Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CIêNCIA > MÍDIA & SAÚDE

O papel da imprensa na redução da mortalidade materna

Por Marisa Sanematsu em 31/08/2004 na edição 292

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A mídia informativa é um importante espaço de poder, debate e mediação de conflitos. Estar na mídia é sinônimo de existir. Ela define os assuntos sobre os quais as pessoas conversam dentro de casa, nas reuniões sociais, no ponto de ônibus e no trabalho. Em outras palavras, a mídia tem o poder de selecionar e hierarquizar temas, definindo prioridades. É nesse contexto que se pode afirmar que a imprensa tem muito poder e uma responsabilidade social muito grande na configuração da agenda de debates de uma sociedade.

Maria de Lourdes: 22 anos; falecida em 7/6/1971, às 7h15, no Hospital e Maternidade Modelo (SP); causa da morte: coma hepático; provável hepatite.

Maria de Lourdes Ribeiro da Silva morreu após uma gravidez de sete meses, 15 minutos depois do menino que havia sido retirado a fórceps de seu ventre. ‘Foi o pior momento de toda a minha vida’, declarou o marido de Maria de Lourdes, que afirmou ainda: ‘Ninguém me tira da cabeça que ela morreu por negligência da rede hospitalar do Brasil, por problema de relaxamento médico. Como ela, morrem milhões sem atendimento neste país.’

Passados 32 anos, a morte de Maria de Lourdes foi notícia de capa da revista Época (edição nº 251, de 10/3/03). Talvez esta tenha sido a primeira vez que a morte materna foi capa de uma revista de circulação nacional. Mas isso só aconteceu porque Maria de Lourdes não era mais apenas uma Maria ou um número numa estatística. Ela era a primeira mulher do recém-eleito presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Com mais de três décadas de atraso, a morte de Maria de Lourdes foi noticiada também no Jornal Nacional, da TV Globo, nos jornais Correio Braziliense, O Estado de S.Paulo e em diversos outros veículos de imprensa.

É claro que se tratava da primeira mulher de Lula, mas essa morte só foi capa 32 anos depois porque esse drama continua a acontecer até hoje. São milhares de Marias que continuam a morrer a cada ano, mas elas não aparecem nas capas das revistas e nem nas primeiras páginas dos jornais. Aliás, essas mortes não são nem noticiadas.

Apresento a seguir, apenas para efeito de ilustração e sem qualquer pretensão de realizar um monitoramento rigoroso, pequeno levantamento das principais notícias sobre morte materna veiculadas pela imprensa em 2003 e 2004.

2003

** em março, a história da primeira mulher do presidente Lula, gancho para a revista Época fazer uma reportagem de seis páginas sobre mortalidade materna. A matéria estava repleta de números e era fartamente ilustrada por fotos que mostravam a face negra da morte materna no Brasil; e digo isso com a tranqüilidade de não estar fazendo uma afirmação ‘politicamente incorreta’, pois se trata literalmente da ‘face negra’ da morte materna: as fotos da reportagem mostram claramente que quem morre de causa materna no Brasil são principalmente as mulheres pobres e, entre estas, especialmente as mulheres negras;

** no início de maio, o ranking anual da ONG Save the Children, comparando as condições de mães e recém-nascidos em 117 países, mostra o Brasil em 44º lugar;

** no 28 de Maio (Dia Nacional pela Redução da Mortalidade Materna), dois fatos relacionados à subnotificação da morte materna: 1) pesquisa da Faculdade de Saúde Pública da USP, coordenada pelo professor-doutor Ruy Laurenti, concluiu pela necessidade de um fator de correção de 1,67 para as taxas de mortalidade materna registradas nas capitais brasileiras; e 2) o anúncio do Ministério da Saúde sobre as estratégias do governo federal para atingir a meta de redução da mortalidade materna nas capitais em 25% nos quatro anos seguintes foi amplamente noticiado. O ministro Humberto Costa assinou duas portarias: uma tornou obrigatória a notificação dos óbitos de mulheres em idade fértil para investigação das causas da morte; a segunda portaria tratou da Comissão Nacional de Mortalidade Materna, que trabalharia com os comitês estaduais e municipais para contribuir para o aperfeiçoamento da política nacional de redução da mortalidade materna. No lançamento do programa nacional sobre saúde mental, o presidente Lula lembrou que se comemorava o Dia Nacional de Redução da Mortalidade Materna, dizendo: ‘É importante lembrar dos temas deste dia, porque a mortalidade materna é uma das graves violações dos direitos humanos das mulheres.’

2004

** em março, a apresentação, pelo Ministério da Saúde, do Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal, realizada entre as atividades comemorativas do 8 de Março e do lançamento do Ano da Mulher;

** no início de maio, novamente a divulgação do ranking da Save the Children, que colocou o Brasil em 45º lugar entre 119 países;

** no 28 de Maio, houve, em comparação a 2003, um menor número de reportagens sobre morte materna. Uma possível explicação para essa menor cobertura é que houve a ‘concorrência’ com uma notícia também importante: a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto de lei que prevê punição para o crime de violência doméstica, de autoria da deputada federal Iara Bernardi (PT-SP).

Em alguns jornais, como O Norte (PB), Jornal da Paraíba e Jornal do Commercio (PE), também foi noticiada a realização das conferências estaduais de políticas para as mulheres.De qualquer forma, mesmo que em pequeno número, foram publicadas algumas notícias sobre morte materna, e eu gostaria de abrir um parêntese para falar um pouco mais sobre a cobertura de alguns jornais da região Nordeste no 28 de Maio.

Mesmo correndo o risco de cometer uma injustiça com os demais veículos de imprensa nordestinos, quero primeiramente destacar a reportagem publicada pelo Diário do Nordeste, de Fortaleza. No dia 28 de maio, esse jornal publicou grande reportagem assinada pela repórter Luciana Franco, que apresentou algumas iniciativas de três hospitais de referência da capital cearense. A reportagem mencionou também que integrantes do Comitê de Prevenção da Mortalidade Materna do Estado do Ceará estariam presentes na Conferência de Mortalidade Materna. E, no dia 30 de maio, o Diário do Nordeste voltou a cobrir o tema com matérias sobre pré-natal e a importância do controle da infecção hospitalar.

Ainda no dia 28 de maio, outros jornais nordestinos:

** a Tribuna da Bahia, que publicou matéria intitulada Desinformação causa a maioria dos óbitos maternos e neonatais’, que tratou da mortalidade materna na Bahia e do lançamento do Pacto Estadual;

** o Diário de Pernambuco publicou artigo assinado pela médica Sandra Valongueiro, coordenadora do Comitê Estadual de Estudos da Mortalidade Materna de Pernambuco;

** o Jornal do Meio-Norte, do Piauí, divulgou o Fórum de Debate sobre o Dia Nacional da Redução da Mortalidade Materna;

** o Jornal do Commercio, de Recife, noticiou a abertura da Conferência Estadual de Políticas para as Mulheres, relacionando o evento ao Dia Internacional pela Saúde da Mulher e Redução da Mortalidade Materna.

O que faz a morte materna virar notícia?

Conforme acabamos de ver, para que a morte materna se torne objeto de cobertura da imprensa, é preciso ter:

** a morte de uma gestante famosa;

** iniciativas do Executivo, Legislativo (como a CPI da Mortalidade Materna em 2001), área médica e sociedade civil (em especial, ações no 28 de Maio);

** uma alteração significativa na taxa de mortalidade materna;

** dados impactantes de pesquisas produzidas por instituições de renome.

Como a queda de um Jumbo

Desde 1995 acompanho de forma mais sistemática o noticiário da grande imprensa sobre temas de saúde e direitos humanos e posso afirmar que a cobertura sobre morte materna tem sido pequena, superficial e descontínua. Em outras palavras, a mortalidade materna não está entre as principais preocupações da imprensa brasileira na área da saúde.

De 1996 a 2000, a Comissão de Cidadania e Reprodução fez monitoramento rigoroso do noticiário sobre saúde reprodutiva e sexualidade, e a socióloga Maria Teresa Citeli, coordenadora da pesquisa, concluiu que o problema da mortalidade materna não recebe destaque na mídia impressa. Intitulado ‘Quando a queda de um avião não é notícia’, um dos artigos produzidos no âmbito desse projeto afirma que o número de mortes maternas que ocorrem a cada ano, apenas no estado de São Paulo, corresponde à queda de um Jumbo sem sobreviventes, e isso não é tratado como um fato digno de ser noticiado.

Número estável, não-notícia

Mas, se a cobertura é pequena, podemos dizer que a culpa é da imprensa? Os jornalistas e editores têm sido insensíveis ao problema da morte materna no Brasil?

Em primeiro lugar, é importante ressaltar que a mídia não é um campo neutro, mas sim influenciado por diversas questões que determinam se um fato vai ser noticiado e o tratamento e destaque que essa notícia vai receber. Os veículos de comunicação são concentrados, em poder de poucos grupos empresariais e familiares. Os jornais são empresas privadas, e as redes de rádio e TV, embora concessões públicas, são tratadas como propriedades privadas. Assim, o maior ou menor espaço que um veículo dá, por exemplo, a uma iniciativa de governo, seja federal, estadual ou municipal, pode ser definido em função de arranjos e alianças pessoais e políticas.

Em segundo lugar, é preciso lembrar que jornalistas em geral têm pouco poder de decisão num veículo de comunicação. Os repórteres têm que negociar espaço; às vezes a pauta vem pronta e não há margem para discutir com o editor. Freqüentemente a reportagem está pronta e ela ‘cai’, isto é, vai para o lixo em função de uma notícia de última hora que foi considerada mais importante ou da venda de espaço publicitário.

No caso da mortalidade materna, quem lida com a imprensa e com temas de saúde sabe como é difícil transformar em notícia um número que se mantém estável. Os jornalistas dizem: ‘Não consigo ‘vender’ essa matéria a meu editor. Há anos a taxa de mortalidade materna não muda. Onde está a notícia?’

Um ‘gancho’

Se para a imprensa escrita já existe uma grande dificuldade para noticiar a morte materna, no caso da TV e do rádio é ainda mais difícil. Se não é possível dar uma manchete curta e impactante como ‘dobrou o número de mulheres que morrem na hora do parto’, é preciso descobrir outros ‘ganchos’, que nem sempre são possíveis ou visíveis. Conforme mostrei, foi preciso que Lula se tornasse presidente e tivesse sua biografia vasculhada para que a morte de sua primeira mulher fosse noticiada no Jornal Nacional e gerasse reportagens sobre a morte materna em diversos veículos de comunicação no país.

É preciso lembrar, no entanto, que só o fato de essa taxa permanecer estável nas últimas duas décadas já deveria ser notícia. Com os avanços da medicina e a implantação do Sistema Único de Saúde, o número de mortes deveria ter sido reduzido. Porém, sabemos que, a partir dos esforços de profissionais de saúde, governos e sociedade para denunciar e reduzir a subnotificação, os números tendem a aumentar. Aí pode estar uma das explicações para essa estabilidade.

De qualquer modo, jornalistas dizem que números estáveis não são notícia. Por isso, além de lutar pela redução do índice, dependemos também de mais pesquisas ou iniciativas do governo ou ações da sociedade civil, que produzam informações que possam gerar interesse e entrar na pauta da imprensa. Por isso, continuamos precisando de um ’28 de Maio’, uma data em que, a cada ano, os movimentos sociais, profissionais de saúde e governos produzam ações e informações para que a imprensa tenha um ‘gancho’ para publicar uma matéria sobre o tema.

Elementos da notícia

Diferentemente do que ocorre com a Aids ou o câncer, no caso da morte materna não há uma doença única e exclusiva à qual se possa atribuir a morte. A notícia não é uma doença, mas a morte em si. Quando se fala em mortalidade materna no Brasil, a imprensa tem em mãos um tema de grande impacto social e emocional e que envolve:

** a morte, que é sempre algo forte e que gera interesse e atrai atenção;

** a maternidade, que em nossa civilização judaico-cristã envolve as noções de pureza, dedicação e sacrifício – ‘ser mãe é padecer no paraíso’; no caso da morte materna, incluem-se ainda as idéias de martírio e santificação;

** números, que dão a dimensão do problema, são referendados por instituições reconhecidas, como Ministério da Saúde, Organização Mundial da Saúde etc., e comentados por especialistas, como médicos/as e pesquisadores/as de universidades;

** uma denúncia sobre mortes que poderiam ser evitadas e que refletem a qualidade da assistência à saúde;

** personagens: a própria mulher e as pessoas que ela deixou (filhos, marido, pais etc.), para mostrar o lado humano por trás dos números;

** o interesse do público conjugado ao interesse público: aqui pode-se recorrer a uma frase que o movimento de mulheres usa com freqüência: ‘as mulheres são metade da população e mães da outra metade’. Nunca é demais lembrar também que as mulheres são maioria do público dos principais veículos de comunicação de massa.

Todos esses elementos fazem com que a notícia sobre a morte materna seja capaz de despertar interesse do público se a mídia souber trabalhar bem com eles.

Mídia onipotente?

O jornalista Alberto Dines, em palestra na 12ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em dezembro de 2003, afirmou que o papel da mídia em relação à defesa da saúde pública é: ‘Manter a pressão, identificar as emergências, criar a motivação e oferecer caminhos’.

Se tomarmos essa afirmativa ao pé da letra, acreditaremos que a mídia é onipotente, podendo praticamente sozinha dar conta do recado e solucionar, pelo menos em teoria, todos os problemas relacionados à saúde e ao bem-estar físico e mental da população.

Mas sabemos que isso não é verdade. A mídia tem sim um papel importante, mas ela não pode fazer nada sozinha. Se ela não for alimentada com dados fornecidos por fontes com credibilidade, que sejam comentados por especialistas e ilustrados por personagens, pessoas que dão humanidade aos números, a mídia pouco pode fazer.

Aqui é importante lembrar sempre que a relação entre jornalista e fonte é uma relação entre iguais, baseada numa moeda de troca, que é a informação de interesse público. Ninguém precisa ter que implorar para ser atendido: nem o jornalista nem a fonte. Ninguém está fazendo favor para ninguém. Ambos os lados têm um papel a cumprir e interesse em ampliar o conhecimento e o debate sobre o problema.

Basicamente podemos dizer que o papel da mídia informativa nos esforços de redução da mortalidade materna no Brasil é:

** informar sobre a real situação da morte materna no país, divulgando números atualizados e obtidos junto a fontes confiáveis. É preciso ter um olhar crítico sobre o dado bruto de um número, procurando contextualizá-lo e ir além da superfície. A esse respeito é necessário fazer duas observações: 1) é importante apresentar uma comparação com as taxas de outros países, pois se uma razão de mortalidade materna entre 50 a 150 mortes/100 mil nascidos vivos pode ser considerada pequena, se for comparada com uma taxa de 5 mortes em países como Canadá e Inglaterra, nossa taxa adquire outra dimensão; 2) é preciso sempre enfatizar o problema da subnotificação e isto é especialmente relevante no caso de algumas regiões, como o Norte e Nordeste, onde sabemos que há cidades e estados com taxas baixas e a imprensa deve ter o cuidado de explicar que não se trata de uma boa qualidade de assistência, mas de um sério problema de subnotificação;

** apontar a gravidade da situação, explicando que não são ‘apenas’ 2 mil mortes por ano; deve-se chamar a atenção para o fato de que se trata de mortes que são, em sua maioria absoluta, totalmente evitáveis e por isso a taxa de mortalidade materna é um indicador da qualidade da assistência à saúde da mulher;

** mostrar as vidas por trás dos números, revelando que, além das milhares de mulheres mortas, há também milhares de crianças órfãs, famílias desestruturadas, pais e mães sem filhas, pessoas que perderam amigas, empresas que perderam trabalhadoras, escolas que perderam alunas etc. Há várias histórias de vida por trás de cada uma dessas mortes;

** denunciar a injustiça social e a desigualdade racial e de gênero, mostrando sempre que as maiores vítimas dessas ‘mortes evitáveis’ são mulheres pobres, negras, separadas ou solteiras. Muitas delas são adolescentes ou mulheres sós e desesperadas, que não tiveram apoio na gestação ou na hora de interromper uma gravidez que elas não podiam levar adiante. Se para um fato virar notícia ele deve gerar impacto, os profissionais de imprensa podem mostrar que a morte materna no Brasil é o retrato mais acabado do abandono, da exclusão social, da desigualdade no acesso à saúde, da discriminação racial e da desigualdade de gênero;

** mostrar as causas ocultas por trás de cada morte: um aborto clandestino realizado em péssimas condições ou um exame de pré-natal ou um parto que foram mal-feitos etc.; mas é preciso tomar cuidado para não ficar procurando responsáveis sem ir a fundo na realidade que envolve cada morte. Não se deve ir pelo caminho mais fácil de responsabilizar a mulher porque ela não fez o pré-natal ou então fez um aborto clandestino; ou então responsabilizar o médico que fez o aborto ou então uma cesárea que teve complicações. É preciso procurar entender e mostrar o contexto de pobreza, exclusão, falta de acesso, desespero etc. que está por trás de cada gravidez e de cada morte e, acima de tudo, procurar apontar as soluções para o problema;

** mostrar que o Estado brasileiro já assumiu o compromisso de reduzir a mortalidade materna no país ao assinar diversos acordos internacionais;

** comover e indignar: é possível fazer isso sem apelar para o sensacionalismo;

** provocar a mobilização pública, abrindo discussão sobre o que pode e deve ser feito;

** divulgar também as ‘boas notícias’, mostrando o trabalho de hospitais-modelo, as chamadas ‘ilhas de bom atendimento à saúde’ que apresentam baixos índices de morte materna, e entrevistando profissionais competentes que realizam ótimos trabalhos.

A mídia informativa tem papel estratégico na formação da opinião e na pressão por políticas públicas. Assim, pode-se dizer que o objetivo final de todo esse trabalho deve ser conscientizar a opinião pública de forma geral e sensibilizar os chamados formadores de opinião e formuladores de políticas, em particular, para que se faça mais em prol da redução da mortalidade materna, tanto no sentido de uma maior atenção à assistência básica em saúde no pré-natal, como na discussão de questões de direitos reprodutivos, como a descriminalização do aborto e o acesso a meios contraceptivos.

A pauta da mídia

É preciso lembrar também que a mídia pauta a própria mídia. Uma notícia divulgada em um grande jornal impresso ou em um telejornal muitas vezes acaba virando notícia em outros jornais e nas rádios. Uma reportagem bem realizada pode ter grande repercussão e gerar um efeito dominó tremendamente positivo.

É preciso estimular a responsabilidade social da imprensa e alertar, conscientizar e sensibilizar jornalistas a respeito da gravidade desse problema. Se a maioria das mortes maternas no país pode ser evitada, ficar indiferente e se omitir é ser cúmplice dessas mortes. Mas é necessário que os jornalistas estejam bem preparados para cobrir temas das áreas de ciência e saúde. Eles não precisam saber tanto quanto os médicos, mas precisam ter noções básicas para saber o que devem perguntar e para compreender as respostas e traduzi-las para o público leitor.

Mas antes de cobrar da imprensa o cumprimento desse papel, é necessário saber do que a imprensa precisa para realizar esse trabalho:

** Em primeiro lugar, a imprensa precisa de informações. Isso é tarefa que cabe aos/às profissionais de saúde, pesquisadores/as, ativistas, parlamentares, membros do Executivo e integrantes de comitês e conselhos. Se forem dados de pesquisas, melhor ainda, pois jornalistas adoram pesquisas. Se forem estatísticas, elas têm que ser confiáveis. Para realizar esta apresentação, fiz um rápido levantamento sobre a cobertura da imprensa sobre o tema da morte materna e descobri que cada reportagem fornecia uma razão de mortalidade diferente.

Se o jornalista recebe a informação de que a taxa oficial é de 75 mortes para cada 100 mil nascidos vivos e vai – como deve fazer todo jornalista sério – checar esse número e encontra que a taxa pode variar entre 51 a 260/100 mil nascidos vivos, e em outro lugar encontra que é 69, mas que, devido à subnotificação, há um fator de correção de 1,67 e as estimativas podem variar entre 140, 160 e 277… O que ele faz com todos esses números? E quanto ao total de mortes? As cifras vão de 1.800/ano, passando por 5 mil até chegar a 8.700. São números divulgados por organizações reconhecidamente sérias, como FNUAP, OMS e Unicef.

Quais são os dados corretos? Alguém tem que explicar a esse jornalista, para que ele possa informar a seus leitores, que esses números estão todos certos e que ao mesmo tempo podem estar todos errados. O único consenso parece ser quando se fala que ‘mais de 90% dessas mortes poderiam ser evitadas se houvesse assistência de saúde adequada’.

** Por isso a imprensa precisa de fontes disponíveis e acessíveis pesquisarores/as, ativistas, representantes de governo – que possam explicar esses números, fazer análises e comentários com uma linguagem fácil e direta. Se o jornalista precisa estar preparado para escrever sobre ciência e saúde, a fonte também precisa se preparar para falar com a imprensa.

Sobre a questão das fontes, é preciso enfatizar, especialmente no caso de pesquisadores e profissionais de saúde, que estes devem ter em mente que, ao falar com a imprensa, não estão falando a alunos ou para seus pares na universidade ou no serviço de saúde. O alvo final da mensagem é o público daquele veículo de comunicação de massa. É claro que o jornalista vai intermediar essa comunicação, esse é o seu papel e ele ou ela deve estar preparado para fazer essa mediação.

No caso de uma pesquisa, é melhor ter em mãos uma síntese de 2 a 3 páginas em vez de entregar ao jornalista um relatório de 300 páginas que ele não terá tempo de ler e no qual nem conseguirá localizar o que há de mais importante. A lógica de funcionamento de uma redação não permite isso. Também é conveniente, quando se concede uma entrevista, já ter alguns argumentos básicos preparados para serem ditos de forma sintética, ter em mãos alguns poucos números, mas que sejam impactantes, não complicar as explicações e citar exemplos de casos verídicos que humanizem a notícia.

** A imprensa precisa também de personagens para dar depoimentos e conferir um lado humano à notícia e fazer o público se identificar com o problema. No caso da morte materna, a personagem principal já faleceu; então, é preciso conseguir que outras pessoas falem dela, que familiares contem o que aconteceu, quais foram os problemas que ocorreram durante a gestação. É preciso que essa morte seja humanizada, que deixe de ser apenas mais um número em uma estatística. É claro que é preciso cuidado, responsabilidade e ética para não cair na espetacularização da notícia, no sensacionalismo, que tem o efeito negativo de acabar banalizando a notícia. Não basta comover. É fácil comover quando se fala sobre morte materna. É preciso causar revolta e indignação e ao mesmo tempo provocar uma mobilização. O grande desafio para a imprensa é desnaturalizar a morte materna e mostrá-la como uma questão política, um grave problema de saúde pública para o qual precisam ser apontadas soluções.

** Ela precisa também de novos enfoques. Como já foi dito, se a taxa de mortalidade materna se mantém estável, isso para a imprensa não é notícia. Para a morte materna ser notícia, é preciso que pesquisadores e pesquisadoras façam recortes nas estatísticas e mostrem aspectos diversificados e que produzam impacto.

No caso da morte materna, tivemos recentemente pesquisas importantes e que viraram notícia ao mostrarem, por exemplo, que quem morre mais no Brasil são as mulheres pobres e as mulheres negras. É disso que precisamos para fazer a morte materna entrar na pauta da imprensa e receber tratamento de problema sério. Precisamos de pesquisas com recortes diversificados, abordagens interessantes e que produzam dados impactantes. Isso alimenta a imprensa e faz a morte materna se tornar notícia.

Outros ‘ganchos’

Se a estabilidade da taxa de mortalidade materna não gera uma notícia, um jornalista sensibilizado pode achar outros caminhos para abordar o problema. Vou citar como exemplo uma notícia recente sobre dois médicos que foram presos em flagrante pela prática de aborto clandestino em uma clínica de classe média alta em São Paulo. Vários jornais impressos e telejornais deram a notícia em pequena nota, apenas informando o fato.

No jornal Folha de S.Paulo, o repórter Aureliano Biancarelli assinou uma reportagem em que, além de dar a notícia completa, usou a história como gancho para lembrar que se estima que 6 mil mulheres morrem a cada ano por complicações com abortos na América Latina e que anualmente ocorrem 240 mil internações no SUS em conseqüência de abortos malfeitos no Brasil. O repórter também entrevistou a médica Maria José de Oliveira Araújo, coordenadora da Área Técnica de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, e integrantes de organizações feministas.

Biancarelli usou uma notícia que podia ter se tornado uma pequena nota na seção de polícia para fazer uma reportagem que chamou atenção para um problema importante. O jornalista deu um novo viés a essa notícia, mostrando que quem pode pagar entre R$ 2 mil e R$ 3 mil procura uma clínica daquelas, e quem não tem dinheiro corre o risco de morrer.

Atrás da notícia

Esse é um exemplo de bom jornalismo, que não fica esperando apenas que dados impactantes de uma nova pesquisa caiam em seu colo. O bom repórter vai atrás da notícia e muitas vezes enxerga por trás de um número ou de um fato qualquer uma notícia que pode ser interessante para o público e de grande interesse público, de real relevância social.

Isso pode ser feito com outras notícias. Em matérias sobre aborto, internações de adolescentes por abortos malfeitos ou parto humanizado, o problema da morte materna pode e deve ser mencionado, incluindo-se dados como: ‘o aborto é a terceira causa de morte materna’ e ‘5ª causa de internação na rede pública de saúde’.

Nos últimos anos temos assistido a diversas ações visando a redução da mortalidade materna no Brasil. O Executivo tem tomado iniciativas de implantar políticas públicas; profissionais de saúde têm se mobilizado para melhorar a assistência à gestante; pesquisadores e pesquisadoras têm realizado estudos e denunciado a gravidade da situação; parlamentares sensibilizados/as realizaram a CPI sobre a Mortalidade Materna, que chamou a atenção de todos os segmentos da sociedade. Os Comitês de Mortalidade Materna têm ampliado a sua atuação. A sociedade civil, em especial as organizações que atuam na área da saúde da mulher, vem empreendendo esforços para denunciar as mortes evitáveis e apontar caminhos, como a descriminalização do aborto, a humanização do parto e a redução das cesáreas.

A imprensa esteve presente e cobriu várias dessas iniciativas. Mas volto a lembrar que foi preciso que se escavasse a biografia do recém-empossado presidente Lula para que a morte materna fosse capa de uma revista semanal de veiculação nacional.

A parte de cada um

Por isso, tenho a dizer em relação à atuação da imprensa nos esforços de redução da morte materna que considero que sua contribuição tem sido valiosa, mas ainda é bastante tímida. Ainda há muito mais que ela pode e deve fazer, conforme apontei, e com a colaboração de profissionais de todas as áreas. Hoje citei alguns exemplos, mas é preciso ir além e unir responsabilidade, sensibilidade, criatividade, ética e profissionalismo para fazer muito mais para contribuir e fazer parte desse pacto nacional pela erradicação da morte materna no Brasil.

Espaços como este, que reúnem profissionais de saúde e de imprensa, pesquisadores e pesquisadoras, representantes de órgãos de governo e de organizações da sociedade civil, são fundamentais para a democratização do conhecimento e do debate. Todos e todas nós que aqui estamos somos diariamente convidados a participar de eventos para debater todos os tipos de questões, boa parte delas muito importantes. Mas os eventos e debates, em si, não produzem soluções. Eles servem para chamar atenção, promover a troca de idéias e até apontar soluções, mas eles mesmos, em si, não bastam.

Não podemos sair desta Conferência com a sensação de dever cumprido, de termos feito a nossa parte. É preciso, acima de tudo, um compromisso com a ação. Cada um e cada uma de nós pode e precisa fazer sua parte em sua área de atuação, para acabar definitivamente com essa indignidade que é a morte materna no Brasil.

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Jornalista, com mestrado pela USP; coordenou diversos projetos de monitoramento e análise da cobertura da imprensa sobre temas como saúde da mulher, Aids e racismo; é editora de conteúdo de sites na internet e consultora de projetos de comunicação para organizações não-governamentais. Atualmente coordena a criação do Portal sobre Violência Contra a Mulher do Instituto Patrícia Galvão

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