Quarta-feira, 21 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

CIêNCIA > JORNALISMO CIENTÍFICO

Pedras que caem do céu

Por Ulisses Capozzoli em 10/08/2004 na edição 289

O jornal O Estado de S. Paulo aparentemente decidiu retomar os trabalhos de reportagens, a essência do jornalismo – o que é de se comemorar. A falta de critérios sobre temas e o enfoque apropriado, no entanto, podem prejudicar seus melhores repórteres. Foi o que aconteceu com Valdir Sanches, que assinou, na edição de domingo (7/8), texto sobre objetos que entraram na atmosfera e caíram ao norte de Teresina, no Piauí, na noite de sábado, 24 de julho. Os objetos metálicos recolhidos pela população e apreendidos por agentes policiais (e, ao menos um deles, desaparecido) provocaram comoção no sertão de gente simples e ignorante das coisas do céu, como seria de se esperar.

Valdir Sanches é um repórter de primeiríssima linha, do time do novo jornalismo, técnica que fundiu recursos de reportagem e literatura, nos anos 1960 revelou nomes como Tom Wolf, Trumam Capote e Norman Mailer, nos Estados Unidos. No Brasil, o novo jornalismo foi incorporado pelo Jornal da Tarde, onde trabalhou uma geração de jornalistas de talento, capazes de fazer de uma reportagem uma peça literária sem perder o equilíbrio para um ou outro lado. Valdir Sanches é um desses repórteres, ao lado de Marcos Faerman, outro dos textos mais brilhantes do jornalismo brasileiro no passado recente.

Neste caso das ‘bolas de fogo’ do Piauí, o problema está inteiro na pauta. Quem pensou a matéria e se decidiu por enviar o repórter ao local certamente não tem idéia do que estava fazendo. A razão disso é que o sertão do Piauí, como todo o sertão brasileiro, é o último local onde se pode encontrar explicações razoáveis para um acontecimento dessa natureza. A menos que a intenção da pauta, em vez de oferecer inteligibilidade possível para o que aconteceu, tenha sido a de buscar o exótico, o relato do imaginário – o que não seria de todo equivocado. Mas, neste caso, o material deveria vir acompanhado de um outro texto relatando, o que, de fato, aconteceu.

Efeito das explosões

Desde a queda, no final de julho, os jornais publicaram pequenos textos, todos remetendo ao exotismo do acontecimento. As primeiras versões, evidentemente, vieram relacionadas a explicações de conteúdo alienígena, diluído em sinais pretensamente emitidos pelo céu, de fundo religioso e que remetem a um período pré-científico, pré-renascentista e de raízes ibéricas, para um rápido percurso histórico.

O repórter, com experiência e talento, fez um texto impecável do que a população local julga ter visto. O problema desses relatos, no entanto, está na contextualização imaginária, remetendo a uma ordem de outro tempo – daí a necessidade de um olhar exterior e um diálogo entre as duas versões. Com isso a história teria outro rumo.

O objeto que caiu no Piauí, pelos relatos e fotografias publicadas, muito provavelmente é parte da carcaça de um foguete que reentrou na atmosfera. Pode ser restos de um satélite, mas pela resistência aparente (inclusive a resistência ao atrito com a atmosfera) sugere restos de um foguete.

A órbita baixa da Terra, em torno de 300 km de altitude, está repleta do que se convencionou chamar de ‘lixo espacial’, um risco para satélites e astronautas, em especial em operações externas às naves. Viajando a quase 30 mil km/hora, qualquer partícula pode causar enormes estragos num veículo espacial ou perfurar os trajes e matar um astronauta.

O lixo espacial acumulou-se principalmente durante a guerra fria, quando satélites-suicidas, com objetivos militares, explodiam junto aos engenhos inimigos provocando destruição. Vôos orbitais também contribuíram para o lixo espacial, tanto pelos últimos estágios dos foguetes, que podem permanecer por longos períodos em órbita, como por objetos tão improváveis como ferramentas que os astronautas perderam e que, desde então, giram em torno da Terra como minúsculos e exóticos satélites artificiais.

Diferentes razões podem fazer com que esses objetos reentrem na atmosfera deixando atrás de si um rastro luminoso. Um certo ‘inchamento’ da atmosfera da Terra por efeito de explosões solares, com período médio em torno de 11 anos, é uma dessas razões. Esse fenômeno, por exemplo, derrubou no final dos anos 1970 o satélite americano Solarmax, ironicamente destinado a vigiar as explosões do Sol.

Registro impreciso

Além de objetos que formam o lixo espacial, objetos espaciais podem penetrar a atmosfera e comportar-se como ‘estrelas cadentes’, na terminologia popular. A verdade, no entanto, é que essas ‘estrelas cadentes’ quase sempre são partículas do tamanho de um grão de arroz, desprendidas freqüentemente de cometas e asteróides que penetram a órbita da Terra em torno do Sol.

Essas partículas, os ‘meteoróides’, entram na atmosfera atraídas pelo campo gravitacional da Terra, a diferentes velocidades dependendo da órbita que tenham em torno do Sol. Se vierem em sentido contrário ao do giro da Terra em torno do Sol, têm evidentemente mais energia que se alcançarem a Terra no mesmo sentido da translação.

Ao penetrarem a atmosfera, deixam um rastro luminoso conhecido como ‘meteoro’ e, se sobrevivem ao atrito com a atmosfera e atingem a superfície, são chamados de ‘meteoritos’.

Há toda uma área da astronomia envolvida com o estudo de meteoritos, que acena com a possibilidade de essa especialidade ajudar a decifrar desde o processo de formação do Sistema Solar até a abordagem de vida fora da Terra. Na sexta-feira (6/8) foi encerrado, no Rio de Janeiro, um congresso internacional na área de meteorítica.

O Brasil, em função de seu enorme território, tem, sem dúvida, uma grande quantidade de meteoritos não localizados. Os museus e outros centros de investigação têm dificuldade de encontrá-los sobretudo pelo registro impreciso das quedas. Assim, educar a população tanto para a compreensão de fenômenos naturais como para o relato mais preciso desses acontecimentos é de interesse tanto social quanto científico, para fornecer alguma justificativa.

Leite difícil

As dificuldades no Brasil envolvendo corpos que venham do espaço são aos mesmas quando o caso é localizar as crateras de impacto de asteróides. Uma simples olhada num mapa de crateras de impacto na América do Norte sugere que elas também devem ser mais numerosas no Sul. Apesar disso, no Brasil, até agora, são conhecidas apenas oito crateras desse tipo. Uma delas fica em Parelheiros, ao sul da cidade de São Paulo, e já está tomada por ocupação humana, preenchida por erosão ao longo de milhões de anos desde sua formação. Outra fica na Serra da Cangalha, no Maranhão, vizinha ao Piauí. Tem 12 km de diâmetro externo e 3 km de diâmetro interno.

Investigar essas crateras pode trazer contribuições significativas para a ciência, especialmente envolvendo o que devem ter sido extinções em massa de formas de vida em períodos anteriores ao aparecimento do homem. Um risco que pode se repetir a qualquer momento, embora a maioria das pessoas certamente não esteja disposta a acreditar que isso é possível.

A verdade, no entanto, é que uma quantidade desconhecida de asteróides de pequeno porte, montanhas errantes de 1 quilômetro ou mais de diâmetro, passa freqüentemente pelas ‘proximidades’ da Terra. O impacto de um desses corpos com a superfície da Terra pode arrasar grandes áreas metropolitanas com a energia equivalente à de dezenas de bombas atômicas.

Por tudo isso é de enorme importância oferecer à sociedade um relato inteligível desses acontecimentos. Para não se repetir, por exemplo, o que ocorreu com o Bendengó, o mais famoso dos meteoritos brasileiros.

O Bendengó, um corpo metálico de mais de 5,4 toneladas, hoje exposto no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi localizado em 1784, junto ao rio Bendengó, afluente do Vaza-Barris, na região em que mais tarde Antonio Conselheiro reuniu seus adeptos em Canudos, no sertão da Bahia.

O Bendengó, que consumiu mais de um século para ser transportado ao Rio de Janeiro, semeou uma diversidade de lendas no sertão que ainda hoje resistem ao tempo, especialmente de natureza religiosa. No local da queda do meteorito, por exemplo, logo após sua retirada foi construído um marco batizado com o nome de Pedro II, o patrono da astronomia brasileira. O marco ficou bem pouco tempo em pé.

Em 1888, durante uma das secas que costumam castigar o sertão, o povo pobre e desinformado interpretou a falta de chuvas como um castigo aos homens por terem ‘tirado a pedra do lugar’. Uma multidão destruiu o marco e escavou sua base à procura de uma ‘outra pedra’. Encontraram uma caixa de ferro com uma inscrição relativa ao evento, mas um sertanejo analfabeto, para não revelar seu desconhecimento das letras frente aos conterrâneos, teria traduzido o escrito como ‘Jesus, Maria e José’.

Um dos desafios do jornalismo impresso, nesta era de internet, é fornecer inteligibilidade a acontecimentos sob a forma de jornalismo interpretativo, recorrendo à contextualização histórica. Esse trabalho, porém, começa dentro das redações, na elaboração da pauta e de seus propósitos. Sem este cuidado, um trabalho promissor já começa comprometido e mesmo um repórter talentoso pode ser obrigado a ordenhar pedras.

A desconsideração por meteoritos tem alguma tradição. Em 15 de abril de 1769, por exemplo, Lavoisier (1743-1794) sustentou numa conferência na Academia de Ciências de Paris que ‘pedras que caem do céu não existem’, interpretando-as como ‘ingenuidade do povo’. Isso levou o mineralogista Ignaz Von Born (1742-1791) a retirar de exposição toda uma coleção imperial, em Viena. Antes que outro francês, Jean-Baptiste Biot (1774-1862), confirmasse a origem extraterrestre desses corpos.

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