Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIêNCIA > ERRO MÉDICO NO JN

Novos ardis no trato da notícia

Por Robledo Fonseca Rocha em 11/10/2005 na edição 350

Há mais de um ano recorri a este Observatório para demonstrar o método ardiloso com que o Jornal Nacional tratou uma notícia [ver remissão abaixo]. Retorno para tornar evidente que o telejornal da Rede Globo repetiu o mesmo método para abordar novamente um assunto da área da saúde, em relação ao qual mais uma vez não há consenso.

Em sua edição do dia 7/10/2005, o noticiário exibiu reportagem acerca de um erro médico. Uma dona-de-casa, dias após ter sido submetida a uma cirurgia abdominal de emergência no Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, passou a sentir muitas dores na região operada. Um ano e meio depois, exames de imagem revelaram que o motivo das dores era a presença de um objeto metálico com 30 cm de comprimento em sua cavidade abdominal.

Nova intervenção operatória foi necessária para retirar o objeto, um afastador cirúrgico esquecido pela equipe do procedimento anterior. Logo em seguida, o telejornal veiculou matéria a respeito de um exame facultado aos formandos em Medicina do estado de São Paulo. A intenção atual do Conselho de Medicina paulista, o Cremesp, é que a avaliação forneça dados fidedignos sobre a qualificação dos futuros médicos de sua jurisdição.

Contudo, preocupado com o crescimento em progressão geométrica da quantidade de processos por erro médico, a instituição almeja tornar o exame obrigatório e usá-lo para punir os ‘bacharéis em Medicina’ não-aprovados com o impedimento do exercício profissional. Idêntico ao que já ocorre com os bacharéis em Direito e a prova da Ordem dos Advogados do Brasil. Preocupa sobremaneira o Cremesp a multiplicação de cursos médicos, a maioria sem condições de funcionamento, que colhem lucros estratosféricos com o jorro de diplomados inaptos à prática médica em locais sem necessidade social. No fim da matéria foi mostrado que a iniciativa do Cremesp esbarra na oposição de várias entidades da classe médica, entre elas a instituição federal a que ele é subjugado.

Conduta empedernida

Já que as duas notícias foram expostas sem intervalo, criou-se um nexo entre elas, método ardiloso que induz à aceitação passiva de uma opinião tendenciosa, difundida sob camuflagem por quem quer, mas não pode ou não deve, assumir uma posição clara em público. Assim, o telespectador que se furta à obrigação crítica foi fatalmente conduzido a concluir que se a dona-de-casa tivesse sido operada por médicos aprovados em exame de ordem o esquecimento do instrumento cirúrgico em sua cavidade abdominal teria sido evitado. Além disso, permaneceu a sugestão de que a equipe cirúrgica que cometeu a falha está ligada a uma dessas faculdades de desempenho pífio na avaliação do ensino superior organizada pelo Ministério da Educação, quando, na verdade, a junta integra o corpo clínico do hospital-escola pertencente à bem conceituada Universidade Federal de Minas Gerais.

Ao apelar a esse recurso simplista, o Jornal Nacional escolheu ainda trazer à tona apenas a discussão resumida do porquê a prova de ordem para ‘bacharéis em Medicina’ é tema tão controverso. Informações relevantes que trouxessem ao conhecimento geral as ações que causam e as que tentam tolher erros médicos foram sonegadas, de novo.

Tal conduta empedernida não só alija a população dos debates maduros, como também a priva de refletir sobre as políticas de saúde e educação em curso. Desse modo, não faltarão casos escandalosos de erro médico no noticiário do horário nobre global.

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Médico, Boa Vista, RR

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