Terça-feira, 15 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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CINEMA E REALIDADE SOCIAL > Berlinale

Acontecimentos reais inspiram filmes exibidos no Festival de Berlim

Por Rui Martins em 12/02/2019 na edição 1024

Quando Alexandre vê, numa cerimônia religiosa, o padre Bernard Preynat, que dele abusou, ainda trabalhando na Igreja com crianças, ele e outras vítimas tomam medidas legais contra o pedófilo, diante da cumplicidade do arcebispo Philippe Barbarin. Filme-realidade, o julgamento será dia 7 de março em Lyon.

Filme francês denuncia padre pedófilo e cumplicidade da Igreja

Cena do filme Graças a Deus de François Ozon.

Um só padre católico, na região de Lyon, na França, abusou de mais uma centena de crianças, quando no exercício de sua função de orientador espiritual junto ao movimento católico dos escoteiros mirins. A quase totalidade dessas crianças não ousava reagir e nem contar para os pais. Apenas algumas, o que motivou cartas para o arcebispo da cidade. Cartas que não provocaram nenhuma reação da direção da Igreja, mesmo se tais atos iriam repercutir na vida adulta dessas crianças, algumas traumatizadas sexualmente.

Mais grave, esse mesmo padre Freynat, continuou no seu trabalho com as crianças, pressupondo-se ter continuado a agir como um pedófilo, desta vez com uma certa cumplicidade do arcebispado, para o qual Freynat seria simplesmente um doente atraído por crianças e não um autor de crime sexual, sujeito a processo e prisão.

Esse não é apenas o enredo de um filme, mas a realidade ocorrida na mais católica e conservadora cidade francesa, onde o arcebispo Philippe Barbarin, também adotou o mesmo método de seu antecessor, minimizando os atos de pedofilia e permitindo ao sacerdote continuar no exercício de sua função.

Ao silêncio da Igreja e dos pais, que descartavam as informações dos filhos julgando-as invenções ou exageros, seguiu-se o das autoridades locais de Lyon, dispostas a apoiar o arcebispo Barbarin, quando, enfim, a Justiça começou a agir, diante das denúncias apresentadas pelas próprias crianças, agora já adultos, muitos com traumas dos abusos na infância, reunidos num site online, cujo nome A Palavra Libertada, decidiu processar judicialmente o padre e o arcebispo.

O filme do cineasta francês François Ozon descreve todo o processo de conscientização e organização dos adultos abusados sexualmente na infância e adolescência e com o apoio de suas famílias e as etapas de ações junto à Polícia e à Justiça, lembrando nisso os filmes políticos de investigação dos anos 60-70, como os de Costa Gavras. Por coincidência, Graças a Deus — título do filme — estreou em Berlim e começará a ser exibido na França, justamente quando a Justiça irá se pronunciar sobre a culpabilidade ou não do arcebispo Philippe Barbarin, no próximo dia 7 de março.

A última cena do filme, cujas cenas são filmadas dentro de Igrejas ou com as famílias de fiéis devotos católicos traídos por um padre e um arcebispo, coloca em destaque a própria questão da existência de Deus. Em todo caso, o Vaticano tinha sido informado do que se passava em Lyon, sem agir, e diante de uma espera condenação do arcebispo Barbarin, deverá agir, se penitenciar ou se descredibilizar.

O título do filme — Graças a Deus — diante da prescrição dos crimes, demonstra a hipocrisia do arcebispo Barbarin — foi uma frase por ele pronunciada durante uma entrevista coletiva com a imprensa em Lyon.

Nota: Na França, o julgamento do cardeal Philippe Barbarin terminou no Tribunal Criminal de Lyon. Após 4 dias de audiência, a decisão final foi reservada para o dia 7 de março. O cardeal Barbarin é acusado por nove vítimas de ter mantido silêncio, embora estivesse ciente dos atos de pedofilia do padre Bernard Freynat de sua diocese. O promotor não exigiu uma condenação contra o cardeal, considerando que os fatos estão prescritos. Mas para alguns demandantes, esse processo já é uma vitória em si.

Site online organizado em Lyon pelas vítimas do padre pedófilo Bernard Freynat.

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Filme ridiculariza o machismo católico ortodoxo na Macedônia

Se existe Deus, não é masculino mas feminino.

O Festival Internacional de Cinema reincide com outro filme de crítica à religião, e, desta vez, o alvo é a Igreja Ortodoxa da Macedônia. Uma festa, na data da Epifânia, que consiste no desafio de recuperar uma cruz lançada ao rio pelo padre local, caiu no ridículo, pois pela primeira vez, em toda Macedônia, foi uma mulher a mais rápida, desencadeando uma reação machista.

Todos os anos, a tradição ortodoxa, na Macedônia, é a de lançar ao rio uma cruz no rio mais próximo. Quem consegue mergulhar e achar o símbolo cristão no fundo do rio pode guardar a cruz, com o valor de amuleto capaz de dar sorte. Porém, ninguém esperava que, em 2014, uma mulher de 32 anos, Petrunyia, desempregada, com diploma superior em História, mergulhasse junto com os rapazes da região e recuperasse a cruz, desencadeando uma vaga machista, envolvendo não só os rapazes derrotados mas igualmente a Igreja, a polícia e a própria justiça

A realizadora macedônia Teona Struger Mitevska se inspirou desse episódio, publicado nos jornais da época mas abafado pelas autoridades civis e religiosas, para fazer um filme de denúncia do caráter machista daquela comemoração popular da Epifânia, destinado a fazer muito mais vagas e provocar muito mais escândalo na Macedonia e nos países ortodoxos, que o fato ocorrido há cinco anos.

Segundo a realizadora Teona, o ocorrido provocou na época uma simples pequena notícia no jornal local, na rubrica fatos diversos, mostrando o comprometimento da imprensa com os poderes político e religioso da região, além de ter sido demitida a única jornalista ativa na divulgação desse episódio pela televisão.

Por uma razão principal, o filme Deus Existe, Seu Nome é Petrunyia foi até agora o mais aplaudido pelos críticos, viveu um standing ovation no momento da entrevista coletiva da realizadora e atores do filme com a crítica, e a atriz principal Zorica Nusheva, no papel de Petrunyia, é a mais cotada para o Urso de melhor atriz.

Mais do um previsível sucesso internacional, num momento em que até a Berlinale divulga um documento criando uma paridade entre os filmes de gênero, são as previsíveis repercussões do filme nos países dos Balcâs, onde as mulheres ainda estão longe de um acesso à igualdade com homens, não apenas entre os ortodoxos como entre os muçulmanos.

A realizadora Teona Struger Mitevska, uma feminista convicta, como se reafirmou no encontro com a crítica, tomou praticamente como missão pessoal, denunciar com seu filme a situação inferior das mulheres no seu país e nos Balcãs em geral, com o objetivo de ajudar numa mudança dessa situação entre os jovens macedônios.

A jovem Petrunyia, causadora do escândalo e inspiradora do filme, deixou a Macedônia faz algum tempo e vive atualmente em Londres. Ausente na apresentação do filme, imagina-se que poderá vir a Berlim, caso haja uma premiação.

Na sinopse do filme, a Berlinale destaca “Teona Strugar Mitevska faz uma sátira raivosa mas melancólica, denunciando que o mergulho religioso para celebrar a Epifania é um assunto de homem. Mas desta vez é Petrunya quem recupera a santa cruz das águas geladas. Contra todas as pressões, ela defende seu triunfo. Uma sátira sobre a mudança democrática na sociedade macedônia que transmite um severo julgamento aos representantes da igreja, do judiciário e da mídia. As simpatias do filme são todas com a mulher determinada que se posiciona contra as tradições arcaicas e o oportunismo paralisante”.

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O jornalista que inspirou a Fazenda de Animais de Orwell

O jornalista galês Gareth Jones foi o primeiro a testemunhar e a descrever a fome na Ucrânia em 1933 — uma catástrofe desencadeada pela política de reforma agrária de Stalin. Entretanto, enfrentou muitas dificuldades para trazer essa informação ao Ocidente. Um encontro com George Orwell deu a idéia do livro A Fazenda dos Animais ao autor de 1984. O filme Mr. Jones, da realizadora Agnieszka Holland é um retrato cinematográfico da época, baseado em acontecimentos reais.

Gareth Jones, o primeiro jornalista a revelar a fome na URSS nos anos 30, é filme em Berlim.

“A grande fome na URSS nos anos 30, causadora de milhões de mortos, foi um terrível crime humanitário de Stalin, muito pouco conhecido. Hoje, com a realização desse filme, é como se os fantasmas das vítimas tenham vindo para pedir justiça. O jornalista Gareth Jones era alguém muito inteligente corajoso, embora um tanto ingênuo, tanto que acabou sendo assassinado na Manchúria, onde fazia outra grande reportagem, com menos de 30 anos, por um agente soviético”, conta a realizadora polonesa Agnieszka Holland.

Ela aproveitou para ressaltar a importância do trabalho dos jornalistas livres, mas alertou para o mal causado pela imprensa corrupta e pelos jornalistas vendidos. A democracia só pode funcionar com uma imprensa livre. Entretanto, no mundo de hoje a informação pode ser alterada e controlada pelas redes sociais da Internet. Para ela, Stalin foi um dos maiores assassinos da história, mas acabou se tornando um herói por ter ganhado a guerra contra Hitler.

O filme conta um provável encontro de Gareth Jones com o escritor George Orwell, que teria inspirado o livro a Fazenda dos Animais, escrito no final dos anos 30 mas só publicado em 1945, graças ao sucesso de 1984.

Em março de 1933, o jornalista galês Gareth Jones tomou um trem de Moscou para Kharkov, na Ucrânia. Desembarcou numa pequena estação e partiu a pé numa viagem pelo país onde testemunhou, em primeira mão, os horrores da fome.

Por toda parte, há pessoas mortas e em todos os lugares encontram-se policiais e agentes do serviço secreto soviético, encarregados de impedir que notícias sobre essa catástrofe da fome sejam divulgadas ao público em geral. A coletivização forçada da agricultura por Stalin tinha provocado miséria e ruína, conta Gareth Jones, a política agrícola de Stalin tinha sido um fracasso.

Apoiado por Ada Brooks, uma repórter do New York Times, em Moscou, Jones consegue levar essas notícias chocantes ao Ocidente, desmentindo seu rival, o jornalista americano pró-Stálin Walter Duranty, ganhador em 1933 do Prêmio Pulitzer, que, mais tarde, foi contestado.

Filmado na Polônia, na Escócia e em locações originais na Ucrânia.

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Boca do Lixo em Berlim

O assassino atacava mulheres solitárias.

O filme sensação no Festival Internacional de Cinema de Berlim, que deixou zonzos os críticos de cinema e abarrotou o imenso salão destinado às entrevistas coletivas foi A Luva Dourada, do realizador Fatih Akin. Nele há um pouco de Rogério Sganzerla com José Mojica Marins, no relato hiperrealista dos crimes do assassino em série Fritz Honka, de Hamburgo, capaz de provocar nos espectadores nojo, repulsa e aversão, junto com a impressão de vir da tela do cinema um cheiro fétido, provocado pelos cadáveres em decomposição, no sotão onde vivia Fritz Honka.

O bairro de St. Pauli, em Hamburgo, nos anos 70, era uma espécie de Boca do Lixo, versão alemã, onde à noite se reunia o rebotalho ou refugo humano, desde bêbados à prostitutas, jogadores de baralho, traficantes, nazistas, zumbis e criminosos. Ali havia, e ainda há, um boteco ainda que era mais sórdido nos anos 70, o Luva Dourada.

Esse hiperrealismo também lembra o dinamarquês Lars von Trier. Porém Fatih Akin, com suas prostitutas obesas e desdentadas, sua decoração de bonecas no sótão maldito, seu assassino estrábico com um olho maior que o outro atrás dos óculos de lentes grossas e a ligeira corcunda do criminoso, vai bem além do Nosferatu de Murnau ou Herzog. E lembra também Frankstein. Porém, o filme de Fatih Akin não provoca medo mas sim repulsa e nojo.

Sem dúvida, alguns críticos devem ter deixado a sala de projeção para ir vomitar. Isso, porém, não significa uma rejeição do filme pela crítica, que tomou um choque mas correu imediatamente para a coletiva do realizador Fatih Akin, logo após a projeção do filme, lotando totalmente a sala.

O filme foi baseado num livro biográfico do assassino, escrito pelo alemão Heinz Strunk, digno do jornal paulista Notícias Populares da mesma época. Entre as cenas grotescas e nauseabundas, como os vermes das carnes podres de suas vítimas caindo do teto sobre os vizinhos de baixo, há o gesto de uma de suas vítimas, uma sobrevivente, de passar mostarda no pênis flácido e impotente do seu quase assassino. Menção simbólica aficionado com a preferência nacional alemã pela salsicha igualmente flácida.

Apesar do mau cheiro do sótão e da figura estranha de Fritz Hunka, a descoberta de seus crimes só ocorreu ao haver um princípio de incêndio no seu prédio, motivando um controle dos apartamentos e do sótão pelos bombeiros.

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Rui Martins está em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

 

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