Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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CIêNCIA > Transdisciplinaridade

Neurônios espelho e a empatia com a tragédia de moçambique

Por Juliana Junqueira em 02/04/2019 na edição 1031

Monkey see, monkey do’’, ou seja, macaco vê, macaco faz. Esse divertido trecho que inclusive inspirou diversas canções pop das últimas décadas resume o experimento realizado pelos neurocientistas italianos Giacomo Rizzolatti, Leonardo Fogassi e Vittorio Gallese em 1994 na Universidade de Parma.

Quase que ocasionalmente, os pesquisadores descobriram que a ativação de neurônios localizados na áreas corticais frontoparietais do cérebro são ativados simplesmente pela observação de algo. A simples visualização de um objeto ou de uma situação fará com que as supramencionadas áreas cerebrais sejam acionadas e influenciem as demais partes do corpo humano. Assim, é a contemplação de algo que promoverá o agir.

Esta descoberta ocorreu quando Fogassi, um dos pesquisadores, estava no laboratório da universidade e apanhou uma uva passa. Nesse momento, ele percebeu que os neurônios pré-motores do macaco foram estimulados. A equipe de cientistas concluiu, então, que o simples ato de visualizar já era capaz de ativar as áreas motoras cerebrais.

Os neurônios das áreas corticais frontoparientais foram batizados de neurônios espelho, sendo que a explicação para este nome se torna redundante. O que não é redundante é trazer a informação de que estes neurônios se tornaram conhecidos também como neurônios de empatia. Após a descoberta da equipe italiana, pesquisas sobre os neurônios espelho cresceram na comunidade científica. Descobriu-se também que eles são os responsáveis pelo nosso sentimento de afetação positiva em relação a algo ou alguém. Ao assistirmos um filme, uma novela, uma peça de teatro ou mesmo uma reportagem em um telejornal nos sensibilizamos com as personagens, sejam elas fictícios ou não.

Quantas vezes já fomos flagrados torcendo pela mocinha de um filme ou nos emocionando pelo drama alheio? Diversas lágrimas já foram derramadas nas salas de cinema ou no sofá de casa por causa da dor de indivíduos que estão distantes da nossa realidade.

Como exemplo recente, podemos citar a empatia que nós, brasileiros, demonstramos diante da tragédia que atingiu Moçambique, na África no dia 14 de março. A passagem do ciclone Idai pelo país afetou cerca de 1,85 milhão de pessoas e deixou mais de 460 mortos.

Cenas de um país enlamaçado, cercado por terra, com pessoas desabrigadas, famintas, ilhadas em um cenário de terror entraram em nossas vidas por meio dos meios de comunicação de massa: televisão, jornais, nas páginas das mais variadas redes sociais.

Nós, felizmente, não presenciamos a tragédia, mas as imagens que chegaram até as nossas vidas, de um jeito ou de outro, ativaram nossos neurônios espelho e a nossa empatia. As imagens, as cruéis imagens, fizeram com que nós nos sensibilizássemos pela dor dos irmãos africanos. Campanhas de doação financeira e de arrecadação de alimentos estão sendo realizadas em todo o Brasil.

Ao longo das últimas décadas, muito tem se discutido sobre a influência dos meios de comunicação de massa na vida do ser humano. É claro que este é um assunto para uma pesquisa aprofundada, mas é preciso destacar que precisamos considerar a existência dos neurônios espelho na análise desta relação. A mídia, por si só, não consegue influenciar uma sociedade ou um indivíduo, mas ela nos dá o gatilho para que ocorra sensibilização e afetação: os meios de comunicação nos fornecem o visual. O visual atinge nosso cérebro.

É preciso propor uma relação de transdisciplinaridade entre as diversas áreas da ciência. Jornalistas, Psicólogos, Neurocientistas, Antropólogos e outros trabalhando em conjunto para que surjam novas descobertas. Nada mais performático do que isso.

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Juliana Junqueira é doutoranda em Performances Culturais pela Universidade Federal de Goiás

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Referência

Teruya, Alexandre Key; Neri, José Eudes; Marinho, Kim Soares; Farias, Thaís Gregol de. Neurônios-espelho. Disponível em http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=1590. Acesso em 27.02.2019

 

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