Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIêNCIA > NATUREZA vs. HUMANIDADE

Na contramão da corrida dos insensatos

Por Renato Gianuca em 11/10/2005 na edição 350

As imagens das TVs de todo o mundo mostraram, no último fim de semana, com toda clareza, a imensa força da Mãe Natureza ao lado da dor, impotência e desastre humano diante do mais devastador terremoto na região da Índia-Cachemira-Paquistão-Afeganistão nos últimos cem anos.

Neste começo do século 21, o embate milenar entre a Natureza e a Humanidade já alcança níveis assustadores. O pior exemplo ocorreu nos últimos dias de 2004, com o terremoto e o conseqüente tsunami que atingiram o Sudeste Asiático e até alguns países da África Oriental. Desastres naturais, apenas? Ou a ação da Humanidade tem sua parte de responsabilidade?

Neste ano, lá por julho-agosto, foi a vez dos furacões e tempestades tropicais no Caribe, América Central e América do Norte, ao lado dos tufões na China e no Japão. A fúria dos ventos atingiu as populações mais pobres e desamparadas. Foi o caso, no final de agosto, da cidade de Nova Orleans (EUA), com o furacão Katrina. E agora, na sexta-feira (7/10), nas vilas indígenas maias de Panabaj e Samac, na Guatemala, onde 1.400 pessoas morreram, soterradas por toneladas de lama e pedras, após a passagem do furacão Stan pelos países pobres da América Central, além do México.

O Stan não atingiu os Estados Unidos, conforme previsão dos climatologistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA – NOAA, na sigla em inglês. O furacão desviou-se, perdeu força, deu uma volta e terminou por desabar sobre El Salvador (67 mortos), Nicarágua (10), Honduras (4) e México (15), além da tragédia humanitária das aldeias dos índios maia na Guatemala.

As fortes chuvas causadas por Stan deixaram, no México, além dos mortos, quase 2 milhões de pessoas desabrigadas e mais de 170 mil casas destruídas; e a decretação do estado de emergência em 140 municípios dos estados de Chiapas, Veracruz, Oaxaca, Puebla e Hidalgo, para permitir a liberação imediata de recursos para atender milhares de desabrigados, a cargo do Fundo Nacional de Desastres Naturais.

‘Debilidade fundamental’

Aqui retomamos a pergunta: são simples desastres naturais esses furacões, tufões e tempestades tropicais? Ou a mão do homem contribui para essa mudança climática?

Para o norte-americano Jeremy Rifkin, em artigo no jornal El País (15/9/2005), o segredo vergonhoso que se esconde atrás do Katrina foi agora revelado: aquele furacão foi apenas uma fatura da Natureza apresentada aos humanos pelo aquecimento global provocado pelas emissões dos gases, como o CO2.

E diz Rifkin:

‘Há anos, os cientistas vêm nos alertando. Disseram que deveríamos vigiar o Caribe, onde é provável que apareçam os primeiros efeitos dramáticos da mudança climática, na forma de furacões mais violentos e inclusive catastróficos. Agora, a tormenta assassina do Katrina cobrou sua vingança, semeando uma destruição sem precedentes em uma vasta área da região Sudeste dos EUA’.

Rifkin, autor de obras polêmicas sobre economia e meio ambiente, é favorável a barrar, de todas as formas, o fantasma do aquecimento global. Ele culpa o desperdício e o consumo desmesurado oriundos da utilização insensata de combustíveis fósseis dos países ricos, à frente deles os EUA. E dá exemplos: um quarto, 25%, dos veículos estadunidenses são os chamados ‘utilitários esportivos’, todos com motores potentíssimos que lançam toneladas recordes de CO2 (dióxido de carbono) na já poluída atmosfera da Terra. E conclui seu artigo:

‘Senhor presidente Bush, se o senhor tivesse tido a oportunidade de olhar as profundezas do olho do furacão, teria então visto o futuro desaparecimento do planeta em que vivemos’.

Outra autoridade a apontar para o dedo da Humanidade nestas catástrofes ‘naturais’ é o catedrático emérito de Sociologia da Universidade de Berkeley (EUA), o espanhol Manuel Castells. Em artigo publicado no diário El Periódico (4/9/2005), Castells aponta, passo a passo, as decisões de vários governos dos EUA a respeito da cidade de Nova Orleans, o histórico berço do jazz e do blues. Os diques que romperam estavam localizados nos bairros populares, os mais afetados pelo Katrina. A cidade é uma das mais pobres dos EUA e 67% de sua população são afro-americanos. Poucos dias antes da chegada do furacão, um jornal local calculou que mais de 100 mil pessoas não tinham carro, nem dinheiro em cadernetas de poupança e tampouco algum local para onde ir, caso saíssem de Nova Orleans.

Após descrever a marca de raça e de classe social na tragédia, Castells relata que, em muitos bairros pobres dos EUA, a situação social é explosiva e apenas se mantém com a repressão policial. Se os jovens vêem a possibilidade de uma revanche, eles a tomam nas suas mãos. Mesmo que por apenas algumas horas, como nos saques de Nova Orleans.

E conclui o catedrático espanhol:

‘O desastre de Nova Orleans, com toda sua tragédia humana, demonstra a debilidade fundamental do colosso estadunidense, tão desenvolvido militar e tecnologicamente, assim como socialmente subdesenvolvido e politicamente sem controle. A crise dos EUA afetará a todos nós’.

Palavra estranha

Visões pessimistas ou catastróficas? Tudo indica que não. De fato, há muitos anos, os cientistas alertam para o perigo do aquecimento global. Este é tema delicado, por estar diretamente conectado com questões econômicas. Como diminuir, voluntariamente, o padrão de consumo dos países ricos, os EUA à frente? Quem será capaz de colocar o freio neste mundo insensato de desperdício e queima de produtos não-renováveis, como carvão e petróleo?

Carl Sagan (1935-1996), considerado um dos maiores divulgadores de temas científicos, muitas vezes premiado, é lembrado pelo livro e série de TV Cosmos. Astrônomo e cientista multidisciplinar, ele deixou, entre muitas outras obras, o livro Pálido ponto azul (edição brasileira da Companhia das Letras, de 1996). Em vida, é o último livro de Sagan, e um dos mais belos e importantes.

Profético, ele escrevia, àquele ano:

‘Quando o clima da Terra mudar, nas próximas décadas, provavelmente aumentará o número de refugiados ambientais. Lugares melhores sempre vão nos atrair. As marés de povos vão continuar o seu fluxo e refluxo por todo o Planeta’.

Ao descrever o aquecimento global, gerado pela queima de combustíveis fósseis, Sagan dizia que a origem das altas temperaturas deriva, sempre, de algum tipo de efeito estufa. E adiante, o seu alerta:

‘Esta é a primeira vez, na história do nosso Planeta, em que uma espécie, por suas próprias ações, tornou-se um perigo para si mesma. Os perigos do aquecimento global começam lentamente a se introduzir na consciência pública. Através da alta tecnologia, pela primeira vez, uma espécie se tornou capaz de exterminar a si mesma’.

Essa consciência pública de que fala Carl Sagan, de fato, está espalhada pelo planeta. Um exemplo, entre muitos: no Brasil, em abril de 1971, em Porto Alegre, era fundada a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), tendo à frente um dos ecologistas mais importantes do mundo, José Lutzenberger, desaparecido em maio de 2002.

A Agapan, considerada a primeira ONG ambientalista brasileira, deixou, em seus mais de 30 anos de atividades, uma marca ecológica na consciência dos gaúchos, com campanhas, debates e cursos de educação ambiental, que calaram fundo.

No finalzinho dos anos 1960 e começo dos anos 70, este repórter começava sua carreira descobrindo, entre outros temas, a importância do meio ambiente. À época, procurei contribuir com diversos artigos avulsos, além de uma longa série sobre os problemas ambientais, publicada semanalmente nas edições dominicais do vetusto Correio do Povo.

Anos depois, em dezembro de 1992, fui surpreendido com artigo de um ex-colega do velho Correio, José H. Dacanal, então diretor do alternativo Jornal do Sul. Em sua nota, Dacanal recordava o ambiente da redação e as matérias das edições do Correio e afirmava que ‘o primeiro a escrever sobre problemas ecológicos no Rio Grande do Sul’ teria sido este repórter.

‘Creio mesmo que ele foi dos primeiros em todo o Brasil’, escreveu Dacanal, encerrando com uma historinha verídica, que percorria a velha redação: ‘Por incrível que possa parecer, naquela época, ‘ecologia’ era uma palavra estranha e desconhecida. Gianuca, a partir de determinado momento, teve seus textos vetados. ‘Ecologia deve ser coisa de comunista’, teria sido o comentário do dono do jornal à época, Breno Caldas’.

Filhos e netos

Na verdade, como depois falei àquele colega, não fui o primeiro, muito menos o pioneiro a escrever sobre temas ambientais. O fato é que o pioneiro da ecologia no Rio Grande do Sul foi Henrique Luís Roessler (1896-1963). Ele, sim, escreveu centenas de artigos com temas ambientais, no mesmo Correio do Povo, entre os anos de 1957 a 1963. Hoje ele é o patrono da Fundação Estadual de Proteção Ambiental, órgão estadual criado em 1990, mas que tem origem no antigo Departamento de Meio Ambiente, fundado poucos meses depois do nascimento da Agapan.

É da consciência ambiental de todos os cidadãos do globo que vamos procurar evitar a confirmação de tragédias anunciadas na visão apocalíptica de alguns cientistas e climatologistas. 1) Reduzir o consumismo; 2) poupar energia; 3) preferir o transporte coletivo; e, 4)economizar e lutar pela água como direito humano.

Essas são algumas das simples batalhas do dia-a-dia, disponíveis na agenda de todos os que se preocupam com seus filhos e netos, bem mais além da visão descompromissada dos que vivem, insensatamente, o aqui e agora, esgotando recursos finitos tão necessários às futuras gerações.

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Jornalista, filiado à Sociedade Brasileira para o Progresso da ciência (SBPC)

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