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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CIêNCIA > PROGRAMA ESPACIAL BRASILEIRO

Pauta ligeira e desencontros no espaço

Por Ulisses Capozzoli em 24/08/2004 na edição 291

As edições de fim de semana (21-22/8) dos jornais trouxeram material sobre a explosão que em 22 de agosto do ano passado matou 21 técnicos e engenheiros do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) na base de lançamento de Alcântara, no Maranhão.

O motivo técnico do acidente foi uma descarga elétrica de origem desconhecida que acionou um dos motores do foguete – segundo relatório divulgado em meados de março passado. A comissão encarregada das investigações confirmou também um conjunto de falhas que haviam sido apontadas por parte da equipe ligada ao programa, como choques elétricos na torre de lançamento, negligência inconcebível num projeto dessa natureza.

Com cobertura episódica do programa espacial por parte dos meios de comunicação, a sociedade brasileira é informada apenas de parte dos problemas do projeto espacial deflagrado pelo presidente Jânio Quadros, em 1961, e que ainda não conseguiu viabilizar a construção de um foguete para colocação de cargas de pequeno peso em órbita baixa da Terra.

Influência francesa

Existem muitos problemas por trás das versões oficiais do que hoje é conhecido como Missão Espacial Completa Brasileira (MECB) e eles são uma espécie de espelho refletindo valores da sociedade brasileira.

Antes de seguirmos nesta trilha certamente vale a pena acrescentar que os meios de comunicação freqüentemente se referem, com distanciamento inaceitável, ao fato de o Brasil ter um astronauta há anos sendo preparado para um vôo previsto para 2006.

Para que o Brasil necessita de um astronauta?

Talvez o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tenha a resposta. Foi no mandato duplo dele que essa besteira ganhou força e o Brasil gastou alguns milhões de dólares, ninguém sabe quanto, com a preparação do astronauta.

Evidentemente não há nestas observações nenhuma restrição ao candidato a astronauta, um oficial da Força Aérea Brasileira. Mérito dele ter sido o escolhido.

O problema é justificar porque o Brasil, que ainda tem trabalhadores escravos libertados por esquadrões da polícia federal das fazendas de oligarquias rurais, necessitar de um astronauta.

Para o governo FHC daria um ar de modernidade e internacionalismo. Para o governo Lula, acusado de caipira por organizar festas juninas com convidados vestidos a caráter, não faz nenhum sentido.

Mas os treinos continuam e o astronauta Marcos César Pontes pode voar em 2006, pagando, ele mesmo, o preço pelo que, em bom português, pode-se chamar de descaso das ‘autoridades’ brasileiras responsáveis pelos assuntos espaciais.

Os problemas, nessa área, começam justamente na Agência Espacial Brasileira (AEB), retocada para ser uma agência civil, mas que nunca saiu da área de influência militar. E é justamente o segmento militar o maior responsável pelos problemas do programa espacial.

A tal MECB, por exemplo, foi uma reformulação que o programa sofreu no início dos anos 1980 quando o Brasil desistiu de uma interação espacial com a França. A França, como sabe todo estudante de história, teve uma profunda influência na vida científica brasileira desde a época colonial.Especialmente desde 1808 quando a corte portuguesa chegou aqui correndo de medo de Napoleão.

Veio da França o principal núcleo de intelectuais que fundou a Universidade de São Paulo (USP), em 1934. E veio da França também uma das maiores influências epistemológicas, o positivismo, que marcou profundamente as escolas militares e daí se difundiram para as escolas politécnicas e outras escolas brasileiras na segunda metade do século 19.

Fachada civil

No programa espacial, a França estava disposta a transferir para o Brasil tecnologia ligada a foguetes de combustível líquido. O problema é que os militares queriam combustível sólido, porque o plano deles, por trás de um foguete para uso científico, era construir um míssil levando em seu nariz um artefato nuclear.

Essa situação refletia um conflito com a Argentina, num período anterior à guerra das Malvinas, quando, compreensivelmente, o Brasil deu ajuda ao vizinho do sul, com oferta de medicamentos e outros suportes.

As primeiras gerações de foguetes da família Sonda, onde o Sonda 4 forma os estágios do Veículo Lançador de Satélites (VLS), foram transformadas em foguetes de uso militar que a Avibrás, empresa produtora de armas do Vale do Paraíba que os exportou principalmente para o Iraque, para uso na guerra contra o Irã.

Jornalistas fascinados com a indústria criminosa de armas escreveram montanhas de besteiras para justificar um comércio criminoso de destruição da vida e da dignidade humanas. Essa gente cultiva um cinismo pragmático e, no caso das armas, a justificativa era de que outros países também participavam deste mercado. Então, por que o Brasil deveria ficar de fora?

Numa espécie de contra-ataque, no fim dos anos 1980 os países do clube espacial vetaram a transferência para o Brasil de tecnologia estratégica – o sistema de guiagem de satélites, por exemplo – e isso afetou o desenvolvimento do VLS, que já andava a meia velocidade.

Com a criação da AEB, com fachada civil, essas restrições acabaram relaxadas, mas o segmento militar, ligado ao Ministério da Aeronáutica, continua devendo ao país um veículo lançador de satélites. E a lamentável explosão do ano passado mostra a distância a que ainda estamos disso, apesar dos discursos inflamados, quase histéricos, de representantes militares sempre que há oportunidade para isso.

Estudos inconclusos

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ligado ao Ministério da Ciência e Tecnologia, desenvolveu um satélite burro (satélite de coleta de dados, capaz de buscar informações de vários pontos e despejá-las num ponto central), além de artefatos semelhantes com a China na área de sensoriamento remoto.

Quando o satélite de coleta de dados ficou pronto, por volta de 1987, o então diretor do Inpe, Marco Antonio Raupp, sugeriu a contratação de um foguete americano da série Scout para sua colocação em órbita, já que o foguete brasileiro não estava concluído e nem parecia que iria ficar pronto logo. Assim, o satélite ficaria completamente obsoleto ainda no chão.

O então brigadeiro Paulo Camarinha, com a arrogância de padres e militares para dar ordens, veio a São José dos Campos e fez uma condenação veemente da iniciativa. Estávamos no governo de José Sarney e o brigadeiro Camarinha foi catapultado pouco tempo depois, justamente por falar demais.

Mas os problemas já estavam postos e não havia solução à vista.

No Inpe, o diretor Márcio Barbosa, que sucedeu a Raupp, ficou onze anos como diretor-geral. Barbosa tinha seus jornalistas prediletos, aqueles que davam a informação não dos acontecimentos, mas de versões dos acontecimentos.

Nesse intervalo de tempo os problemas se complicaram também no Maranhão, terra dos Sarney. A base de Alcântara, que teoricamente forma o tripé da MECB (satélites, foguete e uma base de lançamento) começou a entrar em descompasso e o programa como um todo perdeu definitivamente o prumo.

A base de Alcântara foi pensada num contexto de guerra fria e articulada com o programa de lançamento de foguetes brasileiros de várias finalidades – além, evidentemente, de foguetes estrangeiros. Poderia ainda abrigar o pouso de um ônibus espacial americano. Mas, agora, após os desastres desses veículos, eles também se transformaram, de alguma forma, em peças de museus.

Em resumo, o que aconteceu foi um efeito combinado entre posturas autoritárias, com postos-chaves ocupados por representantes chefetes acompanhados de suas próprias tropas de choque e uma incapacidade de repensar o projeto. O que se tem hoje é, certamente, uma situação de desencontro. E prova disso é que o próximo lançamento previsto em Alcântara, de um VSB-30, em setembro, será feito sem a conclusão de estudos de revisão necessários após um acidente como o de 22 de agosto de 2003.

Dispensável dizer que lançamentos deste tipo são cercados de sigilo absoluto.

Relatórios pobres

No final de seu governo, o então presidente João Baptista Figueiredo, famoso pela predileção demonstrada ao cheiro de cavalos, acompanhou um desses lançamentos do Sonda 4. A entrada que conduzia á base de Barreira do Inferno, ainda em Natal, onde esses lançamentos eram feitos, estava tomada por tropas e ninhos de metralhadoras. Uma situação tipicamente latino-americana. O que tropas e metralhadoras teriam a ver com o lançamento de um artefato ao espaço? A resposta pode ser: pura demonstração de poder despótico, em lugar de solução racional e inteligente para um projeto que é importante para o Brasil.

No domingo (22/8) foram plantadas sibipirunas em São José dos Campos em homenagem aos mortos de Alcântara. Parte dos familiares desses mortos não compareceu como forma de protesto ao que entendem ser encenação para encobrir responsabilidades.

Assim caminham as coisas no Brasil. A imprensa relata, mas faz pouco mais que relatórios pobres, sem buscar as raízes dos desencontros. Quanto foi gasto até agora com o programa espacial brasileiro? Ninguém sabe e, aparentemente, ninguém quer saber. Por que precisamos de um astronauta? Também ninguém sabe e, ao que tudo indica, nem deseja saber.

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