Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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CINEMA E REALIDADE SOCIAL >

A piscina que liberta e aprisiona

Por Renato Tardivo em 15/09/2015 na edição 868

Se é que já esteve em voga, o senso crítico no Brasil, de algumas décadas para cá, parece ter caído ainda mais em desuso. Quando a desigualdade econômica entre as classes era mais gritante, paradoxalmente talvez houvesse uma maior tolerância à convivência entre as diferentes camadas sociais. Seja como for, a polarização era explicitada e, com mais ou menos hipocrisia, admitida. Em suma, era visível.A que horas ela volta?

Nos últimos anos, o poder de consumo das classes menos favorecidas aumentou, mas o abismo (não apenas o econômico) entre as classes também. Sob a capa da sustentabilidade e do assistencialismo – mecanismos perversos pelos quais a polarização econômica é a responsável pela geração de empregos e distribuição de renda –, o retorno à lógica da casa grande e senzala institucionalizou-se de forma velada, cínica, invisível. Nesse sentido, estamos na mesma. Só que pior.

Alguns filmes recentes do cinema brasileiro têm lançado visibilidade a esses mecanismos perversos. Entre eles, podemos mencionar O som ao redor (2012), dirigido por Kleber Mendonça Filho; as ficções documentais de Sérgio Bianchi; Casa grande (2014), dirigido por Felipe Barbosa, que refletiu uma família falida do Rio de Janeiro, suas senzalas e os vínculos contaminados de um país arcaico; e, em estrito diálogo com essas obras, o mais recente filme de Anna Muylaert, Que horas ela volta?

No filme de Muylaert, a câmera habita uma casa de um bairro de classe alta em São Paulo, eminentemente do ponto de vista de Val, a empregada doméstica, em excelente atuação de Regina Casé. Inicialmente, o espectador é apresentado à dinâmica da casa: Barbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli, em atuação impecável) são os pais de Fabinho (Michel Joelsas). Val trabalha e mora na casa há trezes anos, quando deixou a filha em Pernambuco em busca de melhores oportunidades para custear a criação da menina. Barbara, a patroa, vive de aparências e faz às vezes de chefe de família, embora eles vivam da herança deixada pelo pai de Carlos, artista plástico depressivo que desperta às 11 horas da manhã porque Val bate na porta do quarto e o lembra de tomar o remédio. Fabinho é um adolescente em vias de prestar vestibular e o afeto entre ele e Val, que como muitas domésticas nessa condição criou o filho dos patrões, é nítido.

Perspectivismo geracional

Val é a guardiã do lar. Há um plano que se repete que é emblemático dessa condição. A câmera mostra o corredor da casa, as portas dos cômodos dos patrões nas laterais e uma escada ao fundo. Val é aquela que habita a casa toda, mas ao mesmo tempo está em lugar nenhum. Também nesse sentido são os planos em que Val está na cozinha e é chamada pelos patrões para servir, tirar, trazer, e só vemos a família por uma fresta da porta. Os planos são quase sempre fechados em Val, que assume o protagonismo da voz e da imagem.

Mas a rotina funcional de treze anos entra em vórtice quando Jéssica (Camila Márdila), filha de Val, telefona pedindo ajuda para vir a São Paulo. Como Fabinho, embora mais madura que ele, ela também irá prestar vestibular no fim do ano – quer fazer arquitetura na FAU. Jéssica é bem recebida pelos donos da casa, embora Carlos a acolha sem maiores ressalvas e Barbara se sinta mais incomodada com a sua presença. Fabinho e Carlos, cada um a seu modo, experimentam algum encantamento por Jéssica, o que incomoda ainda mais Barbara e preocupa Val.

Sem a passividade da mãe, Jéssica vai conquistando os lugares da casa que são proibidos aos empregados. Carlos consente que ela fique no quarto de hóspedes, Fabinho a convida a brincar na piscina. Por meio de Jéssica, enfim, as fronteiras patrões-empregados, ricos-pobres, Sudeste-Nordeste vão sendo explicitadas, confrontadas e, às vezes, transpostas. Adquirem visibilidade.

O filme de Anna Muylaert é contestador, poético e, em alguns momentos, cômico. Com efeito, não deixa de ser patético que a piscina da casa seja símbolo de libertação para os pobres e – o que é mais sutil de perceber – prisão para os ricos. É também um filme sobre o lugar da mulher, partidas e chegadas próprias ao perspectivismo geracional que o filme aborda (os roteiros de Muylaert sempre trazem uma surpresa no final). Aqui, o sopro de esperança no cinema brasileiro é um sopro de esperança para o Brasil.

***

Renato Tardivo é escritor e psicanalista

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