Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CIêNCIA > LEITURAS DA ÉPOCA

Veterinária telepática, a nova crendice

Por Paulo Bento Bandarra em 27/04/2004 na edição 274

A revista Época (edição 309, 19/4/04) publicou reportagem com propaganda da cura pela telepatia em animais. A total falta de critério e prudência da mídia que se propõe a divulgar ciência e coisas supostamente sérias nos deixa às vezes desanimados.

Lavados pela fantasia e sem questionamento crítico, acabam até divulgando bobagens como esta: ‘Cura pela mente – Veterinários desafiam a medicina ao incrementar suas consultas com telepatia. E garantem: os cães se comunicam pelo pensamento’.

Não sei se são veterinários com mentes primitivas que conseguem a proeza devido a seus cérebros arcaicos; mas aposto que são mentes espertas para atrair clientes a qualquer custo, sem a mínima seriedade. Claro que tais práticas vêm dos adeptos de tratamentos alternativos, como florais e homeopatia para animais. Afinal, elas já se posicionaram pela falta de necessidade de confirmação ou base científica para o que alegam.

O jornalista, nosso tutor da comunicação, pois nós, profissionais das práticas científicas, estamos proibidos de usar a mídia para divulgar ciência, se comporta como se não houvessem meios de avaliar se as alegações são razoáveis. Entrevista dois lados como se ciência fosse como política ou religião, em que as opiniões das pessoas se equivalem.

Mister James Randi participou de uma série de programas no Fantástico oferecendo um milhão de dólares a quem tivesse poderes paranormais. Nem nos Estados Unidos nem no Brasil apareceram pessoas com tais poderes. E nem se apresentaram candidatos que adivinhassem o que cães e gatos estivessem pensando, apesar da atraente quantia. (No site de Randi ainda é possível se inscrever.) Promover a venda de Linguagem animal, o livro da americana Penelope Smith que está sendo lançado por aqui, é rebaixar a mídia a mero mercador de variedades.

População crédula

Quando olhamos para o passado, em especial a Idade Média, chamada também de Idade das Trevas, nos consideramos muito distantes daqueles tempos. Um tempo em que os meios de comunicação praticamente não existiam e o índice de analfabetismo era praticamente total. Era uma época dominada pela falta de conhecimento, e o pensamento mágico, as falsas alegações, e o temor de bruxas, mau olhado, gnomos, duendes, poderes sobrenaturais dominavam o imaginário.

Tirando o progresso material de nossa época, que teve um avanço extraordinário, percebemos que não evoluímos muito no aspecto do imaginário. Apesar de contarmos com a globalização da imprensa, do rádio e da televisão, e em tempo recentíssimo, com a internet, ainda vemos fenômenos inexistentes divulgados com a maior naturalidade – assim como abduções por ETs, bruxarias, alegadas curas espirituais, águas curativas, infusão de flores com efeitos curativos etc. Temos um verdadeiro regresso a valores medievais, e uma volta a Estados laicos dominados pelas religiões, que tantos resultados funestos nos legaram no último milênio.

Nisto tem muita responsabilidade o jornalista, que dominou os meios de comunicação. Pois cabe a ele fazer o contraponto entre o fantasioso e o plausível. Deve usar também em divulgação de ciência o mesmo ceticismo que usa no jornalismo investigativo em política, em economia e em matéria policial. Nessas áreas ele não vê muita dificuldade em se basear no método científico, para comprovar o que as fontes alegam.

Temos uma população demasiadamente crédula, que enxerga em vidraça deformada pelo fogo mensagens do sobrenatural. Se falham as pessoas que têm o dever do olhar crítico, a partir da profissão que professam, voltamos ao obscurantismo do passado, estimulando a credulidade.

Volta às alegações gratuitas

Lembro que antigamente a revista Manchete realizou uma série de reportagens mostrando vários deslizes de Chico Xavier, flagrando-o com uma bomba de borracha embaixo do braço que espargia perfume no ambiente. Outro exemplo são as encarnações de irmã Josefa por Otilia Diogo. Nestas sessões produziam-se odores, luzes, escrita direta, entre outros fenômenos. A farsa grosseira e contínua durou até ser tudo desmascarado pela equipe de repórteres de O Cruzeiro, em ampla série de reportagens nos primeiros meses de 1964 e muitas outras posteriores, como a de 27/10/1970.

O ilusionista do Rá, Thomaz Green Morton, foi promovido anos seguidos pela TV Globo, até que o Fantástico resolveu investigá-lo de fato. E caiu-lhe a máscara em pouco tempo, revelando-se seus truques. Isto não impede que ainda seja procurado por crédulos, mas a imprensa (por enquanto) não compactua mais com ele.

E é nisto que se baseia o Iluminismo para a Idade Média. O livre questionamento e a busca da verdade para as crendices da época. O ceticismo sobre afirmações da igreja, o desmascaramento das bruxas e seus ‘poderes’, de alegados fenômenos extraordinários, como assombração, anjos e duendes perambulando pelas casas. Ciência não é apenas conhecimento, mas primordialmente um método para que afirmações sejam testadas.

Este questionamento abriu espaço para que as ciências tivessem evolução extraordinária nos séculos seguintes, após mil anos de estagnação nas crendices. Na área da saúde, tivemos o controle das epidemias, o entendimento do homem pela fisiologia, pela anatomia, pela fisiopatologia – que se quer agora abandonar para voltar ao mundo das alegações gratuitas. E a atração da clientela pela ‘telepatia’ com animais é parte deste regresso.

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Médico

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