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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CIêNCIA > MÍDIA & TRANSGÊNICOS

Riscos da informação incompleta

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 03/08/2004 na edição 288

Dia desses, quando passava pela rua, fui parado por uma senhora de 87 anos que foi amiga de minha mãe, me viu nascer, mas não me poupou. Apontando-me o dedo, acusou: ‘Vocês brasileiros (aqui sou considerado brasileiro) estão queimando a Amazônia para plantar soja modificada e alimentar os bois, assim o McDonald’s poderá vender mais hambúrgueres. Vi tudo na televisão’.

Atribuí sua confusão de assuntos à idade e nem lhe disse que os incêndios florestais no verão italiano destroem proporcionalmente bem mais daquilo que acontece no Brasil, e que são em sua grande maioria de origem criminosa, indo dos interesses imobiliários até à criação de mais empregos na Guarda Florestal. No enfoque europeu, por desconhecimento e má informação, os brasileiros sempre são classificados como os grande inimigos da ecologia.

Mais ou menos seguindo esse rumo, o jornal La Repubblica apresentou artigo que ocupou uma página inteira (9/7/04) com o título ‘Se joga no Brasil de Lula a última partida dos OGM’ (organismos geneticamente modificados), assinado pelo enviado Maurizio Ricci, que escreve de Porto Alegre (RS). Sua história começa com um grupo de rapazes do Greenpeace que está fazendo um protesto defronte ao Palácio Piratini, contra a autorização dada pelo governador Germano Rigotto para o plantio de soja geneticamente modifica no Estado do Rio Grande do Sul.

Ricci continua fazendo um comparativo do que acontece no Estado Paraná, governado por Roberto de Melo e Silva (sic), que mandou queimar plantações de soja transgênica. E no porto de Paranaguá, por ordem desse mesmo governador, a polícia vistoria os caminhões carregados de soja vindos do Rio Grande do Sul. Caso essa seja geneticamente modificada, são impedidos de embarcá-la e devem voltar à origem, pois o Paraná se declara ‘OGM-free’.

O artigo continua explicando que o plantio de OGM é ilegal no país, mas os agricultores gaúchos recebem as sementes contrabandeadas da Argentina e, nesse estado, 60% do plantio é de soja transgênica. Diante da perspectiva de destruir uma plantação de tal tamanho, o presidente Lula, contrariando suas promessas eleitorais de proibir os transgênicos, permitiu por dois anos o plantio e a colheita de soja OGM. Um projeto lei no Congresso remete qualquer decisão a futuras avaliações, caso por caso. Mas, no caso da soja, há uma moratória de um ano e se teme uma legalização desse tipo de cultura.

Outras opiniões

O Brasil é a grande aposta da Monsanto, que produz 90% das sementes OGM do mundo e é sabedora que seu destino gira em torno do Brasil, o maior produtor de soja do mundo. Até agora a expansão da Monsanto no Brasil foi bloqueada pelo fato de que as suas sementes são para climas temperados, como o do Rio Grande do Sul, e não se adaptam ao clima quente e árido do Paraná ou Mato Grosso (sic). O repórter do La Reppublica entrevista um agricultor do Rio Grande do Sul que mostra sua soja tradicional, onde cada planta apresenta 60 vagens em média, e a do vizinho que planta OGM somente 20. Há também a opinião do agrônomo Ventura Barbeiro, do Greenpeace, que diz ser o consumo de herbicidas a grande vantagem apresentada: no primeiro ano de plantio de OGM é muito baixo, mas vai aumentando gradativamente e em progressão geométrica.

O texto de Ricci deixa dúvidas: se as sementes transgênicas não se adaptam ao clima do Paraná, que plantações foram queimadas a mando do governador desse estado? Se, como diz o agricultor ouvido pelo jornal, a produção de sua soja tradicional é três vezes superior à outra e, como esclarece o agrônomo do Greenpeace, ser uma ilusão o baixo consumo de herbicidas, por que 60% dos produtores gaúchos continuam insistindo em fazer essa besteira?

Por tratar-se de um assunto, além de polêmico muito técnico, recorri a uma segunda opinião – a do engenheiro agrônomo Xico Grazaino, que foi secretário de Agricultura do estado de São Paulo e presidente do Incra (Instituto Brasileiro de Colonização e Reforma Agrária). Ele escreve regularmente no jornal O Globo e sobre os OGM e ali publicou dois artigos interessantes, ‘A discórdia dos transgênicos’ e ‘transgênicos verde e amarelo’. Primeiro discorre sobre o obscurantismo que envolve o assunto:

‘Assim tem sido a evolução do conhecimento científico. Uma história recheada de incredulidade e, até, revolta. Certas descobertas, maravilhosas que sejam, despertam sentimentos reacionários. Ao criar as bases do progresso, impulsionando a sociedade para o futuro, a tecnologia incomoda a cultura humana. Fere o conservadorismo’.

Graziano sustenta que a transgenia é feita desde 1972, quando da criação das sementes híbridas, que são resistentes e de maior produção. Os problemas que os OGM possam causar são de conhecimento dos técnicos a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), e estes afirmam que a soja RR (roundup ready) é segura. Graziano pergunta por que insulina pode ser transgênica e a soja, não? E conclui que os transgênicos não podem ser politizados como de esquerda ou de direita, pois dessa forma os políticos oportunistas pretendem saber mais do que os cientistas brasileiros.

O artigo de Maurizio Ricci como sempre é muito bom, pena que não tenha consultado outras opiniões sobre o assunto, o que o levou a uma confusão semelhante à da anciã amiga de minha mãe, quando conclui que a soja modificada brasileira virá para a Europa em forma de ração animal e se transformará nos bifes que comeremos.

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