Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Um assunto público que foi privatizado

Por Sandro José em 13/03/2006 na edição 372

Em matéria publicada em 12/2/06 no jornal A Gazeta (ES), a poluição perdeu o rosto: a maresia, o clima seco e até os ventos que vêm do mar são os responsáveis pela ‘poeira negra’! Enquanto isso, o governo estadual, que deveria fiscalizar, abre mão desse nosso direito e o entrega à empresas ‘mais eficientes’ na medição e no controle da poluição! O que é melhor, o jornal foi totalmente parcial, pois negligenciou informações e, coisa comum, foi aos consultórios médicos saber o que pensam os especialistas…

Pelo amor de deus! A poluição é um assunto público que foi privatizado. Explico. Nos anos 70 e 80 havia inúmeros movimentos sociais que indicavam a poluição como um dos males que afetavam as pessoas na era moderna, fosse na cidade ou no campo. Denúncias de contaminação não faltavam naquela época, e a pressão pela fiscalização fez surgirem os institutos governamentais encarregados do monitoramento da poluição. O forte apelo dos movimentos sociais estava vinculado à percepção do avanço do capitalismo sobre a vida cotidiana e a eliminação da qualidade de vida em favor do progresso. O progresso não chegava a todos, mas a poluição, com certeza.

Nos Estados Unidos foi constatado que as regiões mais degradadas ambientalmente acomodavam as populações mais desprestigiadas naquele país, como negros e latinos. Quanto mais favelado o lugar maior exposição a produtos tóxicos. As empresas no mundo inteiro se adiantaram em criar elas próprias o que seria o padrão aceitável de poluição. Vieram as normas e os médicos, especialistas em gente, e o Estado fizeram coro e assinaram embaixo. Tudo se resolveu. Mais ou menos. As pessoas continuam a morrer de câncer no campo e na cidade, o nível de intoxicação do ar é alarmante em muitas capitais e as franjas da cidade se tornaram um depósito de gente exposta ao que de pior podemos produzir.

Reféns do modelo

No Espírito Santo, onde a onda do desenvolvimentismo ainda não atingiu a administração sonolenta, morrem crianças envenenadas por produtos tóxicos proibidos no mundo inteiro, uma paisagem lunar se cria a cada nova mina de mármore descoberta, quase 10% da Mata Atlântica do estado viraram eucalipto, as empresas monitoram elas próprias seus níveis de poluição, com certeza sempre abaixo dos níveis máximos, enquanto eu e você temos que conviver com esgoto a céu aberto quando fazemos compras nos shoppings.

Não fique triste, você está no centro e paga por tudo isso. Será que a poeira negra é mais fatal que a branca?, perguntaria uma criança. Para as ciências sociais a natureza é uma construção social. Ela está inscrita de diferentes maneiras na história das sociedades porque interessaram à humanidade de diferentes formas. Poluir, em nosso exemplo, é um termo ambíguo, pois envolve uma percepção religiosa da maioria das pessoas. Um dos fundamentos do sagrado é estar separado do impuro. Todas as religiões buscam isto em seu cotidiano ritual, que quer tornar o profano sagrado. No cotidiano, estas operações pela busca do sagrado como limpo é uma obsessão que os inúmeros produtos de limpeza não me deixam mentir.

No nosso caso, esse quadro foi construído de maneira a separar o meio ambiente e os seres humanos, tornar estas coisas ‘coisas’, retirando delas seu sentido de integração e atribuindo-lhes uma equação. Quando culpam os carros pela poluição é como se eles não fizessem parte do desenvolvimento gerado pelos grandes projetos. O mundo da técnica separou os saberes comuns como formas não-científicas de tratar do assunto da poluição e, portanto, passou a desconsiderá-las como uma forma legítima de conhecer. À situação de pobreza das pessoas foi colado um rótulo de ignorante e, daí, a descaracterização dos seus direitos. Isso provocou um movimento inverso de ‘colagem’ dos saberes tradicionais na natureza, vista como coisa simples. Daí eles estarem desautorizados a falar sobre assuntos que são ‘coisas técnicas’. Assunto de pobre se tornou violência, controle de natalidade e cesta básica.

A poluição é uma coisa pública porque afeta o direito das pessoas a se indignarem com ela. O técnico, a lei, o nível aceitável de poluição são invenções de alguns humanos e podem mudar. Se a partícula tem 0,00005mg ou uma tonelada isso não afeta o direito das pessoas se manifestarem, isso sob pena de ficarmos reféns do modelo de natureza e direito criados pelos outros.

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Antropólogo e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (antropologias.blogspot.com)

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