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Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CINEMA BRASILEIRO > Festival de Locarno

Realidade brasileira nas telas e um documentário sobre João Gilberto

Por Rui Martins em 08/08/2018 na edição 999

O filme brasileiro “Temporada”, do mineiro André Novais Oliveira, foi muito bem recebido pela crítica por sua autenticidade, por mostrar a realidade brasileira, após sua exibição na mostra paralela Cineastas de Hoje, onde concorre com outros diretores de primeiros filmes.

Inspirado na ação dos agentes sanitários contra o mosquito Aedes aegypti, o realizador brasileiro André Novais Teixeira, criou a agente Juliana encarregada de visitas de porta-a-porta para evitar a proliferação das larvas do mosquito vetor da dengue e Zika em água empoçada em potes de plantas, pneus velhos ou poças de água parada nos jardins. Juliana é atriz profissional, a conhecida Grace Passô, há alguns atores de teatro, mas a maioria dos participantes são amadores e mesmo familiares do diretor do filme.

É o caso do seu irmão, na cena de amor mais sexy do Festival com Juliana, que foge aos padrões cinematográficos por serem ambos obesos. Além de transpor para a tela a realidade popular das periferias das cidades brasileira, no caso Contagem, perto de Belo Horizonte, num retrato fiel da população negra vivendo mal em cortiços, alimentando-se mal e ganhando salários mínimos miseráveis, o filme “Temporada” mostra sem preconceitos como a aparência física dos brasileiros, denunciada já pela OMS, vai sendo a da obesidade, consequente da má alimentação.

André não conta e talvez nem tenha percebido, mas o filme mostra a precariedade do combate aos mosquitos, cuja eficácia deve ser bastante duvidosa.

“O filme vem da minha observação do pessoal que trabalha nas periferias no combate às endemias. Juliana vem do interior de Minas para trabalhar em Contagem na região metropolitana”, conta André. E essa mudança geográfica de Juliana implica também numa mudança de vida e numa abertura, já que passar a conhecer os moradores com suas visitas para alertar contra a proliferação dos mosquitos.

Um filme de pequeno orçamento que é um retrato fiel da realidade brasileira, na qual se misturam a pobreza e aceitação passiva dos pobres trabalhadores nas suas atividades precárias mesmo quando se trata do combate das doenças, num país onde também não se construiu nenhuma infraestrutura social e sanitária nesta tão decantada última década.

Onde está João Gilberto?

O filme é uma investigação quase policial como a busca de um homem procurado, mas difícil de se encontrar. E, por isso, o realizador do filme, o franco-suíço Georges Gachot, à procura de João Gilberto, vai a Diamantina, em Minas Gerais, até à procura do famoso banheiro onde João Gilberto se fechava e ficava tocando de madrugada e onde, dizem, criou a bossa nova, as primeiras composições daquele famoso elepê branco.

E fica principalmente no Rio, com Miúcha e amigos de João Gilberto que mostram os lugares que ele costumava frequentar. E nisso, com a fotografia das ruas de Ipanema, das praias, dos encontros nos sebos, nas livrarias, nas casas de discos e com populares, aparece a beleza do Rio de Janeiro como cartão postal.

“Meu trabalho com a música brasileira, conta o diretor Georges Gachot, já começou em 2003 com um filme sobre a Maria Bethania com o nome “Música e Perfume”. Depois, meu segundo filme “Rio Sonata” foi com Nana Caimmy e o terceiro foi “O Samba”, com Martinho da Vila.

Durante esse trabalho, viajando pelo Brasil, tentei várias vezes encontrar o João Gilberto porque gosto muito dele e porque, para mim ele tem a perfeição. Seu ritmo, sua maneira de tocar o violão muito me impressionam.”

Muitas vezes George Gachot pediu o apoio de seus amigos músicos brasileiros para o lhe ajudarem a encontrar João Gilberto, mas sem sucesso, desconhecendo que o criador da bossa nova rejeitava sempre pedidos de entrevista, mesmo da grande mídia brasileira.

“Eu sabia, diz Georges Gachot, que João Gilberto era muito complicado, que chegava a parar shows por haver ventilação muito forte na sala ou por ter o violão desafinado, mas estava acostumado a trabalhar com artistas complicados. Foi o caso de minha primeira entrevista com Marta Angerich, a conhecida virtuose pianista argentina. Mas com João Gilberto nunca consegui.

“Até que um dia — conta Georges Gachot — achei na Alemanha um livro do Marc Fischer, que tentou encontrar João Gilberto. Ele falou com Carlos Lira, com João Donato com todos as pessoas mais próximas de João Gilberto, retornando a Berlim sem ter encontrado o compositor cantor. O livro é muito engraçado porque ele escreveu como se fosse uma pesquisa ou investigação, fazendo-se como Sherlock Holmes. É um livro muito pessoal”. E foi nesse livro que Gachot se apoiou para fazer seu filme.

“A pista que Marc Fischer me deixou era muito boa e o livro muito bem escrito. Uso mesmo textos do livro para narrar no meu filme e me faço de Marc Fischer para dar ainda mais autenticidade ao filme, como se ele pudesse chegar ao seu objetivo que era o de ouvir Obalalá cantado e tocado para ele.”

Na impossibilidade de chegar a João Gilberto, Georges Gachot tem agora como objetivo fazer um filme sobre e com Caetano Veloso.

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Rui Martins está em Locarno convidado pelo Festival Internacional de Cinema de Locarno.

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