Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIêNCIA > MÍDIA E O CICLONE LARRY

Os vivos nada significam

Por Cláudia Rodrigues em 03/04/2006 na edição 375

Sobre o ciclone que arrasou o nordeste da Austrália na segunda quinzena de março, a mídia foi categórica e escolheu que sem mortes não há vítimas, portanto a cobertura do maior ciclone ocorrido na Austrália nos últimos 30 anos não mereceu destaque, reflexões ou repercussão. Quinze dias depois parece que nada está havendo; a mídia nos acostuma a uma nova realidade espetacular temperada a ciclones, tornados, furacões, terremotos e tsunamis. Finalmente somos os mocinhos dos filmes catastróficos esperando nossa vez como protagonistas.

Folha, Zero Hora, Estadão, O Globo, os telejornais todos, nenhum dos grandes comparsas foi atrás das vítimas ambientais da Austrália. Motivo: elas estão vivas, foram retiradas a tempo. A parte humana da tragédia, que incluiria uma abordagem ambiental, perdeu sua importância diante da ausência de mortos.

Obsolescência planejada

Ficamos sabendo e vendo que as plantações de bananeira, totalmente derrubadas, darão enormes prejuízos, assim como outras culturas. Investimentos agrícolas, de engenharia, telefonia e o diabo a quatro estão sendo previstos com euforia. É o mercado. O mercado que precisa de tragédias e grandes concentrações seja do que for, pois só com somas multiplica a grana e torna a investi-la, seja no que for que estiver concentrando mais e melhor. Acabaram as bananas na Austrália? Ueba, onde tem outra concentração de bananas?

Se não fosse horrível seria até engraçado esse filme de terror político, econômico, ambiental e moral a que nos submetem os meios de comunicação. É infantil o raciocínio do crescimento sem limites que rege o planeta. Enquanto os refugiados ambientais australianos aumentam o número dessa nova categoria de excluídos, que segundo a OMS deve bater os 50 milhões até 2010, na França os jovens se revoltam, são considerados baderneiros pela mídia mundial, mas o que não aceitam de fato é o engodo do governo francês que mascara os números para dar a impressão de que o emprego dos jovens está crescendo. É simples: alta rotatividade de empregos, como se faz na já antiga exploração de estagiários. Mas isso a imprensa não explica, só registra que a baderna toda é por causa de uma cláusula que não daria uma garantia de emprego aos jovens rebeldes. É de doer esse tipo de cobertura que não explica o embuste econômico e político atrás da ingênua cláusula.

As leis são regulamentadas para defender a concentração e o controle econômico, sempre com a velha tese de aumentar o bolo para depois repartir. A essas alturas o que vai sobrar para repartir não é terra, água ou comida. A concentração de antenas de celulares e suas suaves radiações não-ionizantes a prestações intermináveis, a concentração de produtos químicos, os venenos inumeráveis e toda sorte de poluentes. O pesadelo é maior diante da obsolescência planejada em tudo, até no lixo. A idéia de consumir muito para reciclar muito dói no cérebro, mas é um grande negócio, apesar da burrice intrínseca contida nesse raciocínio, fartamente incentivado por matérias e mais matérias ‘ambientais’ de proteção aos micos. Haja micos!

Lugar garantido

É para esse pensamento único, voltado para a concentração, que trabalha a mídia, ela mesma uma concentradora de pessoas, formatadora da atitude niilista que domina o planeta e fermenta muito bem no Brasil repleto de ignorantes que portam muito dinheiro. Pois essa mídia dá a notícia do ciclone australiano sem ligá-la aos fenômenos ambientais e ao destino incerto das pessoas da região.

Se um ciclone devastasse sua casa, em alguma costa leste, você continuaria vivendo no mesmo lugar? Como ficam as pessoas que são tiradas de uma área e depois vêem a cidade em que vivem arrasada, os edifícios com a estrutura comprometida, as casas destelhadas, as árvores e jardins destruídos? Como refazer o ano escolar dos filhos?

São muitas questões em torno da vida dos excluídos ambientais, mas a mídia não se importa com eles. Vítimas são os mortos, vítimas relativamente fáceis de dar-se um jeito. É só enterrar que somem, como as da guerra, sempre tem um monte morrendo por dia e a mídia até que dá bastante atenção a eles, a eles e a seus matadores. Os vivos, os que sobram, alguns literalmente aos pedaços, esses já têm seu lugar garantido: o da exclusão, esse negócio que rende um dinheirão.

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Jornalista, Osório, RS

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