Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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Os riscos do almanaquismo

Por Wendel Lima em 10/05/2005 na edição 328

Estamos acompanhando as mudanças de paradigma da ciência e da divulgação científica. A primeira sofreu forte impacto da corrente ideológica pós-moderna, que acabou com a hegemonia das áreas de exatas e biológicas, e promoveu as ciências humanas – leia-se psicologia, antropologia, sociologia e outras ‘logias’ – ao status de ciência.

A divulgação da ciência, por sua vez, também está em franca transição. As pesquisas que ficavam restritas às universidades e laboratórios, e que eram escritas só para cientista ler, agora ganham inteligibilidade e alcançam a grande massa.

Analisar a mudança do primeiro paradigma é tarefa para os filósofos da ciência. O segundo, no entanto, compete principalmente aos jornalistas. A popularização do conhecimento é uma das funções mais nobres da imprensa; todavia, o modo como se faz merece sempre ser reavaliado.

O sensacionalismo já é praticado de longa data. Desde então, é utilizado por muitos, e crucificado por outros. Segundo Alessandra Pinto de Carvalho, em sua dissertação ‘A ciência em revista: Um estudo dos casos de Globo Ciência e Superinteressante‘, o jornalismo científico também apresenta um matiz de sensacionalismo: o almanaquismo. De acordo com ela, é a informação científica que é reduzida ao inusitado ou espetacular. Tal característica é encontrada principalmente nas revistas Superinteressante, Mundo Estranho (da família Super) e a concorrente Galileu, antiga Globo Ciência.

Seria um equívoco desconsiderar a contribuição que esses veículos dão à popularização da ciência. Afinal, é com muita competência gráfica e editorial que revistas como a Superinteressante estão entre as mais lidas no país. Na opinião de Adriano Silva, ex-diretor de redação da revista, a ciência tem que ser divulgada de maneira atraente: ‘A gente não deixa essa seriedade atrapalhar o bom-humor, a (auto)ironia, a leveza que uma boa leitura requer’, enfatiza Adriano em entrevista ao site da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.

Especialização desafiadora

No entanto, até que ponto o almanaquismo comprometeria a função social do jornalismo científico? Primeiramente, é importante lembrar que disponibilizar informações não é, necessariamente, oferecer conhecimento. Ainda mais se essas informações são espetacularizadas. O almanaquismo também incorre no risco de deturpar o conceito de ciência, sendo que o leitor desses periódicos pode associar ciência a bizarrices, propagandismo de bens de consumo, ‘micos da tecnologia’ ou curiosidades sobre os dinossauros.

Tal política editorial pode resultar num interesse apenas momentâneo e superficial, com pouco apelo à reflexão e ao aprendizado dos leitores. Portanto, um público que já tem significativa defasagem escolar, derivada da ineficiência do sistema educacional, também ficaria a ver navios diante do oportunismo econômico da imprensa.

É verdade que o sensacional sempre chamou atenção, ainda mais no contexto atual de monopólio visual e hegemonia da sensação. Logo, fazer jornalismo sem esse apelo, parece inviável economicamente. No entanto, nivelar por baixo nunca foi a postura de um jornalismo ético e duradouro. É função do periódico, sobretudo de linha científica, refinar o gosto do público. Afinal, o jornalismo científico serve exatamente para isso: tornar atraente aquilo em que a massa não vê graça.

Por fim, o almanaquismo pode também representar um prejuízo econômico indireto para o Brasil. Para Marcelo Leite, editor de ciência da Folha de S.Paulo, o jornalismo científico deve democratizar o conhecimento não apenas com fins educativos, mas de desenvolvimento financeiro. Marcelo vê nas pautas de ciência uma grande oportunidade de construir uma ponte entre as universidades e a iniciativa privada, atraindo, assim, investimentos para a pesquisa científica. Isso resultaria, a médio ou curto prazo, em produtos e tecnologia consumíveis pelo grande público. Portanto, a espetacularização da ciência roubaria espaço e credibilidade das pesquisas vendáveis.

É certo que breves considerações a respeito de uma especialização tão desafiadora como o jornalismo de ciência não se esgotam num artigo. Infelizmente, o capitalismo selvagem que assedia as editorias e segmentos mais veteranos do jornalismo não tem perdoado a novata seção de ciência. Novamente, o conhecimento científico corre o risco de ter seu impacto social minimizado, devido aos interesses econômicos. Corre o risco de se tornar um jornalismo amarelo.

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Estudante de Jornalismo do Centro Universitário Adventista (Unasp)

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