Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIêNCIA > JORNALISMO CIENTÍFICO

Marte, ficção e realidade

Por Ulisses Capozzoli em 10/02/2004 na edição 263

A ficção científica como rota mais curta e econômica para viabilizar a conquista de outros mundos não é um recurso novo. Luciano de Samosata, autor sírio, escreveu no século 2 seu História Verdadeira contando a conquista da Lua por uma embarcação transportada da Terra por uma providencial tromba d`água.

O título da obra não é casual. Para escapar da censura, Luciano escreveu no prefácio:

‘Se digo que estou mentindo terei dito pelo menos uma verdade e espero escapar à censura geral lembrando que minha intenção não é dizer uma única verdade, do início ao fim desta história’.

O acontecimento que marca a entrada na imprensa na cobertura de acontecimentos fora da Terra, no entanto, certamente é a descoberta dos ‘canais’na superfície de Marte pelo astrônomo italiano Giovanni Virginius Schiaparelli (1835-1910), numa das oposições desse planeta, em 1877.

Foi também na oposição de 1877 que o astrônomo americano Asaph Hall (1829-1907) descobriu as duas pequenas luas marcianas, Fobos e Deimos. Essa é a base para todo o noticiário das últimas semanas, com a chegada de duas missões americanas e uma européia entre a noite de Natal e o 25 de janeiro último, em Marte.

Muitos astrônomos contribuíram para uma visão que hoje se reconhece errônea de Marte. Mas foram os jornalistas e escritores como Voltaire e Swift quem se encarregaram de popularizar a imagem desse planeta e, por extensão, estimular a imaginação sobre os cenários de outros mundos do Sistema Solar.

Schiaparelli deu sua contribuição de forma involuntária. Ele havia observado canali na superfície marciana e, quando seu trabalho foi vertido para o inglês, um acidente envolvendo o que os lingüistas chamam de ‘falso cognato’ fez com que sua interpretação acabasse alterada. A palavra, em inglês, soou inequivocamente como canais de origem artificial.

Interação gravitacional

Percival Lowell (1855-1916), astrônomo também americano que trocou a carreira diplomática pela investigação do céu, acreditou piamente na idéia de Marte ocupado por uma raça inteligente, construtora de canais com finalidades agrícolas. Lowell, é preciso esclarecer, não era nenhum estúpido. Analisando matematicamente as perturbações de Urano e Netuno, propôs a existência de um nono planeta, Plutão, localizado por outro americano, Clyde Tombaugh, em 1930.

Tombaugh, que costumava responder sua correspondência escrevendo a mão, morreu no final dos anos 1990, em meio a uma discussão se Plutão é um planeta de verdade ou apenas um objeto do chamado Cinturão Kuiper – um anel de entulho nos subúrbios do Sol, restos do material que construiu o Sistema Solar.

Um pouco antes da descoberta de Schiaparelli, Voltaire (1694-1778) publicou Micromégas, história onde criaturas gigantes vindas de Sirius e Saturno para observar as excentricidades dos terrestres descobriram um par de luas ao passar pelas proximidades de Marte.

Mas foi Jonathan Swift (1667-1745), num dos clássicos da literatura inglesa, o Viagens de Guliver, publicado em 1726, quem incendiou a imaginação popular e alimentou desde então a pauta dos jornais no noticiário de Marte.

Swift falou de Laputa, um mundo onde astrônomos bem equipados haviam detectado as luas gêmeas de Marte.

A questão que intrigou gerações de repórteres foi como Swift e Voltaire puderam localizar duas luas em Marte se a existência delas só foi possível com o paciente trabalho de Asaph Hall, estimulado por sua esposa, Angelina, em 1877. Muitas laudas foram escritas em torno de um provável conhecimento oculto, especialmente por parte de Swift, que deu o tamanho e as distâncias das luas marcianas.

Os historiadores da ciência atribuem a Johannes Kepler (572-1630) – o atormentado astrônomo alemão que propôs uma órbita elíptica para os planetas, em vez da forma perfeita do círculo aristotélico – a previsão das luas gêmeas.

Kepler começou tudo com um ‘chute’. Considerou que a Terra tem uma lua e Júpiter quatro (na verdade, atualmente, Júpiter tem oficialmente 58 luas, sendo quatro delas, as luas de Galileu, referidas por Kepler).

Se a Terra tem uma e Júpiter quatro, Marte, entre a Terra e Júpiter, deveria ter duas luas, teria considerado Kepler. E se elas não eram visíveis ao telescópio, como acontece com as luas de Júpiter, é porque seriam muito pequenas. E se fossem, de fato, pequenas, deveriam estar bem próximas de Marte por uma questão de interação gravitacional.

Mas essa explicação não convence muita gente ainda hoje.

Segunda Terra

A crença em Marte ocupado por uma civilização mais avançada que a da Terra esteve por trás da dramatização por rádio da Guerra dos Mundos, clássico de H. G. Wells, por Orson Welles, em 1938. Em New Jersey, caixas d’água e outras estruturas de pernas alongadas foram alvo de disparos de arma de fogo por ouvintes convencidos de que a Terra, finalmente, estava sendo invadida.

Para se ter uma idéia do imaginário em torno de Marte na passagem para o século 20, um prêmio, estabelecido na França, para contato com outras inteligências, valendo 100 mil francos, excluía Marte. A tarefa, neste caso, era considerada não merecedora dessa pequena fortuna.

Foi em meados dos anos 1970, com a descida das naves gêmeas Viking 1 e 2 em Marte, que a cobertura da mídia, especialmente dos jornais, tomou a forma atual.

Com as Viking havia uma enorme expectativa de que fosse esclarecida de vez a dúvida em torno de Marte abrigar formas simples de vida ou ser um mundo estéril, varrido pela radiação ultravioleta letal emitida pelo Sol e outras estrelas vizinhas.

James Lovelock, criador da teoria Gaia – concepção da Terra como um enorme organismo vivo capaz de fazer sua própria homeostase, algo parecido à capacidade do corpo humano em controlar sua temperatura à custa da transpiração e o tiritar de frio –, já havia previsto um fracasso. Mas mesmo assim a missão foi em frente com resultados ainda hoje controvertidos.

Marte abriga alguma forma de vida?

A resposta está para ser dada pelos jipes que neste momento deslocam-se pelas areias vermelhas desse mundo, examinando o solo especialmente sob rochas ou a pequenas profundidades.

A pesquisa de solo é complementada por instrumentos em órbita. E foi um deles, a Mars Express, enviada pela Agência Espacial Européia (Esa), que confirmou, definitivamente, a presença de água, especialmente nos pólos do planeta.

Se ainda não abriga vida inteligente, como acreditaram outras gerações, Marte não ficará vazio por muito tempo. Suas condições – proximidade com a Terra, oferta de água, existência de atmosfera, ainda que rarefeita em comparação à da Terra, e até estações anuais, como as que temos na Terra – farão dele, no futuro próximo, uma segunda Terra em torno do Sol.

A sempiterna pressa

O astrônomo americano Carl Sagan, também morto no final dos anos 1990, chamou de ‘terraformação’ a engenharia planetária que moldará mundos para a ocupação humana num futuro que, tudo indica, começará a materializar-se ainda neste século, com uma primeira viagem tripulada ao planeta vermelho.

Opiniões respeitáveis em muitas áreas do conhecimento questionam a validade de explorações espaciais, especialmente de missões planetárias. Se tivessem uma boa cultura nessa área, no entanto, esses críticos mudariam de opinião por muitas e diferentes razões.

Uma delas é de natureza profundamente humana. Se o homem surgiu mesmo na África, como defendeu Charles Darwin, ao final de alguns milhares de anos havia se espalhado pelas mais remotas terras do planeta. Pode-se pensar que inicialmente essa migração não foi mais que o acompanhamento de rebanhos que mudavam de pastagens ao longo das estações do ano.

Mas cruzar oceanos e atingir pontos ainda hoje relativamente isolados, como a Austrália, obedeceu a desejos que transcendem a simples busca de alimentos. O homem, por sua natureza complexa, sempre procurou saber o que existe além do horizonte, no sentido literal e figurado desta expressão.

As navegações européias, do século 16, materializaram o que historiadores portugueses, antes da consolidação do termo ‘globalização’, chamaram de ‘planetarização’.

A conquista de Marte e outros mundos, neste sentido, pode ser pensada como resultado da complexidade da natureza humana. Da necessidade em desdobrar horizontes, ainda que para retomar ao ponto de partida, levando em conta a esfericidade da Terra. Mas essa é uma volta profundamente transformada, como descreve, na mitologia e na filosofia, o mito do eterno retorno.

Mesmo previsões que já foram exóticas em algum momento da história poderão adquirir um sentido novo até o final deste século de valores, até agora, bem pouco consistentes. O caso, aqui, envolve as previsões feitas nos anos 1960 pelo astrônomo russo Iosif Samuilovich Shklovskii sobre Fobos ser, na verdade, uma lua oca, suspeita de materializar uma grande estação espacial.

Como Lowell ou Schiaparelli, Shklovskii não é nenhum inconseqüente. Entre seus trabalhos de divulgação está um dos melhores livros, escrito em parceria com Carl Sagan, envolvendo investigações teóricas da vida em todo o Universo.

Shklovskii suspeitou de Fobos devido à lenta queda dessa lua em direção a Marte. Mas verificações posteriores, mesmo confirmando o movimento de queda, corrigiram a versão de uma lua oca.

Com a ocupação de Marte, precedida de batedores automáticos, com imagens que nos chegam diariamente pelos telejornais no horário nobre, tanto Fobos como Deimos podem, de fato, ser utilizados como bases de observação ou, em outras palavras, estações espaciais, ainda neste século.

Com a ocupação dessas luas, Shklovskii de alguma maneira terá acertado em suas previsões. Também Schiaparelli e especialmente Percival Lowell.

Marte, de fato, terá um dia vida inteligente. Não só a vida individual de cada um dos habitantes da Terra, mas o caminho da ciência, de muitas maneiras, é percorrido por linhas tortas.

Quando Marte for ocupado, jornalistas, com a pressa e a sumariedade de sempre, certamente não irão se lembrar de que muitas gerações de repórteres também contribuíram para que sonhos se transformassem em realidade.

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