Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CIêNCIA > PROGRAMA ESPACIAL

O astronauta e a frustração

Por Ulisses Capozzoli em 30/05/2006 na edição 383

O pedido de passagem para a reserva feito na semana passada pelo astronauta brasileiro, o tenente-coronel Marcos Pontes – menos de um mês de seu retorno da Estação Espacial Internacional (ISS) – ao que tudo indica desconcertou até mesmo os críticos de seu vôo.

O Estado de S. Paulo, que publicou a matéria de pedido de afastamento de Pontes na edição de quarta-feira (24/5), deu seqüência ao assunto nos dias seguintes, registrando, entre outros pontos de vista, o do presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Enio Candotti, de políticos no Congresso Nacional e do presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB) Sérgio Gaudenzi. A sensação que se tem, pela leitura do material publicado pelo Estadão, é a do mais puro oportunismo da parte de Pontes, que se aposentou aos 43 anos, corroborando, de certa forma, a falta de princípios que parece ser mais a regra que a exceção na vida nacional.

A questão, no entanto, merece algumas considerações que, se não justificarem a atitude de Pontes – que agora pode cobrar pelas palestras que fizer, entre outras iniciativas como a de eventualmente ser contratado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) – ao menos pode ajudar a compreender como tudo isso aconteceu. O fato concreto, desde o início da decisão de ter Pontes como candidato a astronauta, é que o Brasil não necessitava e nem necessita de um astronauta. Se esta premissa for aceita, toda a seqüência de eventos é de compreensão mais fácil. A idéia de que o Brasil deveria ter um astronauta foi tomada no governo de Fernando Henrique Cardoso, partindo do ardiloso princípio, de que um astronauta contribuiria para dar ao Brasil a imagem de país moderno no contexto externo e interno. Puro artificialismo.

O programa espacial brasileiro – criado por Jânio Quadros em 1961, como impacto do vôo do cosmonauta russo Iuri Gagárin, em 12 de abril de 1961 – até hoje não dispõe de um foguete lançador capaz de colocar, por exemplo, um satélite de comunicação em órbita. Se não dispomos sequer de um foguete lançador de satélites (um pequeno e simplório satélite brasileiro de coleta de dados foi lançado, na década passada, por um foguete norte-americano a partir de um bombardeiro B-52), por que precisaríamos de um astronauta, a não ser como estratégia ardilosa de venda do que não existe, num verdadeiro estelionato político?

Esta questão certamente abriga pelo menos duas outras considerações. A primeira delas está intimamente relacionada ao despudor de dirigentes políticos no Brasil, cujo cinismo parece não ter limites. Nossa falta de tradição democrática, em termos práticos e não de oratória, seguramente responde por esses abusos, sem desconsiderar nossa mentalidade senhorial longe de estar extirpada, como previu com impressionante clareza o abolicionista Joaquim Nabuco.

Tradição napoleônica

A segunda é nossa tradição ainda recente de produção científica. É preciso não se esquecer de que a pesquisa científica no Brasil resultou, literalmente, um acidente napoleônico. Com as tropas de Napoleão Bonaparte nos calcanhares a corte portuguesa fugiu para o Brasil em 1808 e esta presença permitiu tanto a pesquisa científica quanto a publicação de livros e jornais, antes proibidos. Esta tradição não suficientemente consolidada – apesar de relativamente significativa – nos coloca problemas de natureza epistemológica, ou seja, de teoria do conhecimento, incapazes de serem enfrentados de um ponto de vista institucional. E não é a primeira vez que isso ocorre, com conseqüências dramáticas.

A história da radioastronomia no Brasil é um outro exemplo mais que evidente disso. Por ausência institucional – por razões de natureza epistemológica, enquanto compreensão das carências nacionais/potencialidades sociais de determinado campo científico –, a radioastronomia dependeu de iniciativas pessoais incapazes de disciplinar as atividades de pesquisa, entre elas a divisão de tempo nos instrumentos.

Daí – no caso da radioastronomia – as disputas, enfrentamentos e divisões de grupos que se seguiram até bem recentemente, apesar de resultados promissores e de ponta que foram alcançados em determinados momentos. No caso do programa espacial, se estivéssemos no estágio que requeresse de fato um astronauta, não apenas Pontes, mas vários outros candidatos estariam sendo treinados. Haveria programação mais clara disso tudo, substituição de um pelo outro em caso de qualquer dificuldade (como acontece em todos os outros programas espaciais internacionais) e, evidentemente, apoio e amparo mútuo entre os próprios astronautas.

Postura pouco ética

A postura de Pontes, ao menos num primeiro momento, certamente pode ser legal, mas não é muito, digamos, ética. Ao menos enquanto propulsão desejável para jovens gerações que olham para as estrelas com o sonho de um dia navegarem entre elas, com formação científica e desejo de contribuir para a expansão das fronteiras da humanidade.

Mas o próprio Pontes esteve próximo do abandono oficial enquanto o poder político era transferido de mãos pelas urnas e ele permanecia treinando em instalações da Nasa. O presidente da AEB finalmente deu números mais próximos da realidade na edição de quinta-feira do Estadão. Entre o treinamento na Nasa e a passagem para o vôo paga aos russos o astronauta consumiu de R$ 25 milhões a RS 30 milhões. E o programa espacial brasileiro, quanto consumiu até agora? Este é um dado que ninguém tem, mas é próximo de uma cifra astronômica.

Por que, em 40 anos, o programa espacial brasileiro não decolou? A lista de explicações é relativamente extensa, mas novamente esbarra na estrutura política e na falta de seqüência de procedimentos. Sem falar na pressão militar. Até a AEB ser criada, na década passada, o controle do programa espacial esteve sempre nas mãos de militares, especialmente da Aeronáutica. E o interesse que se alimentou, durante o governo militar, sempre foi o de fazer do foguete brasileiro um míssil capaz de transportar uma bomba atômica. Daí o fato de se ter optado por combustível sólido e não líquido nesses lançadores. Mísseis são alimentados por combustível sólido e podem ficar estocados para serem disparados imediatamente. Foguetes de combustível líquido exigem vários dias de operações até que possam voar.

O programa espacial brasileiro, em termos de história recente, também não pode ser desvinculado da indústria de armas que faturou alto, nessa época, especialmente com as vendas para o Iraque. Assim, a iniciativa de Pontes, que teria desconcertado até mesmo a AEB, tem uma razão histórica, ainda que possa abrigar certo oportunismo pessoal, não ilegal, mas também não muito ético, em termos de uma cidadania desejável.

As frustrações em relação à aposentadoria precoce do astronauta foram registrados pela mídia na semana passada. Mas suas raízes recuam no tempo e deveriam nos ensinar o melhor caminho para concretizarmos nossas potencialidades. A versão da AEB de que um astronauta popularizaria o programa espacial brasileiro, por exemplo, certamente deveria ser refeita, a partir de outras ações e atitudes. Seria uma forma de ao menos minimizar a frustração com o gesto do astronauta.

Todos os comentários

  1. Comentou em 01/06/2006 maria paula cunha

    Só falta o Lula falar que é culpa de Dom Pedro II e que não sabe que foi ele o financiador de Marcos Fontes, com nosso dinheiro é claro!

  2. Comentou em 30/05/2006 Ivo Lucchesi

    Caro Capozzoli, grato pelo registro contra mais um delito ético contra a ‘consciência desarmada’ daqueles que aderem à idolatria de ícones cujo perfil parece confirmar a disposição de trair o imaginário social na primeira oportunidade. Ao ler a notícia, tive o impulso de convertê-la em artigo para o OI. Acabei por selecionar outro tema. Ainda bem que você o registrou. Que sirva o fato por você corretamente pontuado de lição para a expansão de massa crítica.

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