Domingo, 21 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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O auto-retrato da C&T

Por Sibyla Goulart e Marcelo Tolentino em 30/03/2004 na edição 270

Se o novo ministro da Ciência e Tecnologia quiser mapear a atividade científica e tecnológica do país não precisará visitar as universidades e instituições de pesquisa a bordo de um avião. Um computador conectado à internet será o bastante.

Com alguns cliques, o deputado federal Eduardo Campos (PSB-PE) terá à sua frente um retrato fiel do que se produz em termos de C&T no Brasil. Trata-se da Plataforma Lattes (http://lattes.cnpq.br), iniciativa voltada para a gestão de informação sobre Ciência, Tecnologia e Inovação. Ela armazena mais de 350 mil currículos de pesquisadores, docentes, estudantes, gestores e profissionais das mais diversas áreas do conhecimento. Fruto da parceria entre governo e universidade, a brasileira Plataforma Lattes hospeda ainda 20 mil grupos de pesquisa em cerca de 270 instituições de pesquisa.

Às vésperas de completar cinco anos, a ferramenta, no entanto, ainda é pouco conhecida no próprio país. Um desperdício, é verdade, se for levado em conta o acervo de informações armazenado em sua base de dados. Para se ter uma idéia da cobertura que essas informações representam, pode-se tomar como exemplo a relação dos 10 melhores médicos do Brasil. A lista foi publicada no caderno Sinapse, da Folha de S.Paulo, do dia 17 de fevereiro, em matéria abordando a trajetória de cada um desses profissionais. Dos 10 médicos, nove têm seu currículo cadastrado na Plataforma Lattes. Dois deles, inclusive, com dados atualizados seis dias antes da publicação da reportagem – 11 de fevereiro. E mais: quatro já constam da relação de pesquisadores brasileiros antes mesmo de se completar o quinto censo nacional de grupos de pesquisa (ver subtítulo abaixo ‘A nata da nova geração médica’).

Como se vê, a Plataforma Lattes abriga não apenas pesquisadores e estudantes que requerem verbas federais para implementação de projetos. Ela é, com certeza, uma verdadeira vitrine e memória da C&T brasileira. E não é só a área da saúde que está bem representada. Uma pesquisa sobre transgênicos, por exemplo, indica 162 grupos de pesquisa com atuação relacionada ao tema e 290 currículos de profissionais com algum desempenho na área. Desses, 34 são autores de registros e patentes. Especialistas podem ser facilmente encontrados para apoio científico à Comissão de Biossegurança do governo federal, por exemplo, criada para discutir os organismos geneticamente modificados.

Além de poder beneficiar jornalistas ou comissões especializadas do governo e o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia na tomada de decisão, a Plataforma Lattes pode ajudar empresários na busca de profissionais qualificados, favorecendo a integração universidade-empresa. Afinal, o Brasil tem formado seis mil doutores por ano e, conforme matéria publicada pelo Jornal do Brasil, edição de 2/2/2004, o mercado têm absorvido poucos desses profissionais.

A Plataforma pode ser um veículo de aproximação entre indústria e universidade, pois facilita o acesso e a aplicação de tecnologias de ponta desenvolvidas em universidades e institutos de pesquisa. Já para o pesquisador, favorece o intercâmbio com outros cientistas e auxilia na manutenção de um único currículo científico completo, que serve a várias agências. Aliás, a transparência no processo de fomento é outra grande característica do portal. É possível conferir cada centavo repassado pelo CNPq aos pesquisadores.

Em resumo, a Plataforma Lattes oferece gratuitamente vários serviços a uma vasta gama de usuários.

Números

Apesar de todas as vantagens, a popularidade dessa tecnologia se restringe à academia. Fora das universidades e instituições de pesquisa, o portal ainda é pouco conhecido. Mesmo assim, seu mérito pode ser comprovado pelos números. Em cinco anos, a Plataforma Lattes já acumula 6 milhões de acessos à sua página inicial, é visitada por 67 países e recebe 20 mil visitas diárias.

Desde o lançamento, em agosto de 1999, a Plataforma Lattes mantém um crescimento contínuo da sua base de dados e comprova, a partir daí, sua maturidade no cenário nacional de CT&I. Em junho de 2000, por exemplo, com apenas 10 meses de existência, ela já acumulava mais de 50 mil currículos, um aumento nem mesmo esperado pelos mais otimistas. Afinal, o CNPq (www.cnpq.br), instituição idealizadora do portal, levara sete anos para armazenar cerca de 40 mil currículos eletrônicos. Hoje, recebe um mínimo de 100 novos currículos por dia, e já multiplicou por 10 sua base original de 35 mil documentos, registrando atualmente mais de 350 mil currículos.

O Grupo Stela (www.stela.ufsc.br), vinculado à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), é o principal desenvolvedor da Plataforma Lattes. O laboratório é especializado no desenvolvimento de sistemas de informação e em inteligência aplicada.

Aproximando nações

Mas não é apenas o Brasil que se beneficia de seus recursos. A Plataforma Lattes chamou a atenção de outros países e serve de modelo a uma rede de cooperação internacional. Trata-se da Rede ScienTI (www.scienti.net), idealizada para padronizar e compartilhar informações e metodologias de gestão sobre CT&I da América Latina, do Caribe e dos países da Península Ibérica. A entidade foi criada em dezembro de 2002 na capital de Santa Catarina, Florianópolis, com a participação de 11 países. A Colômbia já utiliza os sistemas brasileiros traduzidos para o espanhol há um ano e meio; o Chile usa há seis meses, e o Peru, há quatro. A lista de países beneficiados não pára por aí. Ainda inclui Argentina, Equador, Panamá, Venezuela, Paraguai e Portugal.

Segundo o diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Alberto Pellegrini, a Rede ScienTI nasce para superar o já lendário isolamento continental. ‘Não se pode esperar que muitos dos problemas da América Latina, se não forem resolvidos na América Latina, sejam equacionados pelas comunidades científicas do Norte’, diz.

Com a Rede ScienTI em vigor, é possível viabilizar uma série de intercâmbios internacionais da comunidade científica e tecnológica dos países participantes. Exemplos de parceria não faltam. Nações poderiam juntar forças e conhecimento para combater doenças como a malária e até mesmo a Aids.

A nata da nova geração médica

Nove dos 10 mais destacados médicos brasileiros apontados pela Folha de S. Paulo, em matéria de 17 de fevereiro, utilizam o Currículo Lattes. Um dado surpreendente, se levarmos em consideração que a ferramenta foi desenvolvida principalmente para a comunidade acadêmica, e tal indicação era para médicos praticantes, não necessariamente para pesquisadores. De fato, apenas quatro dos nove que têm CV-Lattes estão no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil, que mapeia a atividade dos grupos de pesquisa ativos em censos bienais. Isso revela a versatilidade do currículo, que pode ser útil tanto para cientistas atuantes quanto para profissionais preocupados em gerenciar seus dados curriculares.

De acordo com a endocrinologista Ana Cláudia Latronico, 39 anos, uma das selecionadas, o CV-Lattes uniformiza a apresentação de dados curriculares, permitindo assim uma rápida avaliação quando necessária. A médica adotou o sistema há aproximadamente quatro anos, depois que o CNPq solicitou seu preenchimento. ‘Tenho utilizado esporadicamente para solicitações de bolsas ou benefícios ao CNPq. Ou, ainda, quando exigido pela pós-graduação ou departamento médico’, relata ela. Ana Cláudia foi premiada pela Sociedade Norte-Americana de Endocrinologia, no fim de 2003, em reconhecimento a seu trabalho.

Usuário do Currículo Lattes desde a primeira versão, o hematologista e oncologista Bernardo Garicochea, 43 anos, passou a utilizar a Plataforma depois que a Universidade de São Paulo (USP) decidiu padronizar os currículos dos pesquisadores. ‘O Lattes foi um grande avanço. É usado inclusive por empresas privadas para avaliar parcerias em projetos de pesquisa’, informa o médico, que ainda participa do Diretório de Grupos de Pesquisa.

Outro agraciado pelo título, o cirurgião vascular Nelson Wolosker, 42 anos, também passou a usar a Plataforma por orientação da USP e acabou aprovando a iniciativa da instituição. Basta conferir a última atualização de seu CV-Lattes – 11 de fevereiro, seis dias antes da reportagem da Folha. ‘Acho o Currículo Lattes uma ferramenta excelente que padroniza e valoriza nosso trabalho, já que é capaz de comparar de forma objetiva e clara diferentes pesquisadores. Tento deixá-lo sempre atualizado’, conta.

A praticidade do ambiente web atraiu o psiquiatra Orestes Forlenza, 37 anos. Para ele, essa possibilidade é muito mais razoável do que entregar um currículo em papel a cada novo projeto ou contato pessoal. ‘Considero-o extremamente útil por disponibilizar dados online’, aponta. Ele utiliza o CV-Lattes há dois anos.

Já o infectologista Ricardo Sobhie Diaz, 41 anos, que tem como principal objeto de estudo o vírus HIV, usa o sistema para gerar relatórios, especialmente para Capes e CNPq. ‘Meu secretário envia o Lattes a qualquer solicitação de currículo, já que é eficiente e completo para uso no Brasil’, elogia ele, que ainda participa do Diretório de Grupos de Pesquisa com o projeto SPARC, sigla em inglês para Centro de Pesquisa de Aids de São Paulo.

A escolha

Para eleger 10 profissionais desse seleto grupo, o caderno Sinapse da Folha ouviu 23 especialistas renomados das mais variadas áreas da medicina. Eles apontaram seus ‘preferidos’, mas sem se identificar. Nenhum deles indicou assistentes ou pessoas de suas próprias equipes.

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Jornalistas do Núcleo de Mídia Científica da Universidade Federal de Santa Catarina

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