Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIêNCIA > PROGRAMA NUCLEAR

O leitor refém do discurso hegemônico

Por Marinilda Carvalho em 02/11/2004 na edição 301

Qual é a posição da nossa imprensa na questão nuclear brasileira?


1) Estritamente pacifista, ou seja, totalmente antinuclear mesmo para fins pacíficos?


2) Medianamente antinuclear, favorável a essa energia apenas para fins pacíficos?


3) Favorável ao domínio total da energia nuclear pelo Brasil?


4) Defensora da hegemonia dos atuais sócios do clube nuclear, e ponto final?


5) Totalmente ‘isenta’ na matéria?


Vamos assuntar.


A ‘resenha’ (espécie de tradução comentada, que no jargão das redações chamamos de entrevista de artigo) intitulada ‘Science diz que Brasil pode fazer até seis ogivas nucleares por ano’ saiu no Globo de 22/10/2004. Dividida em três partes – principal, box e coordenada –, tinha 39 parágrafos. A principal, com 24 parágrafos, 109 linhas e 964 palavras, começa assim:


‘Na semana em que o governo brasileiro negocia o alcance da inspeção internacional em suas instalações nucleares, artigo publicado pela revista científica ‘Science’, uma das mais prestigiadas do mundo, ajuda a acirrar a controvérsia em torno da visita da Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA) à unidade de enriquecimento de urânio de Resende.


‘Os autores, os pesquisadores Liz Palmer e Gary Milhollin, afirmam que a capacidade de produção de urânio da fábrica seria suficiente para fazer até seis ogivas nucleares por ano. Se ampliada, sustentam, esta produção poderia chegar a 63 ogivas em 2014.’


O leitor pensa: caramba, a Science… então é sério! Começa a ler, e nada de encontrar o nome da instituição a que pertencem os autores. Só acha a informação no sétimo parágrafo (‘Os autores do artigo da ‘Science’ atuam na Projeto Wisconsin de Controle de Armas Nucleares, uma fundação não-governamental de Washington que trabalha para impedir a proliferação de armas nucleares, químicas e biológicas e mísseis de longo alcance’.). O leitor interrompe a leitura da matéria e corre para o computador. Digita ‘wisconsin project’ na barra do Google. Lá está: Wisconsin Project On Nuclear Arms Control (www.wisconsinproject.org/). Diz a apresentação: desde sua criação, em 1986, já identificou mais de 3.500 empresas e projetos de transferência de tecnologia de bombas nucleares e mísseis! Fiu! Seu relatório periódico, Risk Report, ‘ajuda exportadores e governos a manterem produtos perigosos longe de mãos erradas’.


Pentágono?


Epa…! ‘Mãos erradas?’ A pulga atrás da orelha do leitor se assanha toda! Nossa, um think tank americano que mira especialmente os Estados Unidos, o único país, afinal, que já explodiu bomba atômica em áreas civis (que o digam as populações japonesas e do estado americano de Nevada… mão mais errada impossível, certo?). O leitor corre ao link ‘About us’ (www.wisconsinproject.org/aboutus.html), nosso ‘Quem somos’, para saber que instituição é essa, já que a matéria do Globo informa apenas aquela perfumaria citada acima. E lá está, no link ‘What We Do’ (O que fazemos):


‘Em abril de 1990, o Projeto revelou no Washington Post que o Departamento de Comércio dos Estados Unidos planejava aprovar a venda de supercomputadores americanos a países como Brasil, Índia e Israel, que estavam desenhando armas nucleares e mísseis balísticos. Depois que o Projeto repetidamente criticou publicamente essa venda, nenhuma foi afinal aprovada!’


Que coisa… Lembram dos supercomputadores Cray, que a USP e o LNCC-RJ (Laboratório Nacional de Computação Científica, do Ministério da Ciência e Tecnologia) queriam comprar? Quer dizer que foi o Projeto Wisconsin que vetou ‘nosso’ Cray, atrasando nossa pesquisa de supercálculos!? O leitor fica estupefato! Pois se Índia e Israel já têm bomba nuclear! E o Brasil dançou? Poderoso projeto, hein? O leitor pensa, ah, seu Collor, você era mesmo um tolinho! (O Washington Post? Sempre fechou assim, ó, com os interesses comerciais dos EUA…). Mas continuemos:


‘Em julho de 1990, o Projeto revelou no Washington Post que países do Ocidente estavam negligenciando controles de exportação e vendendo itens que o Iraque estava usando para construir armas nucleares e mísseis. As revelações do Projeto provocaram iniciativas, pelos EUA e seus aliados, de retomada do controle de muitos itens que o Projeto advertiu que não deveriam ser liberados.’


Jesus Cristo, terá esse ‘projeto’ de alguma forma contribuído para a primeira Guerra do Golfo? (Há vários outros itens relacionados ao Iraque). Adiante:


‘Em 2000, o Projeto lançou um esforço conjunto com o Pentágono para melhorar os controles de exportação na antiga União Soviética e no Leste Europeu. (…)


‘Em 2001, o Projeto lançou o Iraq Watch (Observatório do Iraque), abrangente site para monitorar o progresso do Iraque na construção de armas de destruição em massa. Na época, o Projeto revelou que o Iraque comprou componentes de empresas na Ucrânia, em Belarus e na Romênia, violando as sanções da ONU.’


Pelos finados em suas tumbas! O leitor, esse otimista que tenta sempre confiar na imprensa de seu país, desiste. Pentágono? Mesmo considerando que o pós-1989 foi um sambalelê, com soldado raso vendendo ogiva nuclear russa a 2 mil dólares, percebe-se que o bendito ‘Projeto’ trabalhou com o Pentágono… Não é portanto instituição sem fins lucrativos coisa nenhuma, muito menos apartidária. Ora, trabalhar de graça para o Pentágono? Nem a velhinha do Nebraska! E o Pentágono é republicano há 200 anos! Mas tem mais:


‘Em 2003, o Projeto voltou sua atenção para as emergentes armas de destruição em massa do Irã. O Projeto fez três informes no Congresso e publicou uma série de artigos no New York Times e no Wall Street Journal alertando que o Irã pode estar criando a bomba enquanto permanece no Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.’


Leitor exausto


O leitor, já estarrecido, lembra das armas vendidas alegremente a Saddam Hussein pelos EUA para que combatesse o Irã na década anterior. E da ajuda aos talibãs do Afeganistão. E dos negócios com representantes da al-Qaeda. Esse leitor começa a desconfiar então de uma coisa: esse tal Project Wisconsin parece meio alinhado à Doutrina Bush (pai) de guerras preventivas, não parece não? Como, o leitor não sabia que tal doutrina é anterior à gestão de George Walker, criada pelo falcão Paul Wolfowitz et matilha para o George anterior, o Herbert? Ah, nossa mídia não trata dessas coisas antigas, certo?


Ao leitor sem informação só resta especular que se tudo correr bem no ninho dos falcões o Irã está com pinta de alvo preferencial da próxima guerra preventiva. Nosso estóico leitor vai até rezar muito a São Judas Tadeu (o das causas impossíveis) para que o sistemático aparecimento de textos contra o Brasil de ‘pesquisadores independentes’ não erga do túmulo o festejado Constantine Menges, que incluiu o Brasil no ‘Eixo do Mal’, ao lado de Cuba e Venezuela… Senão, vamos encarar Tomahawks nas ventas!


Bem, é preciso recordar que nada disso estava na matéria do Globo! Exausto ao fim de tanta pesquisa para poder entender quem são esses caras que afirmam que o Brasil pode construir até seis ogivas nucleares por ano – e o entusiasmo do repórter pela tese deles fica claro em vários trechos da matéria –, nosso desalentado leitor (puxa, isso é o meu dito pacífico país?, pensa) passa ao box, que tem finalidade di-dá-ti-ca. Pelo menos o título diz: ‘Saiba mais sobre a revista’.


Suspense e alegoria


Nesse box, de sete parágrafos, o leitor vai de cara apreendendo que a Science é um espanto de seriedade: tudo é avaliado, analisado, verificado, checado. De cada 12 manuscritos que a revista recebe apenas um é aproveitado. Então… não tem jeito, pensa nosso amigo. Ainda que originária de uma instituição-braço do Pentágono (que pode, atenção, ser genuinamente contrária à produção nuclear), essa dupla de autores está certa – o Brasil anda mesmo escondendo seu jogo nuclear –, porque suas afirmações estão amparadas em análise profunda de seus pares da academia.


Então, no sétimo parágrafo, o choque brutal:


‘Porém, o artigo ‘O quebra-cabeças nuclear do Brasil’, de Liz Palmer e Gary Milhollin, da ONG Wisconsin Project on Nuclear Arms Control, foi publicado na seção chamada Forum Político, dedicada a textos opinativos e não a estudos científicos’ [sic geral].


Ué, ué, ué! O leitor fica pálido (primeiro pela redação cambetinha) e cai durinho da cadeira! Fórum Político? O Policy Forum? Mas aquilo é pitaco puro, equivale quase que a carta de leitor… Andará a Science praticando sensacionalismo vazio? (detratores dizem que há muito tempo). A frase final do box completa o quadro de infarto agudo do miocárdio do nosso estressado amigo:


‘Todavia, o impacto do texto é o mesmo dos demais temas abordados pela revista.’


Ah, é? Para quem, cara-pálida? Só se for para os empregadores de Agamenon Mendes Pedreira e Didi Mocó.


É preciso pedir sinceras desculpas ao leitor do OI pelo insuportável suspense destas 5 laudas-tela, em editor de texto: a intenção (longe de analisar as afirmações técnicas da dupla do Projeto, o que cabe a especialistas) era descrever, nessa alegoria, a atitude dócil de nossa imprensa frente ao canto de galo da ‘matriz’. Submissa, ilude e enrola seu leitor, para no finzinho dar o lide (informação principal) da matéria. Quando dá. O Globo, pelo menos, mesmo relutante, avisa: ‘Tudo o que foi escrito até aqui era pura bobagem. Mas o impacto é o mesmo, viu?’.


A porta-voz manda-chuva


Retrato da nossa mídia, que não só não informa como desinforma, e faz pouco da integridade coronariana de seu leitor. Algum incauto há de dizer: ah, é o Globo. Não, incauto. A Folha foi atrás da pauta no dia seguinte. Quem ela ouviu? Um contraponto abalizado, como seria de se esperar da soi-disant ‘investigativa’ Folha? Não. Ouviu Gary Milhollin! O co-autor da baboseira! Um professor da Escola de Direito da Universidade de Wisconsin… de repente, bem-intencionado, quem sabe? Nosso pobre leitor a esta altura está sem forças para pesquisar o cidadão! A matéria principal, mais descritiva e menos adjetivada que a do Globo, tem um título menos enganoso também, porque não ‘apela’ à Science: ‘Brasil poderá fazer seis ogivas por ano, diz ONG dos EUA’.


A linha-fina anterior ao título principal é pura ironia: ‘O artigo conclama o ‘resto do mundo a ajudar os EUA para convencer o Brasil a considerar a preocupação da comunidade internacional e ser um bom cidadão nuclear’.’


Ah, tenham a santa paciência!


A Comissão Nacional de Energia Nuclear logo soltou nota desmentindo tudo, mas o melhor esclarecimento sobre a asnice geral só apareceu no dia 25 (segunda-feira), em resposta do Ministério da Ciência e Tecnologia –, criticando a Science, e não suas cacatuas nativas:


‘(…) O texto em questão, mesmo em se tratando da seção Fórum Político, extrapola largamente a metodologia e os princípios científicos que sempre caracterizaram a Science, principalmente aceitando um artigo de autores que desconhecem a planta e a tecnologia brasileiras e desconhecem o andamento das negociações com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). (…)


‘A fragilidade da argumentação e a leviandade das afirmações só podem ser devidas a uma grande desinformação ou a interesses escusos, ambos os motivos incompatíveis com uma revista científica do prestígio e tradição da Science. (…)


‘O papel da AIEA baseia-se em três pilares: garantir


1) a não-proliferação,


2) o acesso de todos os países às benesses da tecnologia e


3) o uso seguro dessas tecnologias.’


O leitor viu isso destrinchado em seu jornal no dia seguinte? Qual… Só a ‘matriz’ tem autoridade para falar do assunto. Palavras (distorcidas!) da porta-voz (porta-voz!) da AIEA já não tinham dado manchete de página e chamada na primeira, numa retroalimentação da ‘polêmica’ sobre o ‘cidadão nuclear rebelde’?


Finja de morto


O Globo depois tentou se redimir. Em 27 de outubro publicou editorial intitulado Fantasias, no qual, critica as tolices expostas em sua matéria, mas infelizmente não a cita; na mesma data deu artigo (‘Um grande preconceito’) do vice-almirante reformado Othon Luiz Pinheiro da Silva, que comandou o Projeto Aramar, numa época, pós-ditadura, em que o sonho (ou pesadelo?) de um submarino movido a energia nuclear povoou cabeças sob quepes em Iperó, no interior paulista.


De nada adiantou. O besteirol do Globo e da Folha foi reproduzido em mais de 100 sites, de língua portuguesa e castelhana, no continente e além-mar. Houve quem dissesse que a dupla do barulho era ‘repórter’ da Science… O mundo dobrou-se mais uma vez ao Brasil, desta vez ‘como nação hostil às salvaguardas antinucleares’. Tal qual Irã e Coréia do Norte (que ‘eixo do mal’ mais esticado…).


Constata-se então que nossa imprensa (pelo menos os exemplos citados) escolhe a opção número 4, ou seja, defende a hegemonia dos atuais sócios do clube nuclear, e ponto final? Não, o leitor jamais descobrirá a posição da nossa imprensa. Porque ela não tem. Nossa imprensa é apenas pusilânime, desinformada, subserviente e a reboque de qualquer assunto, por mais grave que seja. A repórter Tânia Malheiros, que conhecia o assunto, trocou há anos de profissão, virou (boa) cantora. E ficamos todos à mercê desses tolos acríticos. Como diz o Seinfeld na TV, ‘you move, you stink’ (mexeu, fedeu). Para evitar o fedor, melhor fingir de morto.


As íntegras estão no Jornal da Ciência, da SBPC


** Matéria do Globo, de 22/10 (www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=22610)


** Matéria da Folha, de 23/10 (www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=22652)


** Nota do MCT, de 25/10 (www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=22651)

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