [Pedro Leopoldo – MG, 25 de junho de 1935]); e Hercílio Maes narrava a vida cotidiana dos marcianos, no livro A Vida no Planeta Marte e os Discos Voadores (Editora do Conhecimento)! Desde que apareceram as máquinas de filmar nos escuro, as miraculosas sessões de materialização desapareceram, embora amiúde presentes nas fotografias falsificadas da passagem do século 19/20. Para pessoas fanatizadas, é de esperar que não façam uma análise crítica destas fraudes, mas para médicos e jornalistas com intenção de fazer ciência e divulgar verdades não cabe omitir estes fatos relevantes.

Só os crentes acreditam

No entanto, essas são pessoas que precisam de formações de grupos especiais para que possam enfrentar suas angústias e esconder dos circunstantes os sintomas de que padecem. Para não se sentirem deslocados. Para poderem falar livremente de suas ‘vivências’ alucinatórias sem vergonha e diminuir o mal-estar de que sofrem devido a elas.

Não são necessários aparelhos de eletroencefalografia ou ressonância magnética para provar a mediunidade alegada. É só demonstrar que as previsões que alegam possuir de forma paranormal são verdadeiras, provando que possuem informações que o médium não possuía antes. Como no caso do vodu, só os crentes acreditam. Mas o que mais chama a atenção é que a jornalista não ouviu o outro lado, o lado dos outros psiquiatras, a enorme maioria, que não concordam com essas práticas e possuem uma visão crítica há mais tempo. O grupo de pesquisa InterPsi, da PUC-SP, usado como contraposição, baseia-se no Institute of Noetic Sciences, do psicólogo Dean Radin, na linha da parapsicologia, e não da medicina!

Alegar não é provar

A autora conclui:

‘Mais longe ainda está a explicação para fenômenos como previsões do futuro, o meio como os médiuns costumam saber da morte de parentes. Como alguém pode ser capaz de atravessar o tempo? Será só uma coincidência? Também há o problema dos relatos de luzes que acendem sozinhas à noite, gavetas, portas que aparecem inexplicavelmente abertas.’

Mas onde estão as provas de que isto ocorre, fora as alegações das próprias pessoas que se dizem capazes disso? O CSICOP, Committee for the Scientific Investigation of Claims of the Paranormal (Comitê para a Investigação Científica de Alegações do Paranormal), de James Randi, ainda espera até hoje que alguma destas pessoas que alegam qualquer poder paranormal, o prove. Alegar não é provar, assim como acreditar não é fato.

Agradar gregos e troianos

As pitonisas, os oráculos, os adivinhos pelas entranhas animais desapareceram porque não previam coisa alguma. Apenas sobrevivem astrólogos e cartomantes por resistência da população para não deixar de se enganar.

Desde antes de Hipócrates que médicos da moda, como Franz Anton Mesmer ou Samuel Hanemann (criador do espiritismo), tentavam usar forças ocultas e alegavam benefícios nunca demonstrados. Em 1835, famosos pesquisadores ligados à Faculdade de Medicina de Paris, como Puységur, d’Eslon, Deleuze, Du Potet e Millet, tentaram percorrer esse caminho da devoção. E existem ainda pessoas crédulas que acreditam que médicos possuem poderes ou contatos fora do conhecimento científico. Temos o dr. Ernesto Bono, de Porto Alegre, introdutor da antipsiquiatria – que atribui esses fenômenos aos extraterrestres entre nós, num lado negro da versão ufológica em que se delineiam planos de dominação mundial, de conspiração mundial e universal com a presença de seres nefastos tanto daqui como de outras latitudes –, e os homeopatas, como o dr. Mauro Kwitko, que faz terapias de vidas passadas pela doutrina kardecista: ‘O Guia Espiritual do paciente é quem faz com que ele acesse um fato ao qual ainda está sintonizado, do seu passado, como se ainda estivesse lá! Ou seja, nós fazemos a 1ª parte, inicial, sem condução; após a pessoa acessar a situação traumática do passado, nós procuramos interferir o mínimo possível, quase nem falamos, para não atrapalhar o processo dirigido pelo seu Guia Espiritual.’

Como era de se esperar, o artigo faz jus ao jornalismo atual, que não consegue chegar a resposta alguma apenas para agradar gregos e troianos. Tal como Maurício Tuffani pensa que se devia fazer com os organismos geneticamente modificados.

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Médico, Porto Alegre, RS

Todos os comentários

  1. Comentou em 20/03/2007 Mariana Rocha

    Caro, Badarra, como disse não discordo do que diz sobre estes absurdos. Sou uma popularizadora da ciência e respeito o rigor científico e seus profissionais. É de indignar um médico ter de engolir tantas baboseiras camufladas em jornalismo científico. Agora, jornalista não pode dar respostas porque não é cientista e isso eu bato o pé! E há sim espaços para os pesquisadores, cientistas trabalharem com divulgação, pois este campo pertence ao meu trabalho e posso dizer de carteirinha. Agora, se é extenso, isso já não posso dizer. Vem aumentando com a participação e interesse dos acadêmicos trabalharem com comunicadores e lutarem por uma divulgação de qualidade. Não quis desrespeitá-lo, entendo sua indignação e compartilho dela, mas jornalista não dá respostas mesmo…
    Abraços

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