Terça-feira, 11 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Má notícia com atenuantes

Por Maisa Guapyassú em 22/02/2005 na edição 317

Boas e más notícias! Interessante ler a matéria publicada na Folha de S.Paulo (‘Governo lança pacote de medidas para conter conflitos no Pará’, 17/2/2005), e interessante sob uma ótica crítica. A gente percebe que são boas e más notícias, e até um certo ponto uma má boa notícia. Fiquei maluca? Não. Vamos analisar…

Boa notícia – e sempre é – é a criação de unidades de conservação de proteção integral. Uma estação ecológica e um parque, no Pará, envolvendo a proteção de 3,8 milhões de hectares, é realmente uma boa notícia. Mas agora a parte ruim dessa boa notícia: criar essas unidades em áreas onde já ocorrem declaradamente problemas de violência, desmatamento e grilagem de terras, sem que essas unidades sejam implementadas realmente, não adianta nada. Aumentam as estatísticas oficiais de áreas protegidas, mas não está se protegendo nada! A estrutura necessária para implementação, principalmente a fiscalização, será imensa, e o Ibama, com certeza não vai conseguir dar conta sozinho, haja vista todo o histórico do órgão.

Outra coisa ruim é criar a unidade rapidamente, embora, segundo a ministra Marina Silva, ‘as medidas já estavam sendo programadas e foram aceleradas diante do aumento da violência’.

Três arrepios

Com relação à criação de reservas extrativistas, a ministra deu entrevista ao Bom Dia Brasil. A repórter perguntou como seria a implementação dessa reserva extrativista, e ela falou em abrir concorrência pública para exploração madeireira. Isso dá três espécies de arrepio: o primeiro porque pela própria lei não se pode fazer exploração madeireira, com fins comerciais, em reservas extrativistas – isso pode ser feito em florestas nacionais; o segundo arrepio é porque pode ser pura ignorância da ministra com relação a isso, o que provoca a reflexão: em que mãos estamos?; e o terceiro, de medo, pois se abrirem ilegalmente exceção nesse caso, cria-se a possibilidade de acontecer isso em outras reservas, e aí que elas não serão mesmo locais de proteção da biodiversidade, mas continuarão tendo aquele ‘espírito 007’, ou seja, de chancela oficial para matar, nesse caso, para des-matar.

Quando a repórter perguntou se o governo permitiria o plantio de grãos nessas unidades, ela enrolou, enrolou e não disse nem que sim nem que não. De novo, não sabemos se por ignorância ou por ensaboamento político.

Mais partes ruins dessa notícia? O Serviço Florestal Brasileiro! Mais uma chancela para se separar, oficialmente, políticas de conservação das de exploração. Mal ou bem, enquanto tudo estava sob jurisdição do Ibama, as possibilidades de conciliação de políticas, ou do afinamento delas, era um pouco maior. Separando as atribuições, vai rolar briga por verbas, por poder, e deixo à imaginação do leitor descobrir qual dos órgãos – o que deveria conservar ou o que viabilizaria a exploração madeireira – vai ganhar a briga ou vai ter lobistas fortes apoiando. Acabei de reler o comentário, e vi que seria melhor chamar essa notícia de uma má notícia com atenuantes.

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Engenheira florestal, Curitiba

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