Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIêNCIA > IMPRENSA E ARQUEOLOGIA

Quando o jornalismo supera a ciência

Por Julio Ottoboni em 01/03/2005 na edição 318

Os jornalistas formam a categoria profissional mais autocrítica do planeta. No entanto, esse exercício de mea culpa pode servir como camuflagem para esconder falhas grotescas de outras atividades. E aí nos conformamos com uma enxurrada de críticas e desculpas de nossas amarguradas e aborrecidas fontes. Do baú de frases feitas, sempre aparecem ‘a imprensa distorceu o que foi falado’, ‘o jornalista não entendeu’ e ‘ por isso que não gosto de dar entrevistas’, e outras.

Assim também ocorre no jornalismo científico, e até com mais freqüência que em outras áreas de cobertura, como economia ou política. Basta surgir pela imprensa uma polêmica envolvendo entidades de pesquisa ou estudiosos para se ter, no final da peleja, um culpado comum: o jornalista. No quadro geral, sabemos que estamos muito aquém do ideal, como qualquer outra atividade profissional, inclusive as voltadas aos estudos científicos.

Um desses casos clássicos de o jornalismo superar a ciência ocorreu em 2003 – e teve seqüência em 2004 –, quando foi achada numa fazenda, no Vale do Paraíba paulista, no cume da Serra do Mar, uma construção de pedras em formato de pirâmide. Blocos imensos de granito, recortados e parte deles dispostos numa imensa parede, estavam soterrados e escondidos pela densa vegetação. Essa ruína foi descoberta nos trabalhos de ampliação de uma área de pastagem.

Tomado pela mesma febre do ouro que motivou os espanhóis a destruírem os monumentos das civilizações primitivas da América, o dono do lugar engrenou um trator de esteira e derrubou parte da estrutura, em busca de artefatos preciosos. O máximo que encontrou foi um pote de barro.

O assunto chegou ao conhecimento da imprensa. Eu mesmo estive no local por duas vezes, na segunda delas com o professor de história e especialista em antigos povos americanos, Luiz Galdino.

Como uma ostra

A primeira providência foi informar órgãos competentes que pudessem preservar o local para futuros estudos e análises. Enviei fotos e um texto explicativo ao Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo (Condephaat), via e-mail do site do oficial da entidade. Resposta nenhuma. Nunca houve qualquer pronunciamento sobre o caso. Núcleos de pesquisas de universidades paulistas e da Universidade Federal do Paraná também foram comunicados do fato e apresentaram o mesmo desinteresse.

No trabalho de encontrar algum especialista interessado em ao menos visitar o local, outros colegas jornalistas atentos ao assunto se agregaram à causa. O Museu de Arqueologia da Universidade de São Paulo (USP) foi contatado e a resposta veio repleta de descaso e preconceito. Mesmo confessando não ter ido ao lugar, mas já sabedor de sua existência, o pesquisador da USP concluiu que ‘deve ser alguma estrutura do período colonial ou do ciclo do café, semelhante a encontrada nas fazendas de Minas Gerais’.

Enquanto a letargia da pesquisa científica burocrática, calcada apenas em publicações e papers, se arrasta pelos corredores acadêmicos, o tal monumento está de esfacelando, sendo destruído pela ação do tempo e do homem, mas principalmente pela falta de compromisso com a história do país.

Desta vez o jornalismo fez sua parte. Descobriu o local, revelou aos leitores a novidade e convocou os cientistas a estudá-la. Mas, por vezes, o mundo da pesquisa se mantém como uma ostra, encarcerada em si mesmo, esforçando-se ao máximo para ignorar o que se passa ao seu redor.

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Jornalista, pós-graduado em Jornalismo Científico

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